Falar é o primeiro passo para a prevenção do suicídio

Man sitting on a bench along a garden path surrounded by autumn foliage

Nem sempre é fácil dizer “não estou bem”. Por vezes, o sofrimento permanece escondido durante semanas, meses ou até anos, atrás das rotinas, das responsabilidades e de uma aparente normalidade. Entre aquilo que sentimos e o momento em que conseguimos pedir ajuda pode existir um longo silêncio. E é precisamente nesse espaço que falar, escutar e reconhecer os sinais de sofrimento pode fazer a diferença.

Todos os anos, a 10 de setembro, assinala-se o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, uma data que procura sensibilizar para a importância de falar sobre o sofrimento psicológico, reduzir o estigma e facilitar o acesso ao apoio. Mais do que centrar a atenção apenas na crise, este dia convida-nos a refletir sobre a forma como escutamos, reconhecemos sinais de sofrimento e criamos espaço para que alguém possa dizer que não está bem.

Dia Mundial da Prevenção do Suicídio

Falar sobre suicídio continua, porém, a ser difícil. É um tema que desperta medo, desconforto e, muitas vezes, a sensação de não sabermos o que dizer. Mas evitar o assunto não faz desaparecer o sofrimento. Pelo contrário, pode contribuir para que quem está em dificuldade se sinta ainda mais isolado ou incapaz de partilhar aquilo que está a viver. A prevenção do suicídio começa muito antes de uma situação de crise. Começa também na forma como olhamos para o sofrimento psicológico, na capacidade de reconhecer mudanças em nós próprios e nos outros, na disponibilidade para escutar e na possibilidade de pedir ajuda sem vergonha ou receio de julgamento.

Person comforting a distressed friend on a living room sofa

Nem todo o sofrimento psicológico conduz a pensamentos suicidas e seria errado estabelecer essa relação de forma automática. No entanto, estados prolongados de desesperança, depressão, isolamento, sentimentos de inutilidade ou a perceção de que os problemas não têm solução podem aumentar a vulnerabilidade de algumas pessoas. Por isso, importa criar contextos onde seja possível dizer que não se está bem antes que o sofrimento se torne demasiado difícil de suportar. Mas porque é que pedir ajuda continua a ser tão difícil?

Two women talking over coffee at a café table

Uma das razões prende-se com o estigma associado à saúde mental. Apesar de atualmente se falar muito mais sobre ansiedade, depressão, psicoterapia e bem-estar emocional, continuam presentes crenças como “tenho de conseguir ultrapassar isto sozinho”, “não quero ser um peso para ninguém”, “os meus problemas não são assim tão importantes” ou “ir ao psicólogo significa que não sou suficientemente forte”.

Woman sitting pensively on a sofa beside an open notebook and coffee

A investigação tem mostrado que o estigma pode efetivamente funcionar como uma barreira à procura de ajuda psicológica. Uma ampla revisão de estudos concluiu que o receio de julgamento, a vergonha, a preocupação com a revelação das dificuldades e determinadas crenças negativas acerca dos problemas de saúde mental podem atrasar ou impedir o acesso a cuidados adequados (Clement et al., 2015).

Estudante segurando folheto diante de livro aberto; texto: “A investigação tem mostrado que o estigma pode efetivamente funcionar como uma barreira à procura de ajuda psicológica. (Clement et al., 2015)”

Existe também, para muitas pessoas, uma ideia profundamente enraizada de autossuficiência emocional. Aprenderam que ser forte significa suportar, continuar, não incomodar e encontrar soluções sozinhas. Algumas habituaram-se desde cedo a ocupar o lugar de quem cuida dos outros e sentem dificuldade em reconhecer que também precisam de ser cuidadas. Nesse contexto, pedir ajuda pode ser vivido como uma espécie de fracasso pessoal. Mas reconhecer limites não é o mesmo que desistir. Pelo contrário, pode representar a capacidade de perceber que aquilo que estamos a sentir merece atenção e que não temos necessariamente de enfrentar tudo sozinhos.

Tearful woman holding a mug as a child watches from a doorway

Outra dificuldade é que o sofrimento emocional nem sempre surge de forma abrupta. Muitas vezes instala-se progressivamente. Começamos por dormir pior, sentir-nos mais cansados, perder interesse em atividades que antes nos davam prazer ou evitar contactos sociais. Podemos tornar-nos mais irritáveis, ansiosos ou pessimistas, ter dificuldade em concentrar-nos ou sentir que as tarefas quotidianas exigem um esforço cada vez maior. Quando estas mudanças acontecem lentamente, existe o risco de nos habituarmos a elas. A pessoa adapta-se ao mal-estar e começa a dizer a si própria que “é só uma fase”, que “há de passar” ou que “há pessoas que estão muito pior”. Comparar sofrimento, contudo, raramente ajuda. Não é necessário chegar ao limite para que aquilo que sentimos seja válido ou para justificar a procura de apoio.

Woman sitting thoughtfully beside a rain-streaked window

No contexto específico do suicídio, o estigma pode assumir ainda maior importância. Uma revisão publicada em 2025 encontrou, na maioria dos estudos analisados, uma associação entre maior estigma relacionado com o suicídio e menor procura de ajuda, assim como piores indicadores de saúde mental e maior risco suicidário. Os autores salientam, por isso, a importância de reduzir o estigma e criar condições para que as pessoas possam falar sobre pensamentos suicidas sem medo de julgamento ou rejeição (Wyllie et al., 2025).

Pessoa a falar sobre sofrimento sem medo de julgamento

Nos adolescentes e jovens, estas barreiras podem assumir características particulares. O medo de serem julgados pelos amigos ou pela família, a preocupação com a confidencialidade, a dificuldade em identificar ou explicar aquilo que sentem, a baixa literacia em saúde mental ou simplesmente não saberem a quem recorrer podem dificultar o pedido de ajuda. Ao mesmo tempo, relações de confiança com familiares, amigos, profissionais de saúde, professores ou outros adultos significativos podem facilitar esse primeiro passo (Wahdi et al., 2025). E esse primeiro passo nem sempre precisa de começar por uma grande conversa. Pode começar por uma frase simples: “Ultimamente não me tenho sentido bem”; “Está a ser difícil lidar com isto”; “Tenho pensamentos que me assustam ou “Preciso de falar com alguém.

Remover folha com texto da imagem

Também quem está do outro lado pode fazer a diferença. Quando percebemos que alguém próximo está diferente, mais isolado, desesperançado, emocionalmente distante ou muito alterado em relação ao habitual, podemos aproximar-nos. Não é necessário ter respostas perfeitas nem saber resolver o problema. Perguntar “Como estás, realmente?”, “Queres falar?”, “Tenho reparado que estás diferente e fiquei preocupado contigo” ou simplesmente mostrar disponibilidade para permanecer e escutar pode ser mais útil do que oferecer imediatamente conselhos.

Two people having a supportive conversation over coffee in a café

Perante sofrimento intenso, frases como “tens de pensar positivo”, “isso vai passar”, “não digas disparates”, “há pessoas muito pior” ou “tens de ser forte” podem, mesmo quando bem-intencionadas, aumentar a sensação de incompreensão. Escutar não significa concordar com tudo aquilo que a pessoa pensa ou sente. Significa reconhecer que a experiência dela é real naquele momento e que merece ser levada a sério.

Friend comforting a tearful person beside a coffee table

E falar diretamente sobre suicídio, quando existem motivos para preocupação, não significa “dar ideias” à pessoa. Perguntar de forma clara e sensível se alguém está a pensar em morrer ou em suicidar-se pode permitir compreender melhor a gravidade da situação e facilitar o acesso à ajuda necessária. A própria campanha da Organização Mundial da Saúde para 2024–2026 sublinha a importância de substituir a cultura do silêncio por conversas abertas e compassivas sobre suicídio.

Two people talking beside Setembro Amarelo suicide prevention posters

É igualmente importante compreender que procurar acompanhamento psicológico não deve ser encarado apenas como um último recurso. Podemos procurar ajuda quando percebemos que determinados pensamentos ou emoções estão a tornar-se difíceis de gerir; quando repetimos padrões que nos fazem sofrer; quando sentimos que estamos a perder capacidade para lidar com as exigências quotidianas; quando as relações se tornam fonte constante de sofrimento; quando atravessamos perdas, mudanças ou situações de crise; ou simplesmente quando as estratégias que utilizávamos até então deixaram de ser suficientes. A intervenção precoce pode permitir compreender melhor aquilo que está a acontecer, identificar fatores de vulnerabilidade e proteção e desenvolver estratégias mais adequadas para lidar com as dificuldades.

Therapist taking notes while client speaks in a counseling office

No caso do suicídio, nenhuma conversa isolada constitui, por si só, uma estratégia de prevenção. A prevenção exige acesso a cuidados de saúde, intervenção especializada, redes de suporte, políticas públicas e respostas adequadas às necessidades de cada pessoa. Mas criar espaço para falar pode ser uma das portas de entrada para essa ajuda. Talvez seja essa uma das mensagens mais importantes do Dia Mundial da Prevenção do Suicídio: não esperar que alguém chegue ao limite para reconhecer o seu sofrimento. Podemos aprender a perguntar. Podemos aprender a escutar e podemos aprender que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas uma possibilidade de cuidado. Entre o silêncio e o pedido de ajuda pode existir apenas uma conversa e por vezes, essa conversa pode ser o início de uma mudança.

Two women holding hands at a café table; sign reads “DIA MUNDIAL DA PREVENÇÃO DO SUICÍDIO – FALAR É O INÍCIO DO CUIDADO.”

Se estiver a viver uma situação de sofrimento intenso, tiver pensamentos de morte ou suicídio, ou estiver preocupado com alguém, procure ajuda de imediato. Em Portugal, a Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico — 1411 funciona 24 horas por dia e é assegurada por profissionais com formação na área da saúde mental. Em situação de perigo imediato, contacte o 112. Está também disponível o Serviço de Aconselhamento Psicológico do SNS 24 — 808 24 24 24, opção 4.

Referências Bibliográficas

Clement, S., Schauman, O., Graham, T., Maggioni, F., Evans-Lacko, S., Bezborodovs, N., Morgan, C., Rüsch, N., Brown, J. S. L., & Thornicroft, G. (2015). What is the impact of mental health-related stigma on help-seeking? A systematic review of quantitative and qualitative studies. Psychological Medicine, 45(1), 11–27.

Wahdi, A. E., James, C., Nadhira, D. A., & Fine, S. L. (2025). Barriers and facilitators of seeking help for mental health challenges among adolescents across 13 countries: A qualitative investigation. Journal of Adolescent Health, 77(3), 421–427.

World Health Organization. (2026). World Suicide Prevention Day 2026: Changing the Narrative on Suicide.

Wyllie, J. M., Robb, K. A., Sandford, D., Etherson, M. E., Belkadi, N., & O’Connor, R. C. (2025). Suicide-related stigma and its relationship with help-seeking, mental health, suicidality and grief: Scoping review. BJPsych Open, 11(2), e60.

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