
A adolescĂŞncia Ă© um perĂodo da vida humana especialmente complexo e ambĂguo. A vontade de crescer e de se tornar adulto e autĂłnomo, colide por vezes com a vontade de se manter criança, livre de responsabilidades ou encargos. “Entre o medo e o desejo de crescer” (Manuela Fleming).
Se para nĂłs adultos a situação de pandemia causada pelo vĂrus Covid-19 está a revelar-se difĂcil de ultrapassar, na medida em que encerra em si diversos desafios, principalmente de adaptação a uma nova realidade, para os adolescentes, pelas suas caracterĂsticas, o desafio pode estar a ser mais difĂcil de vivenciar. As sĂşbitas alterações das rotinas e do estilo de vida de muitos jovens, a par com a dificuldade que alguns possam ter em cumprir as regras de conduta adequadas no contexto atual, pode levar a situações de grande sofrimento emocional, de isolamento, aumento dos nĂveis de ansiedade, depressĂŁo ou problemas de comportamento. No futuro, tambĂ©m poderá vir a tornar-se um problema o retomar hábitos, horários e rotinas anteriores.

E como podem os pais ajudar os seus filhos adolescentes a passarem por esta fase com o menor dano possĂvel? Em primeiro lugar deverĂŁo informar os seus filhos sobre a realidade atual. Essa informação passa por fornecer informação fidedigna ou orientar os jovens na procura de informação adequada nos meios de comunicação disponĂveis. A informação Ă© o ponto de partida para o entendimento da situação e para a adoção de medidas de proteção e segurança para evitar a contaminação. Uma boa informação ajudará certamente na aceitação do problema e esta será a melhor estratĂ©gias para se lidar com algo que Ă© inevitável.

Manter as rotinas possĂveis Ă© extremamente importante. Com o fecho das escolas houveram muitas alterações em termos de horários. As horas de deitar, de acordar, de fazer as refeições, etc., podem sofrer grandes alterações devido Ă s mudanças inevitáveis causadas pela adaptação Ă situação e pelo confinamento necessário. No entanto, Ă© muito importante para o bem-estar geral, que o dia-a-dia seja estruturado de modo a que tudo o que for possĂvel seja mantido, programando e executado. Dever-se-á estabelecer uma hora fixa de levantar, fazer a higiene diária e tomar o pequeno-almoço adequada Ă situação de cada jovem em termos de exigĂŞncias escolares ou acadĂ©micas. Nos dias do fim-de-semana esses horários poderĂŁo ser flexibilizados, Ă semelhança do que eram em tempos “normais”, no sentido de manter uma diferenciação entre os dias de semana e os dias de descanso semanal.

Planear as atividades diárias, quer escolares como lĂşdicas e destinar um tempo para cada uma delas, poderá ser o modo mais fácil de as cumprir e de dar sentido aos dias. No final do dia o jovem terá a possibilidade de verificar de que forma conseguiu cumprir o planeado e refletir sobre as tarefas efetuadas, ao mesmo tempo que tem a possibilidade de reestruturar as suas tarefas de forma mais eficaz, se sentir essa necessidade. Os pais devem ficar atentos Ă s atividades dos jovens, no sentido de os ajudarem e apoiarem em algumas tarefas com as quais eles possam ter maiores dificuldades. Por outro lado, esse acompanhamento deverá ser positivo e reforçador. Elogie cada esforço do seu filho para se adaptar Ă s novas realidades e para cumprir com as exigĂŞncias escolares. Lembre-se sempre de que esta Ă© uma situação nova e difĂcil para todos e procure ser tolerante na relação com o adolescente, sem descurar o estabelecimento de regras e limites.

E como ser tolerante quando o comportamento do jovem Ă© difĂcil, desafiante ou desobediente? Antes de mais expresse sempre o seu amor pelos seus filhos, qualquer que seja a sua idade, adequando as suas palavras e gestos, claro. O que poderá estar em causa e provocar-lhe desagrado Ă© o comportamento do seu filho e nĂŁo ele. Validar os sentimentos dos jovens Ă© muito importante. Permitir que expressem as suas emoções, que coloquem as suas dĂşvidas e que manifestem as suas dificuldades, vai certamente ajuda-los a lidarem com os problemas decorrentes da situação atual. A vivĂŞncia dos afetos Ă© importante em todos os momentos, principalmente quando estes sĂŁo mais instáveis e difĂceis de nos adaptarmos.

Por fim, procure integrar o seu filho adolescente nas atividades da famĂlia para promover o convĂvio e evitar o isolamento. Destine um tempo em famĂlia para fazer atividades em conjunto como jogos de tabuleiro, assistir a filmes, partilhar tarefas como a culinária, ou outras que sejam do agrado de todos. Se o seu filho adolescente tem dificuldades ao nĂvel dos relacionamentos sociais, promova o contacto dele com colegas e amigos atravĂ©s dos meios de tecnologia existentes. Isolamento social nĂŁo significa deixar de comunicar com os outros mas sim manter-se fisicamente afastado dos outros. Hoje em dia, a tecnologia permite inĂşmeras interações, que na dose certa podem ser muito gratificantes. E tenha muita paciĂŞncia e calma, aos poucos e com muitos cuidados, a vida irá seguindo o seu curso.




As práticas de punição fĂsica sĂŁo as menos eficazes porque traduzem um modelo de violĂŞncia, porque nĂŁo ensinam um comportamento adequado alternativo e ainda, porque promovem um comportamento de obediĂŞncia baseado no medo, com efeitos habitualmente pouco duradouros e por vezes devastadores para o desenvolvimento da criança.
Geralmente aconselha-se que a criança durma sozinha, se possĂvel a partir dos seis meses de vida, de preferĂŞncia no seu prĂłprio quarto, no sentido de favorecer a sua capacidade de estar sĂł e de promover o desenvolvimento da sua autonomia.


Os maus tratos na infância sĂŁo definidos pela Organização Mundial de SaĂşde (OMS) como qualquer forma de abuso ou violĂŞncia fĂsica, psicolĂłgica, sexual, negligĂŞncia, exploração comercial ou outra, no contexto de uma relação de responsabilidade, confiança ou poder, de um adulto em relação a uma criança/ adolescente.
A violĂŞncia sexual refere-se a todo o contacto ou interação com uma criança para estĂmulo ou gratificação sexual de um adulto ou de outra criança. Considera-se negligĂŞncia a ausĂŞncia da satisfação das necessidades básicas, sendo que estas incluem a alimentação, a higiene, os cuidados mĂ©dicos, o abrigo, a segurança, a aceitação, o carinho, etc. Seja qual for o tipo de violĂŞncia exercida sobre uma criança/adolescente, e seja quem for o agressor, o impacto na vida da criança e no seu futuro pode ser muito significativo. Quando o agressor Ă© um dos progenitores ou ambos, o impacto Ă© potencialmente maior. Receber maus tratos por parte daqueles de quem esperamos proteção, confiança e apoio incondicional leva sempre a uma perturbação e confusĂŁo maiores.
De facto, os sentimentos de culpa são frequentes em situações em que a criança/adolescente sofre de maus tratos por parte dos progenitores. Ela não entende porque é que aquela pessoa a quem ama e a quem muitas vezes procura agradar, e que às vezes até revela algumas manifestações de afeto para com ela, consegue ser tão cruel. A ambiguidade de algumas relações pais-filhos podem provocar na criança/adolescente uma grande instabilidade emocional e sentimentos de medo, insegurança, desconfiança e frustração, conducentes a um enorme sofrimento emocional.
As crianças precisam e têm o direito de serem protegidas. Todo o tipo de violência tem sempre efeitos negativos mas a violência contra as crianças, tem um impacto extremamente significativo, comprometendo o seu futuro!
São diversos os fatores de risco para a violência e os maus tratos infantis. Fatores como a doença mental, o temperamento, a genética, o consumo de álcool ou drogas, a história prévia de violência, os sentimentos de rejeição ou frustração, o próprio ambiente comunitário ou o isolamento social, a pobreza, bem como os modelos e exemplos veiculados através dos meios de comunicação social, podem potenciar comportamentos agressivos em contexto familiar. Outros fatores como a discriminação, o racismo, o machismo ou a falta de apoio social são exemplos de aspetos entre muitos outros, a levar em consideração quando o assunto é violência e maus tratos.