Voltar a Amar na Maturidade: Quando a Intimidade Ganha Outras Formas

Existe uma ideia silenciosa, mas persistente, de que o amor tem idade. Que pertence sobretudo à juventude, à energia dos começos, ao corpo sem marcas do tempo. Na maturidade, parece instalar-se socialmente a expectativa de que o amor abrande, se torne secundário ou até desnecessário. Do ponto de vista psicológico, esta ideia não só é redutora como profundamente injusta.

Amar na maturidade não é amar menos, é amar de outra forma. Nesta fase da vida, o amor tende a libertar-se de muitas das pressões que marcaram etapas anteriores: a necessidade de validação constante, a urgência de corresponder a expectativas sociais, o medo de “falhar” enquanto parceiro. Para muitas pessoas, é precisamente na maturidade que surge um amor mais consciente, mais escolhido e menos ansioso.

A psicologia do desenvolvimento mostra-nos que o avançar da idade traz perdas reais — de pessoas significativas, de papéis sociais, de capacidades físicas — mas também pode trazer ganhos emocionais importantes. Com a experiência, muitos adultos desenvolvem maior capacidade de autorregulação emocional, maior tolerância à frustração e uma noção mais clara do que desejam (e do que já não estão disponíveis para aceitar) numa relação. Isto cria condições favoráveis para vínculos mais seguros e autênticos.

Ainda assim, amar nesta fase não está isento de desafios. O medo de voltar a perder, a presença de lutos não resolvidos, as mudanças no corpo e na sexualidade, ou a dificuldade em conciliar histórias de vida longas e complexas podem gerar insegurança e hesitação. Para alguns, voltar a amar implica enfrentar a culpa (“será legítimo recomeçar?”) ou o receio do julgamento externo, sobretudo quando o contexto social continua a infantilizar ou a dessexualizar a fase madura da vida.

Um dos maiores obstáculos ao amor na maturidade não é interno, mas cultural. Vivemos numa sociedade que valoriza a juventude como sinónimo de desejo, beleza e vitalidade, relegando o envelhecimento para um lugar de invisibilidade emocional. Esta narrativa pode levar muitas pessoas a silenciar necessidades legítimas de proximidade, intimidade e afeto, como se estas deixassem de ser válidas com o passar do tempo.

Do ponto de vista psicológico, a necessidade de vinculação é transversal a todo o ciclo de vida. Não desaparece com a reforma, nem com as mudanças associadas ao envelhecimento. O que muda são as formas de a viver: menos centradas na performance e mais na presença; menos na promessa de futuro e mais na qualidade do aqui e agora. Amar na maturidade é, muitas vezes, um ato profundamente humano e corajoso. É permitir-se a ligação depois da perda. É escolher partilhar a vida sem a ilusão de perfeição. É reconhecer que o tempo que resta não é pouco — é precioso.

Talvez seja tempo de rever a forma como falamos do amor na maturidade. Não como um sucedâneo do “verdadeiro amor”, mas como uma expressão plena de intimidade, significado e cuidado. Porque o amor não envelhece. O que envelhecem são apenas os preconceitos que insistem em negá-lo.

Deixe um comentário