As férias são habitualmente associadas a descanso, liberdade e bem-estar. Esperamos que alguns dias longe das obrigações sejam suficientes para recuperar energia, reduzir o stresse e regressar à rotina com uma sensação renovada. No entanto, para muitas pessoas, parar fisicamente não significa conseguir descansar emocionalmente.
Mesmo durante as férias, a mente pode continuar ocupada com assuntos profissionais, tarefas pendentes, preocupações familiares ou decisões que ficaram por tomar. O corpo muda de lugar, mas os pensamentos permanecem ligados às exigências habituais. Esta dificuldade em “desligar” é particularmente frequente após períodos prolongados de sobrecarga ou quando existe a sensação de que é necessário estar permanentemente disponível.

A recuperação psicológica não depende apenas da ausência de atividade profissional. Pressupõe também algum distanciamento mental das preocupações relacionadas com o trabalho e das exigências quotidianas. A investigação tem identificado como importantes para uma recuperação adequada o distanciamento psicológico, o relaxamento, a realização de atividades que proporcionem aprendizagem ou sentimento de competência e a possibilidade de escolher livremente como ocupar o tempo (Sonnentag & Fritz, 2007).

Uma pessoa pode, por isso, estar de férias e continuar a responder a mensagens, verificar o correio eletrónico ou pensar repetidamente no que terá de resolver quando regressar. Esta permanência mental no trabalho dificulta a redução do estado de alerta e pode manter a sensação de cansaço. O uso do telemóvel para fins profissionais fora do horário de trabalho também tem sido associado a uma menor capacidade de distanciamento psicológico, tornando menos clara a fronteira entre o tempo de trabalho e o tempo pessoal (Derks et al., 2014).

Por vezes, o próprio descanso transforma-se numa nova exigência. Surge a ideia de que é necessário aproveitar todos os momentos, organizar programas especiais, viajar, conviver, tirar fotografias e regressar plenamente recuperado. Quando as férias são vividas como mais uma tarefa a cumprir, podem surgir frustração, irritabilidade ou culpa. Algumas pessoas sentem-se desconfortáveis por não estarem a produzir, enquanto outras têm dificuldade em aceitar que continuam cansadas ou ansiosas, apesar de se encontrarem num contexto aparentemente favorável.

Também é possível que, perante a diminuição das distrações habituais, se tornem mais evidentes preocupações, conflitos ou emoções que estavam a ser evitados. O silêncio e a redução do ritmo podem criar espaço para pensamentos que, durante o trabalho, permaneciam em segundo plano. A investigação mostra que as férias tendem a produzir efeitos positivos na saúde e no bem-estar, embora esses benefícios sejam geralmente moderados e possam diminuir pouco tempo após o regresso ao trabalho (de Bloom et al., 2009). Não é, por isso, realista esperar que alguns dias de pausa resolvam, por si só, meses de desgaste físico e emocional.

Descansar não exige preencher todos os dias com atividades nem alcançar um estado permanente de tranquilidade. Pode começar por reconhecer o próprio cansaço e ajustar as expectativas ao momento atual. Estabelecer limites relativamente às comunicações profissionais, reduzir as notificações, alternar momentos de convívio com períodos a sós e escolher atividades agradáveis sem uma finalidade produtiva pode facilitar a recuperação. O sono, o distanciamento mental do trabalho e a possibilidade de decidir como utilizar o tempo parecem assumir particular importância para o bem-estar a longo prazo (Kinnunen & Mäkikangas, 2023).

Para algumas pessoas, descansar poderá significar dormir mais ou passar algum tempo sem horários. Para outras, poderá envolver caminhar, ler, cozinhar, cuidar de plantas, estar com pessoas significativas ou simplesmente reduzir o ritmo. O essencial é que a pausa corresponda às necessidades reais da pessoa, e não apenas à imagem socialmente construída de umas férias perfeitas.

Quando a dificuldade em desligar é persistente, o cansaço não diminui ou a pausa faz emergir ansiedade, tristeza ou uma sensação prolongada de vazio, poderá ser importante compreender o que está a impedir a recuperação. O acompanhamento psicológico pode proporcionar um espaço seguro para reconhecer padrões de sobrecarga, rever limites e encontrar formas mais equilibradas de cuidar de si.
Referências Bibliográficas
De Bloom, J., Kompier, M., Geurts, S., de Weerth, C., Taris, T., & Sonnentag, S. (2009). Do we recover from vacation? Meta-analysis of vacation effects on health and well-being. Journal of Occupational Health, 51(1), 13–25.
Derks, D., van Mierlo, H., & Schmitz, E. B. (2014). A diary study on work-related smartphone use, psychological detachment and exhaustion: Examining the role of the perceived segmentation norm. Journal of Occupational Health Psychology, 19(1), 74–84.
Kinnunen, U., & Mäkikangas, A. (2023). Longitudinal profiles of recovery-enhancing processes: Job-related antecedents and well-being outcomes. International Journal of Environmental Research and Public Health, 20(7), 5382.
Sonnentag, S., & Fritz, C. (2007). The Recovery Experience Questionnaire: Development and validation of a measure for assessing recuperation and unwinding from work. Journal of Occupational Health Psychology, 12(3), 204–221.