Crianças e violência: riscos e consequências

Crianças e a violênciaA violência infantil apresenta-se como um factor de risco para o desenvolvimento de problemas emocionais e de comportamento, podendo ter como consequência o desajuste escolar, familiar e/ou social.

A violência é um problema social e pode estar presente na vida das nossas crianças de formas distintas. Os abusos físicos como bater, empurrar ou abanar as crianças são uma prática ainda muito comum em muitas famílias. Do mesmo modo, o abuso verbal como gritar, ameaçar, ridicularizar, humilhar ou intimidar é muitas vezes a forma de tentar corrigir comportamentos desadequados da criança ou de os punir. O abuso sexual, definido como qualquer contacto ou interação com a criança para estímulo ou gratificação sexual do adulto, é outra realidade mais frequente do que se poderia pensar. De um modo diferente, a negligência é outra forma de violência contra a criança. Não atender às suas necessidades básicas (alimentação, abrigo, assistência médica) ou necessidades emocionais (segurança, confiança, carinho) é uma forma de violência contra as crianças, que pode ser tão grave como qualquer outra. Torna-se dramático o facto de que muitas vezes os agressores das crianças são os seus próprios pais ou cuidadores, precisamente aqueles em quem a criança deveria poder confiar e ter como porto de abrigo. Continue a ler “Crianças e violência: riscos e consequências”

A criança deprimida não está só triste, está doente…

DepressãoUma criança deprimida não é o mesmo que uma criança triste. A tristeza é um sentimento normal que surge em consequência de um acontecimento relacional, físico ou outro. A tristeza tem uma duração curta não tendo efeitos significativos na funcionalidade da criança. A depressão é outra coisa…

A tristeza decorrente de um estado depressivo é duradoura, intensa e perturbadora da funcionalidade normal da criança e do seu equilíbrio. A criança deprimida apresenta habitualmente falta de vontade para brincar, queixas frequentes de cansaço, dores de cabeça ou de barriga, irritabilidade, choro fácil, problemas de sono, problemas alimentares, dificuldades de concentração e atenção, enurese, tendência para o isolamento, baixa autoestima, entre outros sintomas como a culpa e a inferiorização, podendo em casos mais extremos conduzir ao suicídio. Estes sintomas podem passar despercebidos ou serem confundidos com birras ou timidez, no entanto, se os sintomas persistirem por mais de 2 semanas é aconselhável que a criança seja avaliada, quer em termos fisiológicos, pelo pediatra, quer em termos psicológicos e emocionais, pelo psicólogo. Continue a ler “A criança deprimida não está só triste, está doente…”

Intervenção no luto

Luto e psicologiaO luto éuma reação à perda de um ente querido ou de algo mais abstrato em seu lugar, como por exemplo, o trabalho, um relacionamento, a pátria ou até mesmo uma ideologia.

O modelo dual de intervenção no luto proposto por Stroebe & Schut (1999) tenta compreender as reações dos indivíduos às perdas, sugerindo um modelo de compreensão do processo de se lidar com a perda e de adaptação ao luto. Neste modelo os autores propõem a coexistência de três dimensões ou componentes: (a) orientação para a perda, (b) orientação para o restabelecimento e (c) oscilação. Este processo de adaptação ao luto defende a existência de uma dinâmica de oscilação do indivíduo enlutado entre o confronto orientado para a perda e o confronto orientado para o restabelecimento.

Intervenção psicológica no lutoNo conforto orientado para a perda o enlutado disponibiliza-se para elaborar a perda, vivenciar a dor, a ausência, os medos, traduzindo-se numa abertura para trabalhar estes aspetos. O confronto orientado para o restabelecimento diz respeito ao investimento na vida e na realidade que o rodeia, traduzindo-se na reorganização da vida. Este processo dinâmico é fundamental para uma adaptação satisfatória, funcionando como um mecanismo regulatório que integra e organiza internamente, quer o confronto orientado para a perda, quer o confronto orientado para o restabelecimento.

Psicologia no apoio ao lutoConsiderar em simultâneo as duas dimensões é muito difícil, mas como é necessário atender a ambas, a oscilação é um processo indispensável e, muito possivelmente, um dos melhores informativos do desenvolvimento da experiência do luto. O valor que os autores atribuem ao processo de oscilação, tratando-se de um processo de ‘coping’ (lidar com), que regula os esforços de adaptação do indivíduo, em paralelo com a proposta de que um ‘coping’ adaptativo seria constituído tanto por stressores de perda como de restabelecimento, que se traduz numa oscilação enquanto indicador do processo.

LUTOA tomada de decisão por parte do enlutado, está sempre presente na medida em que pode optar pela atenção dada ao stresse gerado pela perda ou pela supressão da dor e centrar-se na adaptação a uma realidade externa alterada. Partindo deste modelo, o psicoterapeuta assume o papel de facilitador, sensibilizando os seus clientes na tomada de decisão inerente a este processo ativo, ajudando-os a discriminar as implicações que advêm de cada uma das suas decisões, que podem ser tomadas de uma forma consciente ou inconsciente.

A elaboração do luto continua a ser necessária e o tipo de vinculação à pessoa falecida constitui um fator altamente determinante nas intervenções com enlutados. O indivíduo enlutado deve tornar-se capaz de aceitar a realidade da perda e reorganizar a sua vida sem o objeto perdido. Vários autores defendem que, quanto mais complicado for o processo de luto, maiores serão as hipóteses de que a psicoterapia contribua para resultados satisfatórios.

Apoio psicológico no lutoAssim, as intervenções com pessoas enlutadas devem ser principalmente dirigidas para pacientes com riscos sociodemográficos e circunstanciais, sejam elas pessoas sem apoio familiar, social e financeiro, que vivam sós ou cujo luto seja consequência de mortes violentas, traumáticas ou em massa. Parece também relevante dar especial atenção a situações de mães e esposas, sobretudo se a relação com o falecido tiver características de dependência. Indivíduos que apresentem ideação suicida devem ser considerados prioridade, assim como os que manifestaram transtornos psiquiátricos prévios à perda. Sujeitos que tenham sido vítimas de abuso ou negligência parental na infância podem igualmente obter grandes benefícios com a psicoterapia.

Processos de luto

“Para além da felicidade e do rir, também a tristeza e o chorar, são elementos intrínsecos ao facto de estar vivo, bem como na elaboração das perdas significativas”.

 

 

Bibliografia

Barbosa, A., (2013). Olhares sobre o Luto. Lisboa: AIDMFL.

Parkes, C.M. (2006). Love and loss: The roots of grief and its complications. London: Routledge.

Stroebe, M. S., & Schut, H. (1999). The dual process model of coping with bereavement: Rationale and description. Death Studies, 23, 197-224.

 

Um “piscar de olhos” sobre os tiques

Perturbação de tiquessOs tiques são movimentos involuntários ou vocalizações, geralmente de início súbito, breve, repetitivo, estereotipado, mas de caráter não rítmico. Frequentemente imitam um comportamento normal mas ocorrem muitas vezes fora de um contexto de atividade normal. O tique está geralmente associado a uma ânsia premonitória para realizar um movimento específico, ao mesmo tempo que se associa a uma sensação de alívio, uma vez realizado.

Os tiques motores mais comuns manifestam-se na face (ex. piscar os olhos, franzir o nariz ou a testa, morder os lábios, fazer estalidos com a língua) mas podem ocorrer em qualquer outra parte do corpo (ex. contrair os músculos do pescoço, dos ombros, da barriga ou fazer gestos involuntários com as mãos). Os tiques vocais podem ser sons sem significado (ex. limpar a garganta) ou emitir sons imitando outros sons já existentes, ou até mesmo alterações no discurso e linguagem, repetição de sons ou palavras, que podem em raros casos ser obscenas.

TouretteOs tiques podem ser simples ou complexos, conforme o número de músculos envolvidos e podem constituir 3 tipos de perturbações: a Perturbação Gilles de la Tourette (duração superior a 1 ano, existindo simultaneamente vários tiques motores e pelo menos um tique vocal), Perturbação de Tiques Motores ou Vocais Persistente/Crónica (duração superior a 1 ano, por vezes associados a défice de atenção e hiperatividade, que são sempre ou tiques motores ou tiques vocais e nunca os dois tipos em simultâneo) e a Perturbação de Tiques Transitória (tiques motores e/ou vocais com duração de pelo menos 4 semanas mas não superior a 12 meses consecutivos).

Tiques e TouretteGeralmente as perturbações de tiques surgem antes dos 18 anos, sendo o mais frequente por volta dos 6 anos, podendo prolongar-se por toda a infância, adolescência ou mesmo toda a vida adulta, com fases de remissão (desde algumas semanas até mesmo vários anos), sendo a taxa de prevalência de cerca de 10% em crianças. Habitualmente os tiques desaparecem antes da adolescência, mas podem voltar em momentos de maior ansiedade e excitação. As causas apontadas para este tipo de perturbação prendem-se com alterações em determinados circuitos cerebrais e neurotransmissores (substâncias que fazem circular a informação no cérebro). Parece existir também uma componente genética e podem também estar associados ao abuso de substâncias, patologias do foro neurológico ou ainda, terem origem emocional e ocorrerem associados a situações traumáticas, servindo como alívio. Na maioria dos casos os tiques interrompem-se durante o sono. Embora geralmente os tiques sejam comportamentos conscientes, algumas crianças mais pequenas e por vezes até alguns adultos podem não ter consciência dos seus próprios tiques. Porém, com o seu desenvolvimento, muitas pessoas sentem o impulso ou a sensação corporal que antecede o tique motor ou vocal e uma sensação de alívio ou de diminuição de tensão após a sua expressão.

Perturbação de tiques bA gravidade da perturbação de tiques prende-se com a sua intensidade e frequência, bem como com o modo como esta condiciona a pessoa, biológica, psicológica e socialmente. Geralmente os tiques aumentam em situações de maior ansiedade e stresse diminuindo quando a criança está concentrada numa atividade específica ou quando está descontraída. Quando uma criança começa a apresentar tiques, os pais, professores e outros elementos constituintes dos seus contextos, deverão informar-se acerca do problema, de forma a poderem tranquilizar a criança, principalmente dizendo-lhe que o mais provável é que estes venham a desaparecer com o tempo. Embora por vezes possa ser difícil, ignorar os tiques e considera-los algo normal e passageiro, não lhes dar muita atenção pode contribuir efetivamente para que a sua evolução possa ser boa e possam desaparecer num prazo de meses. També não é benéfico chamar a atenção à criança, principalmente perante outras pessoas, de modo a salvaguardar a sua autoestima.

AdolescerO ambiente familiar é muito importante para a criança. Se os pais conseguirem reduzir a tensão existente em torno da criança e aumentar a sua compreensão e afeto, poderão estar a contribuir para que o problema fique mais leve. Por outro lado, a criança não deverá ser sobrecarregada com atividades extracurriculares excessivas. Se a prática desportiva pode ajudar, ter tempo para brincar livremente de forma descontraída será decerto favorável para a criança. Os exercícios de relaxamento e de respiração podem também ajudar muito a lidar com o problema.

TiquesQuando os tiques são muito intensos com elevado grau de interferência na vida da criança, comprometendo os seus contactos sociais e o seu desempenho escolar, é fundamental procurar ajuda especializada para lidar com o prolema. Quanto mais precoce for a intervenção, melhores serão as possibilidades de recuperação. A intervenção nas perturbações de tiques poderá ser farmacológica e/ou psicológica, de acordo com a intensidade da mesma. A intervenção psicológica com maior eficácia demonstrada baseia-se nas técnicas cognitivo-comportamentais. O ensino e treino de estratégias de relaxamento podem ajudar muito a lidar com o problema e com os seus efeitos, ou seja, com o mal-estar que os tiques provocam e que se faz sentir, principalmente ao final do dia. O psicólogo poderá ainda ajudar a criança/adolescente a concentrar-se no tique, antecipa-lo e substitui-lo por um comportamento alternativo. O apoio psicológico pode ainda abarcar outros objetivos pois estas crianças/adolescentes podem apresentar também outras perturbações associadas e outros sintomas como a baixa autoestima ou dificuldades nas relações sociais. Se for o caso, a identificação do fator que estimula o surgimento dos tiques, poderá ser trabalhado no sentido de facilitar o seu desaparecimento.

Tiques nos olhos.jpegMuitas condições médicas e psiquiátricas foram descritas como coexistentes com a Perturbação de Tiques, sendo particularmente comuns a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) e a Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC). A intervenção medicamentosa, em alguns casos mais extremos pode ser uma necessidade, principalmente se os tiques aumentarem e se tornarem mais complexos. Em casos mais extremos, pode ser recomendado pelo pedopsiquiatra ou pelo neurologista, o recurso a medicamentos como neuromoduladores, benzodiazepinas ou antipsicóticos. Contudo, o tratamento para eliminar os tiques, somente se deverá aplicar, em casos em que estes interfiram significativamente nas atividades ou na autoimagem do indivíduo.

 

 

Fontes:

DSM-V – Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (Quinta edição) de American Pshychiatric Association.

http://www.movementdisorders.org/disorders/tics_and_tourette.php

http://www.cdc.gov/ncbddd/tourette/families.html

Adolescência e desenvolvimento cognitivo

AdolescerSão grandes e muito importantes as transformações a nível intelectual ao longo da adolescência. Esta é uma fase em que o pensamento concreto da infância vai dando lugar ao pensamento formal do adulto. A escola, os pares e a família, todos dão o seu contributo para a formação da identidade do jovem.

As modificações que se observam nesta fase a nível cognitivo. têm grande influência na compreensão das regras, convenções e valores, ao mesmo tempo que vão permitir ao jovem, não apenas uma adaptação real às questões do dia-a-dia mas também a elaboração e o desenvolvimento de notáveis teorias e ideais, típicas nesta fase da vida. Durante a adolescência, o indivíduo começa a conseguir revelar raciocínios corretos acerca de assuntos que apenas considera hipotéticos, tornando-se assim apto a deduzir consequências. Passa deste modo a conseguir pensar e decidir sobre situações do quotidiano bem como a projetar as suas convicções para situações futuras. Este desenvolvimento do pensamento permite ao jovem refletir acerca de si mesmo e abstrair sobre os mais variados temas do mundo.

JovensÉ na adolescência que “nasce” o mundo interior e se desenvolve a capacidade de introspeção, insight e de pensar sobre si mesmo, dando início ao processo de construção da identidade. Para o sucesso deste processo é extremamente importante a vivencia dos afetos, a expressão das emoções e a qualidade das experiencias de vida, conseguidas em grande parte através das suas relações com os vários contextos onde se desenvolve. Os estímulos, os modelos e as influências são determinantes para a construção do pensamento e para o desenvolvimento da personalidade do adolescente. Quanto maiores e melhores foram os estímulos a que o jovem é exposto (ex. música, pintura, teatro, cinema) mais este assimila as experiências e as assimila e internaliza. Do mesmo modo, as experiências negativas têm também um efeito neste mesmo processo, mas pernicioso, pelo que algumas delas podem ser muito desadaptativas. O jovem assimila todas as novas experiências que vive e nem sempre se preocupa ou consegue avaliar se se ajustam ou não.

AdolescênciaUm dos contextos com maior impacto na vida do adolescente é a escola. Aqui o jovem aprende, ensina, expressa-se sob as mais diversas formas e tem a possibilidade de desenvolver competências a vários níveis. A par dos conhecimentos que adquire, o adolescente, em contexto escolar, tem a possibilidade de desenvolver responsabilidades individuais ou de grupo. A escola constitui-se como um território que o acolhe e onde ele se sente à vontade para exercitar as suas vivências e convivências. É em contexto escolar que se dão encontros, desencontros e relações, em que o adolescente questiona valores e começa a delinear e construir o seu projeto de vida. Para os adolescentes, a escola é o principal espaço de construção e partilha de conhecimentos sobre a vida futura.

Adolescer Mas o papel da família não é menor. É em família que o jovem passa a maior parte, ou mesmo toda a adolescência, e é aqui que encontra modelos específicos para o seu desenvolvimento intelectual. A família, principalmente os pais, têm o importante papel de incentivar os adolescentes a descobrirem as suas potencialidades e de monitorizarem os seus comportamentos e as suas possíveis dificuldades. O adolescente deverá perceber a preocupação e a atenção dos pais, mas também de perceber que tem a quem recorrer em qualquer situação em que sinta necessidade de o fazer. A família é uma referência muito importante para o jovem, quer pelo diálogo, troca de ideias, partilha de interesses, discussão de conceitos e opiniões mas principalmente pela vivência dos afetos e pela expressão emocional.

Escola, saúde e sexualidade

Saúde

A educação para a sexualidade é não só um direito mas também uma necessidade, tendo em vista a prevenção de comportamentos de risco, principalmente dos jovens.

 De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) a Educação Sexual não só oferece aos jovens a informação correta e apropriada acerca das várias dimensões da vida sexual, como também os ajuda a desenvolver competências para que possam comportar-se de acordo com essa informação. A falta de informação acerca desta temática ou o acesso a informação errónea pode ter um impacto verdadeiramente negativo na vida dos jovens e das suas famílias, uma vez que os pode conduzir a tomadas de decisão e a escolhas pouco adequadas.

Educação para a saúdeE falar de Educação Sexual é falar de educação para a saúde. A partir do final da década de 70 do século passado, as preocupações com a saúde acentuaram-se, em parte com o reconhecimento de algumas perturbações psicológicas relacionadas com o stresse e a ansiedade, decorrentes da mudança de ritmo imposta por uma sociedade cada vez mais global e modernizada. No entanto, o aparecimento da SIDA constituiu-se como um marco relevante em termos de saúde pública, tendo sido um forte contributo para que as preocupações com a aquisição de hábitos saudáveis relacionados com as práticas sexuais se intensificassem e que o conceito de saúde tivesse também ele sofrido uma alteração. Se até então, a saúde era descrita como um estado de conservação do bem-estar físico, emocional e social, a partir desse marco, o conceito de saúde adotado pela OMS passou a abarcar uma componente ativa do indivíduo, na promoção da sua própria saúde. Este tem uma participação efetiva com a finalidade de aumentar a sua capacidade para controlar a sua própria saúde, no sentido de a melhorar, através da prática de estilos de vida saudáveis, com grande foco na prevenção.

Educação sexualEm 1984 foi aprovada em Portugal a primeira lei que contemplava a Educação Sexual em contexto escolar, com a necessidade de reforçar as garantias do direito à saúde reprodutiva. Mais tarde, em 2000, a Escola foi reconhecida, como entidade competente para integrar estratégias de promoção e Educação para a Saúde que incluíam a Educação Sexual nos currículos dos ensinos básico e secundário, mas foi apenas  em 2009 que se  estabeleceu a sua aplicação nos estabelecimentos do ensino básico e do ensino secundário. A saúde dos jovens depende em parte  do nível de informação sobre sexualidade, a que estes têm acesso. A falta de conhecimentos nesta área pode levar a situações de gravidez indesejada, ao aumento das interrupções voluntárias da gravidez, a infeções sexualmente transmissíveis ou ao abuso sexual, entre outros.

Educação sexualEstarão então os jovens portugueses, informados e com habilidades desenvolvidas para lidarem com a sua sexualidade forma adequada? Um estudo de 2002 sobre o papel da escola na educação sexual dos jovens portugueses, refere que estes globalmente revelaram poucos conhecimentos sobre a temática da educação sexual, tendo-se verificado que a escola desempenhou um papel pouco significativo, como agência de educação sexual dos jovens que constituíram a amostra do estudo. Em 2009, uma investigação direcionada para o objetivo geral de compreender o nível de educação sexual dos jovens portugueses escolarizados e o papel da escola e dos professores neste processo, revela que o papel da escola tem já alguma relevância na educação sexual dos jovens. No entanto, a escola está maioritariamente centrada numa abordagem de tipo biológico e preventivo, feita no contexto das Ciências Naturais. O mesmo estudo diz que embora a maioria dos jovens tenham revelado um conhecimento razoável acerca do tema, revelaram também défices de conhecimentos relativamente às questões práticas referentes aos métodos contracetivos e à informação sobre as infeções sexualmente transmissíveis (à exceção da SIDA). A maioria destes jovens afirmou ter tido comportamentos preventivos em matéria de gravidez não desejada e doenças sexualmente transmissíveis, pelo que parece que a lógica preventiva integra já a sua vivência sexual. A mesma investigação aponta para um reduzido recurso a profissionais e serviços de saúde, por parte dos jovens, em parte justificado pelo facto de nunca terem sentido essa necessidade mas também relacionado com falta de informação e dificuldades no acesso aos mesmos.

SaúdeEm 2013, um estudo levado a cabo em escolas portuguesas com o objetivo de perceber a influencia dos conhecimentos, atitudes e comportamentos sexuais dos adolescentes no sentido da adoção de estilos de vida saudáveis, concluiu que a maioria dos adolescentes portugueses que iniciou a sua vida sexual tem comportamentos protetores. O mesmo estudo mostra que os adolescentes que referiram ter tido  Educação Sexual têm mais conhecimentos face à SIDA e mais atitudes inclusivas face aos portadores desta síndrome. O estudo revela ainda que a Educação Sexual não teve qualquer efeito negativo nos conhecimentos, atitudes ou comportamentos dos adolescentes portugueses. Segundo uma investigação mais recente (2015) com o intuito de avaliar a implementação da Educação Sexual em contexto escolar, confirma o aumento e a consolidação dos conhecimentos dos adolescentes como objetivos privilegiados numa vertente de prevenção. Porém, o mesmo estudo refere  alguma falta de formação, de experiência e de à-vontade dos docentes nesta área como limitações no processo de implementação da Educação Sexual.

ContracetivosA escola, sendo o contexto ideal para a promoção dos direitos fundamentais dos indivíduos, pode constituir-se como um espaço privilegiado de aprendizagens, de desenvolvimento de competências sociais e relacionais ao mesmo tempo que pode permitir o aumento da consciência individual dos riscos para a saúde, associados a comportamentos relacionados com a sexualidade. A formação dos professores na área da sexualidade é uma necessidade, para a eficácia das intervenções em contexto escolar. Intervenções bem planeadas, com base numa prévia avaliação das necessidades e atividades dinâmicas e integrativas, irão certamente potenciar uma maior adesão por parte dos jovens, assim como uma melhor aquisição e consolidação de conhecimentos, tendo em vista a sua saúde e as suas experiências nos campos relacional e sexual. Uma atitude positiva face à sexualidade, passa pela informação e pelo conhecimento no sentido de favorecer atitudes e comportamentos responsáveis no que diz respeito à vivência tranquila e satisfatória da vida sexual dos jovens, como expressão de relações e de afetos.

Educação sexual

Fontes:

Click to access artigo_versao_final_para_site.pdf

http://hdl.handle.net/10400.5/5862

http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0871 91872015000200008&lng=pt&tlng=pt.

https://www.if.ufrgs.br/cref/ojs/index.php/ienci/article/download/567/359

 

Obesidade infantil e televisão

Obesidade

A obesidade e o excesso de peso na infância é atualmente uma das áreas que suscita grandes preocupações a profissionais de saúde, pais e educadores, assim como à comunidade científica, que em virtude do aumento da prevalência destas problemáticas entre os mais novos, se tem vindo a dedicar ao estudo desta matéria.

Sendo este um problema de saúde com graves consequências no desenvolvimento e no futuro da criança, há que estudar todas as possíveis causas, no sentido de se poderem encontrar soluções para as eliminar ou fazer diminuir o seu efeito. De entre as diversas causas atualmente apontadas para a elevada prevalência de problemas relacionados com o excesso de peso infantil, prevê-se que os meios de comunicação possam ter também um papel influenciador nesta matéria, nomeadamente a publicidade a alguns produtos alimentares, veiculada através da televisão. Vários são os estudos que se debruçaram sobre este tema, no entanto, nem todos são convergentes no que diz respeito aos resultados. Se uns apontam para uma forte influência da publicidade televisiva no que concerne a produtos alimentares de elevado teor de sal e açúcares, no consumo dos mesmos, outros há que não destacam essa variável mas sim, encontram uma associação direta negativa entre o ver televisão e a prática de exercício físico, ou por outras palavras, à medida que aumenta a atividade física, apesar dos valores elevados de consumo televisivo, a tendência para a obesidade diminui.

fast foodPor outro lado, os hábitos alimentares das sociedades modernas mudaram e começou a notar-se uma grande adesão por parte dos pais ao fast-food. Esta adesão deve-se em parte à comodidade mas também aos preços acessíveis que este tipo de alimentação oferece, tornando-se muitas vezes uma tentação, para muitas famílias difícil de resistir. Juntando este fator à falta de tempo e à quantidade de exigências do dia-a-dia, muitos pais facilitam e desvalorizam o consumo televisivo e tendem por vezes a não dar importância nem ao tempo, nem aos conteúdos a que as suas crianças estão sujeitas e a estímulos que podem ter um efeito pernicioso.  É certo que as escolhas alimentares das crianças resultam da combinação de vários fatores, não se podendo responsabilizar apenas a publicidade televisiva. Porém, o excesso de publicidade durante a exibição de programas infantis, especialmente em horário nobre televisivo, pode conduzir a um aumento da apetência para o seu consumo, com todos os potenciais efeitos negativos.

Excesso de peso infantil

Um trabalho de Story, Newmark-Sztainer e French (2002) identifica a existência de quatro níveis de fatores com grande relevância para a compreensão da escolha alimentar. O primeiro é o nível individual em que se observam fatores biológicos, comportamentais e psicossociais. O segundo é o nível ambiental que inclui a família e os amigos. O terceiro nível corresponde ao sistema comunitário que se refere à existência e ao acesso aos alimentos e o quarto nível tem a ver com o macrossistema que é a sociedade. É neste nível que se encontra a comunicação social, nomeadamente a oferta publicitária presente nos conteúdos televisivos infantis. Assim, pode-se dizer que em relação à exposição aos referidos conteúdos, estes conduzem também a uma maior exposição à publicidade a produtos alimentares pouco equilibrados do ponto de vista nutricional. Também o ver televisão pode estar associado ao consumo de petiscos doces ou salgados, habitualmente calóricos, ou até mesmo à ingestão de alimentos de forma distraída e por vezes abundante. Sendo o visionamento de televisão uma atividade sedentária, o metabolismo é reduzido e a atividade física é nula e vêm constituir-se como fatores de propensão ao aumento do peso.

Atividades ao ar livrePois bem, a ideia não é diabolizar a televisão nem entrar em extremismos pouco adaptativos. O objetivo deste artigo é o de chamar a atenção para estes factos do quotidiano, no sentido de consciencializar para os perigos dos excessos e para os benefícios do equilíbrio. Como em tudo na vida, o segredo está no equilíbrio. Não vamos proibir as nossas crianças de verem televisão, nem de terem contacto com a publicidade televisiva, nem mesmo proibi-las de comerem doces ou fast-food, a não ser que outros problemas de saúde o tornem imperativo. Vamos sim dar atenção ao tempo que as nossas crianças passam em frente ao écran e controlar o que ingerem durante esses períodos de tempo. Para além disso, promover a prática de exercício físico e de atividades ao ar livre, é sempre salutar e pode atuar como fator de proteção para o problema da obesidade assim como pode ajudar a promover o desenvolvimento de competências sociais, através da interação com outras crianças, ao mesmo tempo que pode proporcionar momentos de expressão afetiva.

VER TELEVISÃO

 

Fonte:

Story, M. T., Neumark-Stzainer, D. R., Sherwood, N. E., Holt, K., Sofka, D., Trowbridge, F. L., and Barlow, S. E. (2002), “Management child and adolescent obesity: Attitudes, barriers, skills, and training needs among health care professionals”, Pediatrics, 110 (1), 210-214.

 

A adolescência e o processo de separação/individuação: três olhares

AdolescentesA adolescência corresponde a uma fase do desenvolvimento que começa com a entrada na puberdade. Tem por isso um início biológico marcado por transformações às quais o indivíduo tem que se adaptar. O final da adolescência poderá ser determinado pela independência do jovem em relação aos pais, logo tem um carácter psicossocial.

A adolescência é uma fase de paradoxos uma vez que há uma inconstância de sentimentos e emoções que levam o jovem a oscilar entre o desejo de estar só e a vontade de sentir atenção e companhia, “Entre o medo e o desejo de crescer” (M. Fleming, 2005). Em termos psicológicos, a tarefa básica do adolescente é a aquisição do sentimento de identidade. Descobrir e experimentar coisas novas, assim como ensaiar vários papéis característicos do adulto, são tarefas típicas deste período. Para isso é fundamental que o contexto relacional do adolescente lhe forneça a segurança e o apoio necessário à experimentação e à sua estruturação enquanto individuo. Os estudiosos desta matéria defendem diversas teorias e modelos, sendo vários os autores portugueses que têm dado o seu contributo para o estudo do processo de separação/individuação na adolescência. Apresento neste texto três olhares psicodinâmicos sobre esta temática, de três psiquiatras e psicanalistas portugueses, cada qual com as suas particularidades e especificidades.

Separação/IndividuaçãoSegundo Carlos Amaral Dias, a adolescência é um período de espera moratória concedido ao adolescente enquanto não se encontra com aptidão para satisfazer os compromissos da vida adulta. O autor refere ainda que a adolescência é uma fase organizadora do psiquismo em que há um desinvestimento nos laços de dependência narcísica que anteriormente uniam a criança às suas figuras parentais, através de um processo de luto, que dá ao jovem a possibilidade de estar só e de ultrapassar de forma positiva o processo de separação/individuação. Em relação a este processo, o autor introduz uma ideia original, com base na obra de Bion e Meltzer, na medida em que defende que o adolescente rejeita o continente parental, isto é, a disponibilidade que os pais poderão ter para acolher conteúdos não transformados que recebem dos filhos através da identificação projetiva, conferir-lhes significado e a dirigi-los novamente para o filho de modo a que este já o possa assimilar. Para este autor, o adolescente, na fase de separação/individuação passa por dois processos de luto, na medida em que perde o self parental ao adquirir autonomia das figuras parentais e também o luto pelo grupo no sentido de conseguir individualizar-se e constituir-se enquanto ser com capacidade de estar com os outros mas também de estar só, consigo próprio.

Separação/IndividuaçãoNa perspetiva de Eurico Figueiredo, o conflito de gerações é indispensável à estruturação do indivíduo, sendo que o conflito é articulado por duas problemáticas distintas. Por um lado a idealização vs. desidealização das figuras parentais e por outro lado o narcisismo ou amor-próprio. Durante a infância a criança idealiza as figuras parentais e interioriza esse objeto que mais tarde, na adolescência lhe vai causar deceção ao olhar com outros olhos os pais reais. Isto leva a uma relação de conflito – o conflito de gerações. A realidade parental apresenta-se como uma dupla ameaça pois por um lado há uma renuncia precoce a um ideal que é do agrado do jovem e por outro lado há uma ameaça de depressão causada por um luto interno de desejos e ambições que o jovem receia não poder vir a concretizar, ou seja, ao mesmo tempo que o indivíduo renuncia a algo que o fez feliz na infância ele teme também não conseguir realizar as suas aspirações de adolescente. Este autor defende que no conflito de gerações há uma luta pelo amor-próprio. Por parte dos pais porque temem perder o amor dos filhos ao qual se habituaram durante a infância e por parte dos filhos porque lutam pelo seu amor-próprio que ficou perturbado pela desidealização dos pais. Eurico Figueiredo defende que a separação psicológica da família de origem é universal e deverá traduzir-se em aquisições psicológicas também elas universais (Fleming, M., 2005). Estes conflitos têm uma natureza evolutiva entre vários polos: autonomia vs. dependência, desautorização vs. submissão e desidealização vs. idealização, sendo que o primeiro polo deverá predominar à medida que o indivíduo se torna adulto.

Separação/Individuação

Por último, a perspetiva de Emílio Salgueiro. No que concerne a adolescência e ao processo de separação/individuação, o autor discorda da teoria da desvinculação ou desinvestimento do jovem adolescente às figuras parentais. Para ele os pais ganham importância e tornam-se figuras complexas ajudando a remodelar os objetos internos primordiais (Fleming, M., 2005). Isto é, refere que os pais ganham relevo na medida em que auxiliam o jovem a conferir uma nova forma aos objetos internos iniciais que irão ser o suporte para a sua vida adulta. O autor salienta que o amor pelos pais não desaparece, porém por vezes toma a forma de ódio positivo, sentimento inseparável do amor positivo, causado pela deceção dos pais idealizados na infância face aos pais reais. Se por um lado o adolescente se vê impelido a reagir contra os pais, por outro lado a confiança e segurança que estes lhe oferecem irá ser fundamental na consolidação da sua individuação.

 

Processo de separação/IndividuaçãoEmbora o processo de separação/individuação seja complexo, contraditório e pleno de obstáculos, ele é indispensável para que os adolescentes entrem no mundo dos adultos com a maturidade necessária para enfrentarem as novas situações e vivências com que se irão deparar na vida adulta.

 

 

Fontes:

Amaral Dias, C. & Nunes Vicente, T. (1981). A depressão no adolescente. Porto: Edições Afrontamento.

Fleming, M. (2005). Entre o medo e o desejo de crescer. Porto. Edições Afrontamento.

Sprinthall, N. & Collins, W., (2003). Psicologia do Adolescente: Abordagem desenvolvimentista. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Adolescência: a pressão dos pares

 

Pressão dos paresAs relações de amizade, à medida que o  tempo passa e a adolescência se aproxima, vão-se tornando cada vez mais significativas. À medida que se vai crescendo vai-se passando cada vez menos tempo com a família e cada vez mais tempo com os amigos, que por sua vez vão assumindo um papel cada vez mais importante na vida dos jovens, com grande influência nas suas vidas e nas suas tomadas de decisão.

A influência dos pares, principalmente na adolescência pode ser decisiva em muitas áreas da vida. O modo como o jovem se vai vestir, o desporto que vai escolher praticar, as músicas que vai ouvir ou até mesmo escolhas curriculares e profissionais, podem ser grandemente influenciadas pelos amigos. Essa influência exercida pelos pares, tem muitas das vezes bons resultados, ou seja, marca pela positiva, porque pode ajudar a tomar uma decisão importante, pode ser um exemplo para se atingir um melhor desempenho escolar, pode ajudar no desenvolvimento de competências sociais e também porque pode fazer com que o jovem se identifique com o grupo, desenvolvendo um sentimento de pertença, fundamental para a vivência saudável da fase da adolescência. No entanto, a influencia dos pares nem sempre é positiva e por vezes, é precisamente essa influencia que pode conduzir o adolescente a adotar comportamentos de risco, potencialmente perigosos para a sua saúde e integridade física ou emocional.

Pressão dos paresOs amigos podem oferecer maus exemplos, maus conselhos ou exercer pressão sobre os outros para fazerem algo com o qual estes não se sentem à-vontade e que não cabe dentro do seu sistema de valores e regras. Perturbar deliberadamente os outros, roubar, consumir álcool ou drogas, correr riscos a conduzir um carro ou ter relações sexuais sem proteção, podem ser exemplos de comportamentos que o adolescente pode vir a adotar, com base na influencia dos pares e por pressão destes. A pressão dos amigos pode ser exercida de uma forma direta ou indireta. De uma forma direta, a pressão pode ser exercida através de incentivos verbais como por exemplo, dizerem para beber mais umas cervejas, para fumar mais um cigarro, para experimentar uma droga, para acelerar com o carro, etc. De forma indireta, a pressão pode ser mais subtil e fazer-se presente por exemplo por ser disponibilizado aos outros os meios de correrem riscos, como manter disponível uma grande quantidade de bebidas alcoólicas ou drogas numa festa, ainda que não o façam de forma verbal.

Pressão dos pares na adolescênciaA dificuldade que alguns jovens têm para filtrar ou tomarem a decisão de não ultrapassarem as suas regras ou os seus valores, prende-se com a necessidade que estes podem ter de serem aceites e inseridos no grupo. Há muitas vezes uma pressão para que os jovens façam o que outros fazem, e se isto pode ser inócuo quando se trata de um comportamento sem consequências graves, como usar um determinado tipo de vestuário, por outro lado, podem levar o jovem a comportamentos com consequências sérias, graves e por vezes ilegais. A insegurança e a dificuldade nos relacionamentos interpessoais que alguns adolescentes têm, pode levar a que se deixem pressionar pelos pares, com tudo o que isso pode ter de bom ou de mau. Para além dos perigos que os jovens podem correr por influência dos pares, estas situações podem também constituir oportunidades de reflexão e de como cada um pode pensar em lidar com a pressão. E como podem então os jovens lidar com a pressão dos pares?

Pressão dos paresEm primeiro lugar, é necessário que o adolescente se ouça a si mesmo. Se perante um determinado desafio proposto por um amigo o jovem sente desconforto com a ideia, isso significa que essa situação é errada para si e só por isso deverá ser alvo de maior cuidado na sua avaliação. A utilização de uma balança de decisões, onde se colocam todos os aspetos e consequências  positivas num dos pratos da balança e no outro, todos os aspetos negativos, pode ajudar o jovem a tomar a decisão mais consciente e acertada. Os sentimentos que essa situação lhe provoca, as consequências possíveis por se envolver na situação, o modo como ela pode afetar os outros, os efeitos que a situação pode trazer a longo prazo ou as consequências que pode ter na sua relação com os outros, são fatores que devem ser analisados com cuidado, no sentido do adolescente poder decidir em consciência se se vai ou não envolver nessa situação.

Adolescência e comportamentos de riscoOutra estratégia para lidar com a pressão dos pares pode ser a programação antecipada da resposta, ou seja, o jovem, perante um acontecimento que prevê que possa envolver situações de risco, deve-se preparar para as recusar, de forma assertiva. Decidir o que não se quer fazer e ensaiar respostas adequadas para recusar certos comportamentos, pode ser muito eficaz no momento em que o adolescente se vê confrontado com algo que não quer.  Saber dizer “não” é fundamental. A comunicação assertiva pressupõe  a capacidade do indivíduo  se expressar de forma aberta e sincera ao mesmo tempo que demonstra interesse genuíno nos seus interlocutores. Ser assertivo é ter confiança em si próprio e ser fiel aos seus valores e crenças, com a coragem de falar o que se quer e quando se quer mas sem desrespeitar aos ideias e opiniões dos outros. Se um amigo quer convencer outro fazer alguma coisa que este sabe que não deve fazer ou que o deixa ansioso e desconfortável, este deve negar, ter orgulho em ser forte e fazer o que acha melhor para si e que vai ao encontro do seu sistema de valores.

Pressão dos pares na adolescênciaO evitamento pode também ser uma forma de resistir à pressão, isto é, se o jovem sabe que em determinado local ou evento, vão estar disponíveis, por exemplo, substâncias ilícitas, pode sempre optar por não comparecer ao evento, evitando assim cair em tentação. As consequências de um determinado comportamento são maioritariamente para quem o pratica e por isso deve ser sempre bem avaliado o que desse comportamento pode advir. Além disso há sempre a possibilidade de escolher sair com amigos que pensem da mesma forma, o que vai reduzir a probabilidade de se ter que  dizer “não”.  Numa situação de pressão, a voz da consciência não estará sozinha e provavelmente resistir vai ser mais fácil, quando há mais alguém com quem se partilha valores e os respeita.

Pressão dos pares na adolescênciaQuando a pressão é muita e o jovem já não sabe como lidar com ela, há sempre outra alternativa que é pedir ajuda. Perante uma situação potencialmente perigosa, como por exemplo a pressão para o consumo de drogas, o jovem não deve hesitar em pedir ajuda a um adulto em quem confie e se sinta à-vontade para o fazer, ao invés de correr riscos desnecessários. Se o adolescente estiver com dificuldade em resistir, em dizer eu não quero, a partilha do problema com os pais, com um irmão mais velho ou com outro amigo pode ajudar a decidir da melhor forma. Se o jovem não se sentir confortável em abordar o assunto em questão com os seus familiares ou com os que lhe estão mais próximos, pedir aos pais para ir falar com um psicólogo, pode mesmo ser a melhor opção.

 

 

 

 

Moralidade: um conceito, duas perspectivas

Piaget e KholbergUm dos objectivos da socialização é inculcar valores morais que são respeitados não apenas para evitar a punição mas também porque a pessoa acredita que eles são correctos.

A socialização dá-se ao longo do desenvolvimento humano sendo um  processo gradual e cumulativo. Ao longo do tempo tem-se procurado compreender de que forma o indivíduo assume e interioriza  os valores que orientam o seu comportamento, isto é, a forma como ocorre o desenvolvimento moral que vai influenciar o modo como vai construir o seu significado sobre o mundo social.

Piaget e Kohlberg Jean Piaget, cientista suíço que revolucionou o modo de encarar a educação das crianças, ao mostrar que elas não pensam como os adultos mas constroem a sua própria aprendizagem, afirma que o desenvolvimento moral das crianças, desde o nascimento até cerca dos 12 anos de idade, passa por duas orientações: heteronomia e autonomia. Numa primeira fase, as crianças encontram-se em moralidade heterónoma, ou seja, todas as regras são impostas pelo adulto, exteriores a si e não podem ser contestadas. Um comportamento é visto como completamente certo ou completamente errado, não havendo lugar para ver o ponto de vista do outro. Numa segunda fase, as crianças evoluem para uma moralidade autónoma, onde aceitam que as regras podem ser alteradas por elas próprias ou pelos outros, julgam os actos pela sua intenção e não apenas pela consequência dos mesmos e têm a capacidade de se colocar no lugar do outro, considerando mais do que um ponto de vista.

Kohlberg e PiagetPara este autor, a moral refere-se a um conjunto de regras e o conceito de moralidade refere-se ao respeito que a criança tem por essas regras. Para uma abordagem mais profunda a este conceito, Piaget divide-o em dois níveis: a consciência que a criança tem das referidas regras e a prática, isto é,o modo como as respeita e segue. As três questões básicas da moralidade são, o conhecimento das regras, a sua origem e a sua mutabilidade. Quando expostas às regras de determinado jogo, as crianças no estádio sensório-motor não tendo ainda consciência destas, vêm o jogo como uma actividade meramente motora. No estádio pré-operatório, as crianças imitam o comportamento dos outros e reconhecem a existência de regras, considerando-as imutáveis e rígidas. Embora tenha já consciência que essas regras regulam a actividade/jogo, a criança tem uma atitude egocêntrica na medida em que não joga “com os outros” mas sim retira dessa actividade um prazer para si mesma. No estádio operatório concreto, a criança já vê o jogo como uma competição e não apenas como uma actividade geradora de prazer psicomotor. Este estádio é marcado pela moralidade heterónoma em que as regras são vistas como algo rígido, não contestável e também percebidas como necessárias para a evolução do jogo. Numa última fase deste estádio, por volta dos 10 anos ou no início do estádio operatório formal, a criança desenvolve o raciocínio abstracto e passa para a fase da autonomia moral. Nota-se então um maior interesse não só em estudar as regras mas também em discuti-las de uma forma cooperante dentro do seu grupo de pares.

Piaget e KohlbergPor outro lado, Kohlberg, psicólogo norte-americano que se dedicou ao estudo do desenvolvimento moral das crianças e adolescentes, postula que este passa por três níveis: pré-convencional, convencional e pós-convencional, cada um dos quais está dividido em dois estádios, que vão para além da adolescência. Para este autor, só a maturidade pode trazer um conceito de moral, pleno de significado. Na base desta classificação está o nível de maturidade, de consciência e de motivação em relação às regras e à utilidade destas. O primeiro nível é Moralidade Pré-convencional onde a moralidade da criança é apenas marcada pelas consequências dos seus actos. No estádio 1, a criança respeita a regra apenas por ter medo da punição e não por ter noção do valor e do significado da mesma. Há uma orientação para a punição e para a obediência sendo considerada apenas a perspectiva do próprio ou da figura de autoridade. No estádio 2, marcado pelo individualismo e pela troca instrumental, a criança vê a relação com os outros como uma troca comercial, isto é, uma acção justa é aquela que é recompensada. No segundo nível,  Moralidade Convencional, há uma atitude de conformidade com a ordem da sociedade de lealdade e amor à família e ao grupo. O estádio 3 caracteriza-se pelo relacionamento e conformidade interpessoal, isto é, o comportamento é muitas vezes julgado com base na intenção, e esta intencionalidade torna-se pela primeira vez importante. A consciência social, o desenvolvimento da noção do dever e a manutenção da lei e da ordem, caracterizam o estádio 4. No terceiro nível, Moralidade Pós-convencional, destaca-se o esforço do indivíduo para definir os valores morais, o certo e o errado prescindindo por vezes da figura de autoridade. Alcançado o  estádio 5, nota-se uma orientação para o contrato social e os direitos individuais aceites democraticamente.  Há uma tomada de consciência da existência do outro, de maioria e de utilidade social. Por último, o  estádio 6 reflecte uma orientação para os princípios éticos universais. A noção de justiça define-se nesta fase pela decisão da consciência de acordo com princípios éticos abstractos que determinam o código moral pessoal, escolhidos com base na compreensão lógica, na coerência, na universalidade, e na solidariedade, regendo-se por princípios universais de igualdade, reciprocidade e respeito pelo outro.

Piaget e Kohlberg O desenvolvimento moral ocorre através da interiorização de um conjunto de princípios éticos ou normas, a partir das quais é avaliada a conformidade dos vários pensamentos, sentimentos e comportamentos. A maturidade moral implica  a capacidade e disponibilidade do indivíduo para se sujeitar às normas morais interiorizadas, mesmo quando não estão presentes as figuras de referencia e autoridade, que habitualmente reforçam a conduta moral ou punem as transgressões. Duas teorias, duas perspectivas, em todo o caso têm em comum uma ideia desenvolvimentista e ecológica. Tanto no modelo de Piaget como no de modelo de Kohlberg, a moralidade de um indivíduo depende tanto de factores psicológicos e biológicos  como de elementos sociais e culturais, tornando-se claro que diferentes situações sociais, culturais, psicológicas e biológicas irão propiciar diferentes comportamentos e diferentes moralidades.

Fontes:

Kohlberg, L. (1981). The Philosophy of Moral Development. San Francisco. Harper and Row.

Piaget, J. (1994). O juízo moral na criança. São Paulo: Summus