Inteligência emocional à luz de Goleman

EmoçõesO conceito de inteligência emocional tornou-se popular através da obra do jornalista científico norte americano Daniel Goleman. O autor define o conceito como um conjunto de competências afetivas e cognitivas que se divide em cinco dimensões: auto conhecimento, auto-controlo, empatia, motivação e competências sociais.

A inteligência emocional já tinha sido anteriormente descrita, por outros autores, como uma forma de inteligência social, que incluía a capacidade do indivíduo para reconhecer as emoções e os sentimentos em si próprio e nos outros e para utilizar essa informação, no sentido de orientar o seu pensamento e consequentemente o seu comportamento. Goleman define-a como a capacidade do indivíduo em reconhecer os seus próprios sentimentos e os dos outros, de se motivar e de conseguir gerir bem as emoções em si mesmo e nas suas relações. Continue a ler “Inteligência emocional à luz de Goleman”

Burnout e férias de verão

EsgotamentoVerão! Sinónimo de férias escolares para uns e de férias profissionais para muitos outros.  O tão desejado período de descanso e lazer, de convívio, de festa, praia, campo ou tudo aquilo que no dia-a-dia, a azáfama não permite fazer.

As férias são uma necessidade do ser humano. Perante o desgaste físico e psicológico decorrente de um quotidiano rotineiro e por vezes com excesso de solicitações, torna-se fundamental o repouso, para o restabelecimento do corpo e da mente. A falta de descanso pode conduzir os indivíduos a situações de esgotamento físico e psicológico – o Burnout. O Burnout resulta do stresse crónico mal gerido associado principalmente ao trabalho. É caracterizado por uma enorme falta de energia ou exaustão, distanciamento mental face à atividade profissional, sentimentos negativos e perda de eficiência relativamente ao próprio trabalho. Um inquérito da DECO PROTESTE (2018) apontou para a existência de cerca de 30% de pessoas em situação de Burnout em Portugal, ou seja, uma percentagem bastante expressiva. Continue a ler “Burnout e férias de verão”

Pais superprotetores, crianças inseguras…

SuperprotegidosAcredito que a tarefa mais difícil de todas é a de criar um filho. As crianças representam para os seus pais e cuidadores, um desafio dos maiores do mundo e este mundo tem muitos perigos. Os pais, por norma têm uma tendência para proteger as suas crianças mas por vezes essa proteção é super!

Proteger demasiado pode ser mais prejudicial que benéfico. A preocupação excessiva dos pais e a consequente proteção aos seus filhos pode afetar de forma negativa a infância da criança mas também a sua vida adulta, na medida em que as crianças demasiado protegidas têm maior probabilidade de ser tornarem adultos inseguros. Pais superprotetores privam os filhos da possibilidade de enfrentarem riscos, tanto físicos como emocionais. Privam-nos do que pode ser mau mas também do que pode ser bom. A preocupação e o cuidado excessivo de proteção podem ser tão prejudiciais quanto a falta deles. Até em situações correntes do quotidiano, as atitudes de alguns pais podem revelar exagero no cuidado e proteção dos seus filhos. Quando por exemplo, uma criança pequena aponta para uma garrafa de água e os pais de imediato lhe dão água para beber, esta criança não precisa de se esforçar para falar para obter o que deseja. Desta forma, estes pais poderão estar a fazer com que a criança atrase o desenvolvimento da fala. Esta situação é ilustrativa do modo como os pais podem ter influência no desenvolvimento das competências da criança e também da sua conquista de autonomia. Continue a ler “Pais superprotetores, crianças inseguras…”

Bebés e crianças pequenas: exercício físico, sono e tecnologias

Crianças activasParece consensual a ideia de que o exercício físico é fundamental para a manutenção do bem-estar físico e emocional dos indivíduos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) defende que prática de atividade física, desde os primeiros anos de vida, a par com o fornecimento de atividades sedentárias estimulantes e variadas, que promovam a interação social, bem como bons hábitos de higiene do sono, podem promover nas crianças um adequado e saudável desenvolvimento psicomotor.

O bem-estar físico, psicológico, o bom desempenho escolar e o adequado desenvolvimento físico, cognitivo e emocional das crianças, relacionam-se de forma positiva com a implementação de práticas educativas que promovam o exercício físico, o sono suficiente e tranquilo, bem como o desenvolvimento de atividades com as crianças, que as estimulem, nomeadamente no que diz respeito às competências sociais. A atividade física na infância ou o movimento do corpo, tem um papel fundamental para o desenvolvimento das crianças. Ao movimentar-se a criança expressa emoções, amplia a sua postura corporal, desenvolve a linguagem corporal, e desenvolve a capacidade afetiva e intelectual. Continue a ler “Bebés e crianças pequenas: exercício físico, sono e tecnologias”

Vou ter teste, e agora!?

Ansiedade de desempenho

A ansiedade desempenha um papel importante no comportamento humano. Em contexto escolar, a ansiedade dos alunos perante a perspetiva de um teste é um fenómeno particularmente difícil. A ansiedade gerada pela avaliação, quer seja formal ou informal é sempre mais ou menos perturbadora.

Ser avaliado corresponde a uma situação complexa que reúne várias dimensões (cognitiva, emocional, fisiológica e comportamental). Em termos teóricos, a ansiedade de desempenho face a um teste pode assumir duas formas distintas: como traço ou como estado. Enquanto traço, a ansiedade corresponde a uma predisposição psicológica para reagir com o mesmo nível de ansiedade (alto ou baixo) a um conjunto indiscriminado de situações. Enquanto estado (ou sobrecarga) a ansiedade acontece em situações esporádicas, como um exame particularmente difícil ou para o qual o aluno não se sente devidamente preparado. Continue a ler “Vou ter teste, e agora!?”

Crianças e violência: riscos e consequências

Crianças e a violênciaA violência infantil apresenta-se como um factor de risco para o desenvolvimento de problemas emocionais e de comportamento, podendo ter como consequência o desajuste escolar, familiar e/ou social.

A violência é um problema social e pode estar presente na vida das nossas crianças de formas distintas. Os abusos físicos como bater, empurrar ou abanar as crianças são uma prática ainda muito comum em muitas famílias. Do mesmo modo, o abuso verbal como gritar, ameaçar, ridicularizar, humilhar ou intimidar é muitas vezes a forma de tentar corrigir comportamentos desadequados da criança ou de os punir. O abuso sexual, definido como qualquer contacto ou interação com a criança para estímulo ou gratificação sexual do adulto, é outra realidade mais frequente do que se poderia pensar. De um modo diferente, a negligência é outra forma de violência contra a criança. Não atender às suas necessidades básicas (alimentação, abrigo, assistência médica) ou necessidades emocionais (segurança, confiança, carinho) é uma forma de violência contra as crianças, que pode ser tão grave como qualquer outra. Torna-se dramático o facto de que muitas vezes os agressores das crianças são os seus próprios pais ou cuidadores, precisamente aqueles em quem a criança deveria poder confiar e ter como porto de abrigo. Continue a ler “Crianças e violência: riscos e consequências”

Este cigarro é o último…

Dependência do tabacoSegundo dados resultantes da Análise comparativa dos Inquéritos Nacionais de Saúde (2017) o consumo diário de tabaco em Portugal revela tendências distintas por género. Nos homens, a prevalência parece estar a diminuir ao passo que estará a aumentar no género feminino. Cientes dos malefícios do tabaco, muitos são os fumadores que querem deixar de fumar, contudo, a tarefa pode não ser fácil.

O referido estudo consiste numa análise que compara hábitos tabágicos desde 1987 até 2014. Ao longo deste período de tempo, observou-se que nos homens o consumo de tabaco ocorre essencialmente nos grupos com menor escolaridade, tendo o seu oposto sido observado em relação às mulheres, numa fase inicial. Mais recentemente estes resultados tiveram uma alteração e passou a observar-se o mesmo tipo de consumo também nas mulheres menos escolarizadas. Observa-se ainda quer nos homens, quer nas mulheres, um consumo diário importante e consistente em grupos de maior vulnerabilidade, como por exemplo desempregados e divorciados. Os resultados apresentados neste estudo podem ser relevantes para o planeamento de estratégias e para a implementação de programas de cessação tabágica.

Cessação tabágicaDeixar de fumar pode ser uma das mais difíceis decisões a tomar na vida de uma pessoa. Não fumar um cigarro implica trocar a certeza de uma gratificação imediata e garantida, por um sofrimento que se percebe longo e difícil de querer aceitar. Fumar um cigarro pode ser uma companhia, uma distração, um alívio para o stresse, um gesto social ou um hábito de tal forma inculcado que se tornou efetivamente uma necessidade. A perspetiva da não satisfação dessa necessidade causa tal sofrimento que mesmo a consciência do quão prejudicial ele pode ser, não chega para o evitar.

Cessação tabágicaQue mecanismos serão então necessários acionar para que a pessoa tome a decisão de deixar de fumar? A palavra-chave é motivação. A motivação define-se como o impulso que nos faz agir para atingir um objetivo. Envolve fenómenos emocionais, biológicos e sociais e é o processo responsável por iniciar, direcionar e manter os comportamentos relacionados com o cumprimento desse objetivo. Para levar a cabo com sucesso a árdua tarefa de deixar de fumar é necessário que a pessoa esteja realmente motivada a fazê-lo, ou seja, motivada a empreender ações de mudança, mas principalmente a mantê-las, no sentido de evitar retrocessos. Muitos fumadores motivados cedem ao desejo de fumar, quer perante adversidades e circunstâncias do dia-a-dia, quer como forma de evitar o desconforto causado pelos sintomas da privação. Frequentemente, a abstinência total de fumar apenas acontece depois de várias tentativas e de várias recaídas.

DependênciasA motivação para a cessação tabágica e para a sua manutenção dependem de diversos fatores. Entre eles podemos destacar o sentimento de competência e autocontrolo, a tolerância à frustração, o controlo dos impulsos ou a capacidade de planeamento de comportamentos alternativos ao de fumar. A pessoa precisa de ter confiança em si mesmo de que vai conseguir obter sucesso na difícil tarefa a que se propõe. Para além da confiança em si mesma, a pessoa também necessita de compreender a importância da mudança, bem como dos motivos pelos quais esta se apresenta como necessária. É comum observarem-se casos em que estas duas dimensões não se encontram, ou seja, a pessoa pode confiar nas suas capacidades mas não considera que o tabaco tenha um efeito particularmente nocivo na sua vida, ou pelo contrário, pode ter uma forte consciência dos malefícios de fumar mas faltar-lhe a confiança para o conseguir fazer.

Cessação tabágicaEstima-se que cerca de 80% dos fumadores gostaria de parar de fumar e que a cada ano, 50% dos fumadores o tentem fazer, no entanto apenas cerca de 25% das tentativas para parar de fumar duram mais de uma semana, e, sem acompanhamento especializado, menos de 3% conseguem ter sucesso. Atualmente a dependência do tabaco/nicotina é tão forte como a dependência de qualquer outro tipo de substância. Trata-se de uma dependência psicológica e farmacológica. A dependência psicológica e comportamental é constante e associa-se a rituais de manuseamento e a hábitos sociais e individuais que levam a verdadeiros reflexos condicionados. No que se refere à dependência fisiológica, a adição à nicotina segue o clássico modelo de adição também aplicado a outras substâncias: o consumo regular da nicotina leva ao desenvolvimento de tolerância e a cessação abrupta conduz a sintomas de abstinência. Assim, os programas de cessação tabágica devem contemplar essa dupla dependência e devem considerar uma vertente farmacológica e uma vertente psicológica e comportamental.

Terapia nas dependênciasA intervenção em cessação tabágica deve contemplar a avaliação da motivação para a mudança, abordar e questionar os fumadores acerca dos seus hábitos tabágicos, isto é, identificar sistematicamente os fumadores e determinar o consumo de tabaco. Deve também ter uma dimensão educativa em termos de aconselhamento acerca da importância de parar de fumar e dos riscos que o tabaco representa para a saúde, do próprio e dos que com ele coabitam, bem como se deve deixar bem clara a informação sobre as vantagens da cessação tabágica. A monitorização da implementação de ações de mudança através de sessões regulares e frequentes é essencial para a avaliação dos sintomas de privação e implementação de estratégias para lidar com os mesmos, bem como para a prevenção da recaída.

 

A tarefa é difícil, peça ajuda à Sua Psicóloga para trilhar esse caminho!

 

Fontes:

http://repositorio.insa.pt/bitstream/10400.18/4117/5/INSA_Relatorio-Consumo-de-tabaco_INS%201987-2014.pdf

https://www.fundacaoportuguesadopulmao.org/apoio-ao-doente/cessacao-tabagica#81

 

Xixi na cama! Outra vez…

Enurese noturna

A enurese é uma disfunção que se manifesta pela perda involuntária de urina, diurna ou noturna, não normativa em relação à idade da criança e que não surge como consequência de falta de controlo da bexiga por doença neurológica, anomalia do trato urinário ou convulsão epilética, por exemplo.

A enurese noturna corresponde a perdas de urina durante o sono. Apesar de ser um problema comum, tem um forte impacto no dia-a-dia da criança e da sua família, constituindo-se como uma enorme fonte de stresse. O controlo dos esfíncteres corresponde a uma tarefa do desenvolvimento da criança, que decorre naturalmente mas que pode ser facilitada por atitudes educacionais. O contexto relacional e cultural onde decorre este processo, nomeadamente no que se refere ao ensino da higiene e às diferentes fases de aprendizagem e treino dos hábitos de higiene, é de extrema importância. A enurese pode ser primária, se a criança nunca chegou a adquirir o controlo da urina durante a noite ou secundária quando se observou um período de pelo menos seis meses de continência. A prevalência da enurese primária varia com a idade, sendo mais comum nos meninos (cerca de 9%) aos sete anos de idade, do que nas meninas (cerca de 6%) na mesma idade. Sendo o controlo dos esfíncteres um processo complexo, que envolve a ação coordenada de músculos, nervos, espinal medula e cérebro, pode resultar de vários fatores. Parece ser mais frequente em crianças que urinam mais vezes durante o dia, apresentam disfunção da bexiga ou têm dificuldades de sono (sono muito profundo e dificuldade em despertar). Ainda em termos de causas, parece existir também alguma predisposição genética.

EnuresePerante um caso de enurese, o primeiro passo é contactar o pediatra para o despiste de algum problema fisiológico (ex. renal) ou causa orgânica (ex. infeção urinária). Em termos de tratamento, habitualmente este só se aplica em casos de crianças com mais de seis anos de idade. A abordagem ao tratamento da enurese pode ser medicamentosa ou comportamental. A abordagem comportamental envolve estratégias de reforço, treino de retenção urinária ou pela utilização de sistemas de condicionamento com reforço positivo.

Enurese noturna

Os pais e cuidadores têm a grande responsabilidade de ajudar a criança a ultrapassar a  situação de enurese ao invés de a transformarem numa experiência traumatizante, o que pode ser fácil, não por má intenção mas por desconhecimento das características do problema. Para ajudar a criança a lidar com a enurese, os pais deverão normalizar a situação, explicando à criança que não está sozinha e que há muitas crianças da sua idade, que também passam pelo mesmo problema e que conseguem ultrapassá-lo. Outra estratégia passa por limitar a ingestão de líquidos a partir do final da tarde. Deverá também ser estabelecida uma rotina de sono, com horários regulares e que contemple uma ida à casa de banho, mesmo antes de ir para a cama. Se os pais sentirem dificuldade em lidar com o problema e com o impacto deste na sua vida e na sua família, devem recorrer à ajuda profissional de um psicólogo.

Enurese

Na consulta de psicologia, deverá ser feita a avaliação do impacto emocional da enurese na criança e na família, bem como devem ser identificadas algumas situações que possam ser responsáveis pela perturbação do equilíbrio emocional e psicológico da criança, como por exemplo a perda de um familiar, o nascimento de um irmão, algum tipo de abuso ou uma dificuldade de adaptação à escola. De acordo com a criança em questão e com a familia, será selecionada a estratégia a implementar. E como cada caso é uma caso e cada criança tem as suas particularidades, quando um método não for eficaz, haverão outros métodos a serem implementados até ao sucesso da intervenção.

EnureseÉ de extrema importância que os pais ou cuidadores não punam nem culpem a criança por urinar a cama. Esse comportamento por parte dos adultos, não só irá contribuir para a baixa da autoestima da criança, desenvolvimento do sentimento de vergonha, aumento da ansiedade e possíveis dificuldades de socialização e decréscimo do rendimento escolar, assim como dificulta o processo de tratamento. Pelo contrário, a criança deverá ser reforçada a cada sucesso que alcança. Este problema também constitui um grande desafio para os pais, não sendo fácil lidar com a enurese. Dependendo dos casos, alguns adultos podem, em consequência desta perturbação dos filhos, desenvolver problemas de sono, ansiedade, aumento da tensão emocional, agressividade e stresse familiar.

Ultrapasse as suas dificuldades com ajuda especializada. Procure a Sua Psicóloga!

 

 

Sugestão:

Barros, L. (2004). Perturbações da eliminação na criança e no adolescente: da prevenção ao controlo. Lisboa: Climepsi.

 

 

Intervenção no luto

Luto e psicologiaO luto éuma reação à perda de um ente querido ou de algo mais abstrato em seu lugar, como por exemplo, o trabalho, um relacionamento, a pátria ou até mesmo uma ideologia.

O modelo dual de intervenção no luto proposto por Stroebe & Schut (1999) tenta compreender as reações dos indivíduos às perdas, sugerindo um modelo de compreensão do processo de se lidar com a perda e de adaptação ao luto. Neste modelo os autores propõem a coexistência de três dimensões ou componentes: (a) orientação para a perda, (b) orientação para o restabelecimento e (c) oscilação. Este processo de adaptação ao luto defende a existência de uma dinâmica de oscilação do indivíduo enlutado entre o confronto orientado para a perda e o confronto orientado para o restabelecimento.

Intervenção psicológica no lutoNo conforto orientado para a perda o enlutado disponibiliza-se para elaborar a perda, vivenciar a dor, a ausência, os medos, traduzindo-se numa abertura para trabalhar estes aspetos. O confronto orientado para o restabelecimento diz respeito ao investimento na vida e na realidade que o rodeia, traduzindo-se na reorganização da vida. Este processo dinâmico é fundamental para uma adaptação satisfatória, funcionando como um mecanismo regulatório que integra e organiza internamente, quer o confronto orientado para a perda, quer o confronto orientado para o restabelecimento.

Psicologia no apoio ao lutoConsiderar em simultâneo as duas dimensões é muito difícil, mas como é necessário atender a ambas, a oscilação é um processo indispensável e, muito possivelmente, um dos melhores informativos do desenvolvimento da experiência do luto. O valor que os autores atribuem ao processo de oscilação, tratando-se de um processo de ‘coping’ (lidar com), que regula os esforços de adaptação do indivíduo, em paralelo com a proposta de que um ‘coping’ adaptativo seria constituído tanto por stressores de perda como de restabelecimento, que se traduz numa oscilação enquanto indicador do processo.

LUTOA tomada de decisão por parte do enlutado, está sempre presente na medida em que pode optar pela atenção dada ao stresse gerado pela perda ou pela supressão da dor e centrar-se na adaptação a uma realidade externa alterada. Partindo deste modelo, o psicoterapeuta assume o papel de facilitador, sensibilizando os seus clientes na tomada de decisão inerente a este processo ativo, ajudando-os a discriminar as implicações que advêm de cada uma das suas decisões, que podem ser tomadas de uma forma consciente ou inconsciente.

A elaboração do luto continua a ser necessária e o tipo de vinculação à pessoa falecida constitui um fator altamente determinante nas intervenções com enlutados. O indivíduo enlutado deve tornar-se capaz de aceitar a realidade da perda e reorganizar a sua vida sem o objeto perdido. Vários autores defendem que, quanto mais complicado for o processo de luto, maiores serão as hipóteses de que a psicoterapia contribua para resultados satisfatórios.

Apoio psicológico no lutoAssim, as intervenções com pessoas enlutadas devem ser principalmente dirigidas para pacientes com riscos sociodemográficos e circunstanciais, sejam elas pessoas sem apoio familiar, social e financeiro, que vivam sós ou cujo luto seja consequência de mortes violentas, traumáticas ou em massa. Parece também relevante dar especial atenção a situações de mães e esposas, sobretudo se a relação com o falecido tiver características de dependência. Indivíduos que apresentem ideação suicida devem ser considerados prioridade, assim como os que manifestaram transtornos psiquiátricos prévios à perda. Sujeitos que tenham sido vítimas de abuso ou negligência parental na infância podem igualmente obter grandes benefícios com a psicoterapia.

Processos de luto

“Para além da felicidade e do rir, também a tristeza e o chorar, são elementos intrínsecos ao facto de estar vivo, bem como na elaboração das perdas significativas”.

 

 

Bibliografia

Barbosa, A., (2013). Olhares sobre o Luto. Lisboa: AIDMFL.

Parkes, C.M. (2006). Love and loss: The roots of grief and its complications. London: Routledge.

Stroebe, M. S., & Schut, H. (1999). The dual process model of coping with bereavement: Rationale and description. Death Studies, 23, 197-224.

 

Para quê ter um psicólogo da saúde na sua empresa?

Saúde e doençaA Psicologia da Saúde surgiu na década de 70 do Séc. XX nos EUA e teve como principal intuito estudar a natureza e a extensão da contribuição dos Psicólogos para a investigação básica e aplicada sobre os aspetos comportamentais nas doenças físicas e na manutenção da saúde (Ribeiro, J., 2007, p.33).

Tradicionalmente a psicologia, em particular a psicologia clínica, dedicava-se ao diagnóstico e tratamento das doenças mentais. Contudo, à medida que se vai dando importância ao papel dos fatores psicológicos como fatores com influência na doença física, também a psicologia se passou a interessar pela saúde física dos indivíduos. Atualmente podemos dizer que a psicologia da saúde é a área que tem como objetivo a promoção e proteção da saúde assim como a prevenção, o tratamento e o apoio na doença e na adaptação do indivíduo à mesma. Logo, podemos dizer que o psicólogo da saúde tem como principais funções a promoção de estilos de vida saudáveis através da implementação de programas de mudança de comportamentos considerados de risco, intervenção psicológica de apoio na doença, com ênfase na doença crónica e nas doenças terminais, tanto ao doente como aos seus familiares ou cuidadores.

Psicologo na empresaOutro aspeto importante da intervenção do psicólogo da saúde é a intervenção facilitadora à adesão e resposta do doente a terapêuticas médicas variadas, como a medicação, a cirurgia e meios complementares de diagnóstico, por exemplo. Este profissional de saúde tem também competências para trabalhar na problemática da comunicação interpessoal, desenvolvendo no indivíduo competências relacionais, técnicas de mediação e gestão de conflito, gestão do stress, entre outras. Pretende-se ainda que o psicólogo da saúde possa num futuro breve vir a integrar projetos de humanização dos serviços, acesso e atendimento, bem como em projetos de melhoria da qualidade nos cuidados de saúde e nas organizações.

Psicologia da saúdeE o que pode então fazer um psicólogo  da saúde numa empresa ou organização? O psicólogo da saúde pode implementar na empresa algumas intervenções práticas a realizar no âmbito dos programas de ajuda em contexto organizacional. Pode trabalhar na promoção da atividade física de modo a prevenir os efeitos nefastos do sedentarismo, como o caso da obesidade e de problemas motores entre outros. Pode dedicar-se ao ensino e treino de técnicas de relaxamento a serem utilizadas em momentos de maior sobrecarga de stresse ou de trabalho, com vista a um melhor bem-estar físico e psicológico dos colaboradores. Pode trabalhar na promoção da comunicação e partilha de experiências entre hierarquias em contexto informal, com vista a aprendizagens e partilha de experiências, assim como o convívio e a prática de atividades conjuntas de modo a proporcionar uma maior proximidade, conhecimento e facilitar a comunicação e as relações pessoais/sociais.

Psicologia da saúdeO psicólogo da saúde pode também promoverr na empresa práticas de alimentação saudável, em parceria com os responsáveis pela cantina da empresa e com um nutricionista, com o objetivo de corrigir maus hábitos alimentares e evitar problemas cardiovasculares e excesso de peso, entre outros, com forte influência na autoestima do individuo e consequentemente no seu bem-estar físico e emocional. A implementação de programas de cessação tabágica ou de outros consumos excessivos identificados, poderá ser uma proposta de intervenção,  assim como a realização de ações de incentivo à adesão aos tratamentos, nos trabalhadores com doença crónica diagnosticada, identificando as consequências da não adesão para o seu bem-estar e que afetam diretamente a sua vida profissional.

Doença e trabalhoNeste contexto torna-se necessária a avaliação das crenças dos trabalhadores com doença crónica, em relação à evolução da mesma e trabalhar no sentido de aumentar a sua adaptação à doença e às possíveis limitações inerentes a esta que possam interferir com o desempenho na organização e com o seu bem-estar geral. Outro ponto de extrema importância a poder ser trabalhado com os colaboradores da empresa, é a promoção de ações de formação sobre hábitos saudáveis de sono. Os distúrbios do sono têm consequências adversas no dia-a-dia dos indivíduos por diminuir o seu funcionamento aumentar a propensão a distúrbios psiquiátricos, défices cognitivos, surgimento e agravamento de problemas de saúde, riscos de acidentes de trabalho e de trânsito e consequentemente absentismo no trabalho, comprometendo assim também a sua qualidade de vida.

Trabalho, empresa e saúdeE como comunicar de forma eficaz é meio caminho andado para o entendimento, a promoção de treinos de comunicação assertiva no sentido de facilitar a mediação e a gestão de conflitos decorrentes dos problemas inerentes às atividades profissionais, e de dar competências a empregados e empregadores para uma melhor comunicação e relação. é outro dos pontos relevantes que podem ser melhorados, com a intervenção do psicólogo. Do mesmo modo, a promoção de programas de incentivo à crítica construtiva, de modo a aumentar o sentimento de autoeficácia e aumento da autoestima, são pertinentes e necessários. Promover a ‘política do elogio’ com vista a aumentar a satisfação do indivíduo, que se vai refletir na continuação de boas práticas e numa maior abertura à mudança, pode fazer a diferença. Por fim, este profissional de saúde poderá ainda organizar palestras/comunicações com especialistas em várias doenças que são diretamente afetadas pelo stresse excessivo, como é o caso das doenças cardiovasculares, digestivas, diabetes, etc. de modo a informar, esclarecer dúvidas e aconselhar práticas mais saudáveis adequadas a cada patologia.

Psicologia da saúde e da doençaAssim, um psicólogo da saúde em contexto organizacional, muito poderá fazer em termos de intervenção psicológica, no que diz respeito não só à promoção da saúde e prevenção  da doença, mas também no sentido de minimizar os efeitos decorrentes da falta de informação, de motivação e de comunicação. Fomentar relações saudáveis, hábitos de vida saudáveis e promover um contexto de trabalho orientado para a saúde física e emocional dos colaboradores, poderá prevenir o absentismo, promover a satisfação pessoal e a melhoria do desempenho, que se irá decerto refletir  no aumento do rendimento da própria organização.