Intimidade e Afeto na Relação Terapêutica

Em psicologia, a relação terapêutica é uma relação de ajuda, assimétrica e colaborativa, entre o psicólogo/a e o cliente ou paciente. Esta relação vai evoluindo ao longo do tempo, à medida que o cliente vai percepcionando a mudança e o benefício obtido pela intervenção, o que frequentemente corresponde ao modo como este se vai sentindo confiante, compreendido, seguro e contido na sua relação com o psicólogo/a.

Enquanto psicóloga clínica, a minha relação com o cliente/paciente, tem início com um pedido de ajuda/apoio feito por parte do próprio cliente ou por alguém em seu nome, motivado por problemas, dificuldades ou perturbações relacionadas com a saúde mental ou psicológica. As dificuldades podem ser de origem diversa e múltipla, e os vários pedidos de ajuda, embora por vezes tão distintos entre si, têm sempre um objetivo comum e muito específico – promover a mudança, de modo a aumentar a saúde, o bem-estar, a qualidade e a satisfação com a vida, da pessoa em sofrimento.

A minha motivação enquanto psicóloga, defino-a como o impulso que me faz agir, de modo a atingir um determinado objetivo ou meta, sendo um elemento essencial para a minha realização profissional, para a eficácia da intervenção e para o meu desenvolvimento enquanto ser humano. O trabalho psicoterapêutico tem como objetivo central, a oportunidade de ajudar o cliente, através da aplicação de técnicas resultantes do estudo da ciência psicológica, mas também pela adoção de uma atitude autêntica, compreensiva, empática e de aceitação, desprovida de julgamentos, e em que a flexibilidade, o comprometimento, a tolerância e o respeito pelos princípios éticos, são uma constante. Na minha prática clínica, a relação com o cliente terá que ser necessariamente colaborativa, na medida em que a ausência de envolvimento ativo por parte do deste, compromete seriamente o sucesso da intervenção. É da tomada de consciência de que há um problema (ou vários), da definição de objetivos e tarefas por mútuo acordo e do vínculo emocional positivo, baseado na confiança, respeito e aceitação, que se dá o (por vezes longo) processo de mudança, e se vão atingindo pequenos sucessos, que no seu todo irão ditar a eficácia da intervenção. 

Para mim, uma intervenção que traz benefício ao outro e por isso eficaz, é sem dúvida motivo de realização profissional e de grande satisfação pessoal, tanto pela melhoria na qualidade de vida do cliente, como pelas aprendizagens que todo o processo me proporciona. Destaco a importância da relação terapêutica na motivação do cliente para a obtenção de resultados positivos, pois este terá um caminho a fazer, no sentido de reconhecer as suas dificuldades, preparar-se para a mudança e posteriormente efetuar esforços reais (ações), uma vez que, como referi, a consciência, o compromisso e o envolvimento no processo terapêutico, são fundamentais para o sucesso. A relação terapêutica, a forma como esta se estabelece, se mantém e evolui, deverá ser alvo de monitorização e avaliação por parte do psicólogo/a, pois ela é sem dúvida, significativamente responsável pelos resultados da intervenção psicológica, e consequentemente pelo objetivo primordial de todo o processo psicoterapêutico – o bem-estar do cliente. A compreensão e aceitação total por parte do/a psicólogo/a, pelo sofrimento emocional do cliente, no contexto da relação terapêutica, permite mostrar-lhe que ele pode ser “ele mesmo“, expressar tudo o que sentir necessário, pois não será em momento algum, julgado ou criticado pela forma como pensa, sente e se comporta. Esta relação oferece um tempo e um espaço com características particulares, onde o cliente pode simplesmente Ser.

Ouvir sem julgar e sem “punir”, vai ao encontro da promoção de intimidade, que não é mais do que um reportório interpessoal, que envolve a autorrevelação de pensamentos e sentimentos, e que conduz a um sentimento de conexão, apego e proximidade, na relação com o outro. Das várias propostas psicoterapêuticas de Terceira Geração, a psicoterapia analítico-funcional em particular, destaca-se por se focar no estudo e na intervenção sobre variáveis da própria relação entre o psicólogo/a e o cliente, considerando-a por si só terapêutica, se for promotora de intimidade entre ambos e facilitadora da modificação dos padrões relacionais do cliente. O envolvimento emocional, a intimidade, o aqui e agora, tornam-se ingredientes fundamentais de uma “receita” que desafia sobretudo o psicólogo/a, ao abrigo da análise funcional, a conhecer-se e a reinventar-se, a cada nova e única relação com o cliente. Por definição, a intimidade envolve o risco de experiências aversivas como a vergonha, a humilhação, o desconforto ou a rejeição. Por outro lado, é pela construção da intimidade que podemos experienciar sentimentos como validação, compreensão e cuidado.

E porque não, deixar entrar o afeto na relação terapêutica? Para além de todos os outros “ingredientes” que compõem e caracterizam a relação, poderá ou não ser benéfico para a sua construção e manutenção, e, consequentemente para o cliente, que o psicólogo/a lhe expresse o seu afeto de uma forma genuína? Deixo esta questão para reflexão…

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