Há momentos em que continuamos a trabalhar, a cumprir horários, a responder a mensagens, a cuidar da casa e das pessoas à nossa volta e, aparentemente, tudo permanece igual. No entanto, por dentro, podemos começar a sentir que alguma coisa mudou. Há menos paciência, maior irritabilidade, dificuldade em concentrarmo-nos ou uma vontade crescente de nos afastarmos de tudo durante algum tempo.
O cansaço emocional nem sempre se manifesta através da tristeza. Por vezes, aparece de forma mais discreta: na dificuldade em lidar com pequenos imprevistos, na sensação de que qualquer tarefa exige um esforço desproporcionado, numa menor tolerância às exigências dos outros ou na necessidade crescente de estar sozinho e em silêncio. Também pode surgir como dificuldade em tomar decisões, falta de motivação ou menor capacidade para sentir prazer em atividades que habitualmente eram agradáveis.

Importa, contudo, perceber que “cansaço emocional” não corresponde, por si só, a um diagnóstico clínico específico. É uma expressão que pode ser utilizada para descrever uma sensação de desgaste psicológico associada a períodos prolongados de exigência, preocupação ou sobrecarga. O mais relevante é perceber como essa sensação se manifesta, durante quanto tempo se mantém e de que forma interfere com o funcionamento habitual.

Em períodos mais exigentes, algum grau de cansaço é natural. O organismo tem capacidade para mobilizar recursos perante situações de maior pressão ou exigência. A dificuldade pode surgir quando essa ativação se mantém durante demasiado tempo e os períodos de recuperação deixam de ser suficientes. A exposição prolongada ou repetida ao stress pode contribuir para um desgaste progressivo dos recursos físicos e psicológicos, sobretudo quando a pessoa tem poucas oportunidades para recuperar adequadamente entre diferentes exigências (McEwen, 1998).

Nestas situações, mesmo depois de dormir ou de ter algum tempo livre, pode permanecer uma sensação de desgaste difícil de explicar. Isto acontece porque descansar fisicamente nem sempre significa que a mente conseguiu verdadeiramente desligar. Podemos estar sentados no sofá, ter terminado o dia de trabalho ou até estar de férias e, ainda assim, continuar mentalmente ocupados com problemas, decisões, tarefas pendentes ou preocupações. A investigação tem mostrado que a preocupação persistente e a ruminação podem prolongar a ativação associada ao stress para além do momento em que a situação exigente terminou. Ou seja, mesmo quando o estímulo já não está presente, a mente pode continuar a reagir como se ainda fosse necessário resolver, antecipar ou controlar alguma coisa (Brosschot et al., 2006).

Por vezes, continuamos a funcionar durante muito tempo apesar desse desgaste. Cumprimos responsabilidades e mantemos as rotinas, o que pode levar-nos a pensar que não estamos verdadeiramente cansados ou que “não temos motivos” para nos sentirmos assim. No entanto, conseguir continuar a fazer tudo o que é necessário não significa necessariamente estar bem. Também não significa que o esforço exigido para manter esse funcionamento seja o mesmo. Quando estamos mais desgastados, tarefas relativamente simples podem começar a exigir maior esforço mental. A concentração torna-se mais difícil, a motivação pode diminuir e aumenta a tendência para adiar decisões ou evitar situações que parecem exigir demasiada energia. A investigação sobre fadiga mental mostra precisamente que períodos prolongados de esforço cognitivo podem estar associados a menor eficiência, redução da motivação e aumento da sensação subjetiva de esforço (Boksem & Tops, 2008).

É, por isso, importante prestar atenção às mudanças relativamente ao nosso funcionamento habitual. Estar mais irritável, perder facilmente a concentração, sentir que tudo incomoda, evitar contactos sociais, ter menor tolerância à frustração ou dificuldade em desligar mentalmente podem ser sinais de que as exigências acumuladas estão a ultrapassar os recursos disponíveis naquele momento. A forma como reagimos às situações não depende apenas daquilo que acontece, mas também da forma como avaliamos essas exigências e dos recursos que sentimos ter disponíveis para lhes responder. Quando percebemos repetidamente que as exigências excedem a nossa capacidade para lidar com elas, a experiência de stress tende a aumentar. Pelo contrário, a existência de recursos internos e externos, como apoio social, sensação de controlo, capacidade para estabelecer limites, descanso adequado ou estratégias de coping ajustadas, pode facilitar uma resposta mais adaptativa (Lazarus & Folkman, 1984).

Descansar pode ajudar, mas nem sempre descansar significa apenas dormir mais. Recuperar também pode implicar reduzir temporariamente algumas exigências, reorganizar prioridades, criar momentos sem estímulos constantes, estabelecer limites e reconhecer que nem todas as tarefas têm a mesma urgência. Para algumas pessoas, recuperar pode significar caminhar, estar em silêncio ou passar algum tempo sozinhas. Para outras, pode passar por conversar com alguém significativo, estar com pessoas com quem se sentem bem, ouvir música, fazer exercício ou dedicar-se a uma atividade que permita interromper o fluxo habitual de preocupações.

Também é importante evitar transformar o próprio descanso numa nova obrigação. Num quotidiano em que até o autocuidado pode surgir como mais uma tarefa a cumprir, podemos começar a sentir que também temos de “descansar bem”, fazer exercício, meditar, ler, socializar ou aproveitar produtivamente o tempo livre. Mas não existe uma forma perfeita de recuperar. Por vezes, uma pergunta simples pode ser útil: “O que é que neste momento me ajudaria verdadeiramente a recuperar?” A resposta não será necessariamente a mesma em todos os momentos, nem será igual para todas as pessoas. Em algumas fases, aquilo de que precisamos pode ser mais descanso. Noutras, pode ser reduzir exigências, pedir ajuda, dizer não, reorganizar prioridades ou perceber melhor aquilo que está a ocupar continuamente os nossos recursos mentais e emocionais.

Quando esta sensação de desgaste se prolonga, provoca sofrimento ou começa a interferir com o sono, as relações, o trabalho, os estudos ou outras áreas importantes da vida, pode ser útil procurar apoio psicológico. Importa também considerar que sintomas como cansaço persistente, alterações do sono, dificuldades de concentração ou perda de interesse podem ter diferentes causas psicológicas ou físicas e, quando são persistentes ou significativos, devem ser devidamente avaliados. Compreender o que está a contribuir para o cansaço emocional é muitas vezes um primeiro passo para recuperar equilíbrio e encontrar formas mais ajustadas de lidar com as exigências do quotidiano. Nem sempre precisamos de fazer mais. Por vezes, precisamos de perceber o que nos está a exigir demasiado há tempo demais.
Referências bibliográficas
Boksem, M. A. S., & Tops, M. (2008). Mental fatigue: Costs and benefits. Brain Research Reviews, 59(1), 125–139. https://doi.org/10.1016/j.brainresrev.2008.07.001
Brosschot, J. F., Gerin, W., & Thayer, J. F. (2006). The perseverative cognition hypothesis: A review of worry, prolonged stress-related physiological activation, and health. Journal of Psychosomatic Research, 60(2), 113–124. https://doi.org/10.1016/j.jpsychores.2005.06.074
Lazarus, R. S., & Folkman, S. (1984). Stress, appraisal, and coping. Springer Publishing Company.
McEwen, B. S. (1998). Protective and damaging effects of stress mediators. The New England Journal of Medicine, 338(3), 171–179. https://doi.org/10.1056/NEJM199801153380307