Faculdade: Como Lidar com Dúvidas na Escolha do Curso

Student reading an open book on a hallway bench

Entrar na faculdade pode parecer o início de um caminho já definido. Mas, para muitos jovens, este começo traz também dúvidas, inseguranças e o medo de terem feito a escolha errada. E se ainda não souberem exatamente o que querem?

Escolher um curso superior é uma das primeiras decisões importantes que muitos jovens são chamados a tomar. Frequentemente, acontece ainda no final da adolescência, numa fase em que os interesses, os projetos de vida e a própria identidade continuam em construção. Apesar disso, esta escolha pode ser vivida como se tivesse de definir, de uma só vez, uma profissão, um percurso e até uma parte significativa do futuro. Quando é encarada desta forma, não é difícil compreender que possa surgir uma pergunta inquietante: “E se eu tiver escolhido mal?”

Student studying a campus map outside Universidade de São Paulo

A entrada no ensino superior pode ser acompanhada por entusiasmo, curiosidade e vontade de começar uma nova etapa, mas também por alguma insegurança. Alguns estudantes entram no curso que sempre desejaram e, ainda assim, começam a questionar a escolha. Outros ficam colocados numa opção que não era a primeira. Há ainda quem descubra, nas primeiras semanas ou meses, que o conteúdo das disciplinas, o funcionamento do curso ou as possibilidades profissionais associadas à área são diferentes daquilo que tinha imaginado. Ter dúvidas nesta fase não significa necessariamente que tenha sido feita uma escolha errada. A investigação sobre a decisão vocacional mostra que a indecisão pode fazer parte dos períodos de transição académica e profissional e que está relacionada, entre outros fatores, com a confiança que cada pessoa sente na sua capacidade para explorar alternativas e tomar decisões relativamente ao futuro (Amaral et al., 2023). Não saber ainda exatamente que caminho seguir pode, portanto, não representar falta de maturidade ou incapacidade para decidir. Pode simplesmente refletir um processo de exploração que ainda está a decorrer.

Student reviewing career materials beneath Portuguese text about vocational indecision and exploration

Uma das dificuldades pode surgir quando a escolha do curso é interpretada como uma decisão definitiva. Pensamentos como “se escolhi isto, agora tenho de acabar”, “não posso voltar atrás” ou “se mudar de curso, significa que falhei” podem transformar qualquer dúvida numa ameaça. No entanto, entrar num curso não significa necessariamente decidir, aos 17 ou 18 anos, aquilo que se fará durante toda a vida profissional. O percurso universitário pode também constituir um período importante de descoberta. O contacto com novas disciplinas, professores, colegas e experiências pode ajudar o estudante a conhecer melhor os seus interesses, capacidades, valores e preferências. Pode ainda permitir descobrir áreas profissionais que não conhecia ou perceber que algumas ideias que tinha sobre determinada profissão não correspondem à realidade. Este processo de exploração faz parte da construção de um projeto académico e profissional mais informado e ajustado.

Students discussing academic and professional paths around a whiteboard

A comparação com os outros pode, contudo, tornar estas dúvidas mais difíceis de tolerar. Na faculdade, alguns colegas parecem ter certezas muito claras sobre o futuro. Falam sobre especializações, mestrados, profissões ou áreas de interesse com grande convicção. Para quem ainda está inseguro, essa aparente certeza pode reforçar a sensação de estar atrasado ou perdido. No entanto, aquilo que vemos nos outros nem sempre corresponde ao que sentem ou ao grau de certeza que realmente têm. É igualmente importante distinguir entre estar a viver uma fase normal de adaptação e perceber, progressivamente, que determinado curso pode não corresponder aos interesses ou objetivos pessoais. As primeiras semanas no ensino superior são exigentes por várias razões. Mudam os métodos de estudo, aumenta a autonomia, surgem novas relações e responsabilidades e, para muitos jovens, existe ainda uma mudança de cidade, de casa ou um afastamento importante da família. Uma experiência inicial mais difícil não significa necessariamente que o curso esteja errado.

Compass atop stacked books beside a potted green houseplant

Por isso, antes de concluir que é necessário mudar, pode ser útil tentar compreender melhor de onde vem o desconforto. Está relacionado com o conteúdo das disciplinas? Com a exigência académica? Com dificuldades de organização e gestão do tempo? Com a adaptação social? Com a distância de casa? Com o receio de não conseguir acompanhar os colegas? Ou existe uma sensação mais persistente de que os interesses pessoais estão, de facto, noutra direção? Identificar aquilo que está a alimentar a dúvida pode ajudar a tomar decisões mais ponderadas. Também pode ser importante dar algum tempo ao processo. Uma decisão tomada imediatamente perante o desconforto das primeiras semanas pode ser tão precipitada como permanecer num percurso apenas porque se acredita que mudar seria um fracasso. A reflexão pode beneficiar da recolha de informação, do contacto com estudantes de anos mais avançados, professores ou profissionais da área e, quando necessário, de apoio vocacional ou psicológico.

Student studying with laptop and books in a university library

A confiança na própria capacidade para explorar possibilidades e tomar decisões, frequentemente descrita como career decision-making self-efficacy, parece desempenhar um papel relevante neste processo. A investigação sugere que níveis mais elevados desta confiança estão associados a menores dificuldades de decisão e que intervenções de orientação de carreira podem ajudar estudantes universitários a desenvolvê-la (Ulas-Kilic, 2019; Udayar et al., 2020). Mudar de percurso também não significa necessariamente desperdiçar tempo. Essa ideia pode ser particularmente difícil para alguns estudantes e para as suas famílias, sobretudo quando já existiu um grande investimento emocional, académico ou financeiro. No entanto, uma experiência que conduz a uma nova decisão não é necessariamente uma experiência perdida. Pode deixar conhecimentos, competências, relações e, sobretudo, uma compreensão mais clara sobre aquilo que a pessoa procura ou não procura para o seu futuro.

Estudante refletindo sobre mudança de percurso

Persistir perante dificuldades pode ser importante, mas persistir apenas por receio de admitir que determinada escolha deixou de fazer sentido pode manter alguém num caminho que já não corresponde às suas necessidades ou objetivos. A capacidade para rever decisões, adaptar-se e reorganizar percursos constitui, aliás, uma competência relevante num contexto académico e profissional cada vez menos linear (Low et al., 2026). Talvez, por isso, a pergunta “Tenho a certeza de que quero fazer isto para o resto da vida?” coloque uma exigência demasiado elevada sobre uma decisão tomada ainda no início da vida adulta. Pode ser mais útil perguntar: “Com aquilo que sei hoje sobre mim, este é um caminho que quero continuar a explorar?”” Esta segunda pergunta não exige uma certeza absoluta. Permite experimentar, observar, recolher informação e ir construindo uma decisão progressivamente mais consciente. Quando a dúvida se torna muito intensa, provoca ansiedade persistente, bloqueio, sentimentos de incapacidade ou interfere significativamente com o bem-estar e o funcionamento académico, o acompanhamento psicológico pode também constituir um espaço seguro para explorar expectativas, medos, interesses e valores sem a pressão de encontrar imediatamente uma resposta definitiva.

Student exploring changing academic paths

Começar a faculdade sem ter tudo decidido não significa começar mal. Algumas escolhas precisam de ser vividas antes de poderem ser verdadeiramente compreendidas e, por vezes, crescer também implica reconhecer que é possível continuar, ajustar ou escolher outro caminho.

Referências bibliográficas

Amaral, F. A., Krägeloh, C., Henning, M. A., & Moir, F. (2023). Career indecision, depressive symptoms, self-efficacy and negative thoughts when transitioning from high school: A scoping review. Australian Journal of Career Development.

Low, C. W., Cheng, M. Y., & Ng, K. Y. (2026). Undergraduates’ career adaptability: A systematic review of predictors, mediators, and outcomes. Issues and Perspectives in Business and Social Sciences.

Udayar, S., Levin, N., Lipshits-Braziler, Y., et al. (2020). Difficulties in career decision making and self-evaluations: A meta-analysis. Journal of Career Assessment, 28(4).

Ulas-Kilic, O. (2019). The effects of career interventions on university students’ levels of career decision-making self-efficacy: A meta-analytic review. Australian Journal of Career Development, 28(3).

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