As férias ainda não terminaram completamente, mas setembro já nos começa a entrar em casa: horários, agendas, escola, trabalho, refeições, atividades e despertadores voltam a ocupar o seu espaço. Para muitas famílias, esta passagem dos dias mais livres para uma rotina novamente exigente, pode trazer cansaço, irritabilidade e alguma ansiedade. Como tornar este regresso mais tranquilo para todos?
O final das férias de verão pode ser acompanhado por sentimentos contraditórios. Por um lado, pode existir a vontade de recuperar alguma organização e previsibilidade, e por outro, custa abandonar o ritmo mais flexível, os dias longos e a menor pressão dos horários das férias. Em poucos dias, a família pode passar de uma rotina relativamente descontraída para outra marcada por maior rigidez e por múltiplos compromissos.

Esta transição é natural, mas nem sempre é simples. Durante as férias, os horários de sono tornam-se frequentemente mais tardios, as refeições acontecem a horas diferentes e aumenta o tempo dedicado ao lazer e, muitas vezes, aos ecrãs. Regressar à rotina exige, por isso, mais do que reorganizar a agenda: implica uma nova adaptação física e emocional. A investigação tem mostrado que rotinas familiares relativamente estáveis podem constituir importantes elementos de organização e segurança para crianças e adolescentes (Selman & Dilworth-Bart, 2024).

Nas crianças, o regresso pode significar voltar a separar-se dos pais durante várias horas, reencontrar professores e colegas ou adaptar-se a uma nova escola ou turma. Alguma ansiedade, irritabilidade ou resistência nos dias anteriores ao início das aulas não significa necessariamente que exista um problema. Mudanças geram incerteza e é natural surgirem perguntas como “Quem vai ficar na minha turma?”, “Vou gostar da professora?” ou “Vou conseguir acompanhar?”. Mais do que tentar eliminar estas emoções, pode ser útil reconhecê-las e transmitir à criança que sentir algum receio perante uma mudança não significa não ser capaz de a enfrentar.

Nos adolescentes, juntam-se frequentemente preocupações com o desempenho académico, o grupo de pares, a imagem pessoal, a autonomia e a organização do tempo. O sono merece especial atenção. Durante as férias, muitos adolescentes passam a deitar-se e a levantar-se bastante mais tarde, tornando difícil uma mudança brusca quando começam as aulas. Existe, nesta fase, uma tendência biológica para horários de sono mais tardios, podendo a incompatibilidade com os horários escolares contribuir para uma menor duração do sono e maior sonolência diurna (Rodríguez Ferrante, Lee & Leone, 2024). Antecipar progressivamente a hora de deitar e acordar, alguns dias antes do regresso, tende por isso a ser mais eficaz do que esperar uma mudança imediata.

Mas o fim das férias também desafia os adultos. Reaparecem os despertadores, o trânsito, as refeições para preparar, os horários escolares e a necessidade de conciliar tudo isto com as exigências profissionais. Quando os pais estão muito cansados ou sobrecarregados, é igualmente mais difícil manter disponibilidade emocional para responder com calma às dificuldades dos filhos. O stresse vivido pelos diferentes elementos da família influencia-se mutuamente, enquanto a coesão familiar e práticas parentais ajustadas podem constituir fatores protetores importantes (Mendes-Sousa et al., 2025).

Por isso, não é necessário reorganizar tudo de um dia para o outro. Pode ser mais útil recuperar gradualmente alguns pontos de referência: regularizar o sono, aproximar os horários das refeições da rotina habitual, preparar material escolar com antecedência e conversar sobre aquilo que vai mudar. Para as crianças mais pequenas, saber quem as vai levar e buscar, onde vão almoçar ou como será o primeiro dia pode trazer segurança. Com os adolescentes, envolvê-los na organização dos próprios horários favorece também a autonomia e a responsabilização.

Outro risco nesta altura é transformar setembro num projeto de produtividade. Escola, explicações, desporto, línguas e outras atividades podem rapidamente preencher quase todo o tempo disponível. No entanto, crianças, adolescentes e adultos continuam a precisar de momentos sem tarefas programadas. Descansar, brincar, conversar ou simplesmente não ter nada previsto, também faz parte de uma rotina saudável.

As rotinas são importantes precisamente porque oferecem previsibilidade, mas não devem confundir-se com rigidez. Pequenos rituais familiares como uma refeição partilhada, alguns minutos de conversa ao final do dia ou uma rotina de preparação para dormir, podem contribuir para o sentimento de segurança, continuidade e pertença familiar (Fiese et al., 2002).

Também não é necessário deixar tudo aquilo que associamos ao verão para trás. Um passeio ao final do dia, um jantar mais descontraído, uma ida à praia ao fim de semana ou simplesmente algum tempo juntos podem ajudar a que o regresso não seja vivido como a passagem do “tempo bom” para o “tempo das obrigações”. Preservar momentos de prazer durante o ano ajuda a tornar a rotina mais sustentável.

Pode ainda ser útil perguntar a cada elemento da família o que está a ser mais difícil. Para uma criança pode ser acordar cedo; para outra, separar-se dos pais. Para um adolescente, reencontrar determinado grupo de colegas. Para um adulto, a logística ou a sensação de voltar a ter pouco tempo para si. Quando conseguimos identificar concretamente a dificuldade, torna-se mais fácil procurar uma resposta adequada.

É também importante distinguir o desconforto esperado de uma fase de adaptação de sinais que merecem maior atenção. Quando surgem ansiedade muito intensa e persistente, queixas físicas frequentes, alterações marcadas do sono ou do apetite, evitamento escolar, isolamento ou uma alteração significativa do funcionamento habitual, poderá ser importante procurar apoio psicológico.

O fim das férias não precisa, assim, de representar um regresso abrupto à pressa e à exigência. Pode ser vivido como uma transição: uma oportunidade para recuperar estrutura sem perder completamente a flexibilidade do verão, rever rotinas que já não funcionavam e construir outras mais ajustadas às necessidades atuais da família. Talvez o objetivo não seja voltar imediatamente ao ritmo habitual, mas permitir que todos encontrem, progressivamente, o seu lugar numa nova etapa do ano.
Referências Bibliográficas
Fiese, B. H., Tomcho, T. J., Douglas, M., Josephs, K., Poltrock, S., & Baker, T. (2002). A review of 50 years of research on naturally occurring family routines and rituals: Cause for celebration? Journal of Family Psychology, 16(4), 381–390.
Mendes-Sousa, M. M., Perrone, M. B., de Melo, R. B., et al. (2025). The impact of family stress and resilience on child development: A scoping review. Trends in Psychiatry and Psychotherapy, 47, e20220556.
Rodríguez Ferrante, G., Lee, F., & Leone, M. J. (2024). Effects of school start time and its interaction with the solar clock on adolescents’ chronotype and sleep: A systematic review and meta-analysis. Sleep Medicine Reviews, 78, 101988.
Selman, S. B., & Dilworth-Bart, J. E. (2024). Routines and child development: A systematic review. Journal of Family Theory & Review, 16(2), 272–328.