Ciúme e amor romântico

O ciúme é uma emoção universal, que em maior ou menor grau, todo o ser humano experiencia, em algum momento da sua vida. Transversal às relações pessoais e sociais, o ciúme pode ser vivenciado em diversos tipos de relacionamentos: romântico, familiar ou de amizade.

Definir o ciúme não é fácil, mais fácil é sem dúvida identifica-lo. No entanto, podemos referir as suas principais características que incluem o facto de ser um sentimento perante uma ameaça percebida, que pressupõe a existência de um rival, quer este seja real ou imaginário, e é uma reação que tem como objetivo eliminar o risco da perda do “objeto amado”. Foquemo-nos então no amor romântico e no respetivo ciúme. Este é um ciúme que acontece entre casais, tipificado por um conjunto complexo de pensamentos, emoções e ações perante a ameaça da perda do amor do outro e do respetivo relacionamento. O ciúme decorre da existência de um triângulo social, ainda que imaginário o que desperta sentimentos como o medo, a raiva ou a tristeza e que podem levar o indivíduo a comportamentos por vezes irracionais e desadequados.

Podemos dividir o ciúme em duas categorias: o ciúme reativo ou o ciúme patológico. O primeiro é circunstancial e temporário, ocorrendo perante factos concretos. É um tipo de ciúme que frequentemente decorre de fatores exteriores ao sujeito, como por exemplo a situação social, a dependência ou a confiança no outro. O ciúme patológico está mais relacionado a fatores intrínsecos ao indivíduo e por isso tende a ser crónico e a despertar emoções como a ansiedade e insegurança, quer em relação a si mesmo, quer em relação ao parceiro. Qualquer pequena situação, real ou imaginária, perante um ciúme patológico pode tomar sérias proporções e constituir-se como uma séria ameaça ao relacionamento.

O ciúme é por vezes visto como um sinal de devoção ao parceiro, como uma prova do seu amor, atribuindo-lhe a função de proteção do relacionamento. Porém, um ciúme patológico, que pode incluir sentimentos de ódio, humilhação, rejeição ou angústia, pode conduzir a problemas sérios ao nível da autoestima o que, em alguém que já viveu uma experiencia anterior de traição ou abandono, pode provocar uma enorme insegurança e insatisfação com a vida. A preocupação ainda que infundada, irreal ou irracional, pode conduzir a um estado de espírito muito perturbado e a atos irrefletidos e inaceitáveis, com prejuízos significativos para o relacionamento e para a felicidade do casal. A necessidade de controlo do outro ou de limitar as suas ações tem um efeito nefasto e por vezes irreversível num relacionamento amoroso.

O ciúme associado a um quadro de perturbação psiquiátrica pode ocorrer em consequência de fatores orgânicos, como por exemplo o alcoolismo ou o consumo de substâncias psicoativas (ciúme delirante) ou na perturbação obsessivo-compulsiva (ciúme obsessivo). O ciúme delirante representa a forma mais extremada do ciúme patológico, caracterizando-se pela falta de realidade e pelas crenças irredutíveis e não partilhadas pelos outros indivíduos do mesmo contexto sociocultural, que levam o sujeito a certezas só suas e que nenhuma argumentação consegue corrigir. O Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-V) insere o ciúme patológico dentro do quadro das perturbações delirantes, definindo como um subtipo cujo tema central do delírio do indivíduo se prende com o facto de achar que o seu cônjuge ou parceiro lhe é infiel. A perturbação delirante do tipo ciúme é provavelmente mais comum no género masculino do que no feminino, não havendo porém diferenças de género significativas na frequência global da perturbação delirante.

Nos dias de hoje e em virtude da utilização generalizada de redes sociais, algumas pessoas podem revelar maior vulnerabilidade ao ciúme. Sites como o Facebook ou o Instagram, tornam bastante acessível a informação acerca das pessoas através das suas publicações, contactos e trocas de mensagens. Parece haver alguma evidência de que nestes casos, são as mulheres quem apresenta maior tendência para índices de ciúme mais elevados, comparativamente aos homens. Essas evidências baseiam-se no fator tempo gasto nas redes sociais, que é tendencialmente maior no género feminino e que pode fazer consequentemente aumentar os sentimentos e comportamentos de ciúme.

O ciúme patológico torna-se perigoso no sentido em que pode potenciar os índices de violência entre o casal. O sentimento de posse e a desconfiança pode levar á violência, principalmente se o indivíduo ciumento tem propensão para comportamentos agressivos e/ou hábitos de consumo de álcool ou outras substâncias psicoativas. Outro fator que pode intensificar os comportamentos agressivos entre o casal, é terem havido casos de violência motivada por ciúme em relações anteriores ou ainda, o facto de o indivíduo ter problemas ao nível da autoestima e insegurança. A violência contra o parceiro num relacionamento amoroso está associada ao abuso de poder e pode resultar em agressão física, psicológica ou sexual (ameaças, intimidações, ofensas verbais ou mesmo violação).

Os indivíduos que apresentam ciúme patológico apresentam também frequentemente índices mais elevados de ansiedade, depressão, impulsividade, agressividade e dificuldades ao nível da adaptação social. O ciúme patológico, á semelhança de muitas outras perturbações do foro mental, pode ser tratado com recurso a uma abordagem medicamentosa, através da utilização de antidepressivos ou até mesmo antipsicóticos, dependendo da sua gravidade. A psicoterapia pode dar também um enorme contributo, ou pode por si só ajudar a resolver a situação. A terapia cognitivo-comportamental pode oferecer grande eficácia nestes casos, através do ensino e treino de estratégias que ajudam o indivíduo a diminuir a sua preocupação exagerada, os sentimentos de angustia e os comportamentos desajustados, aumentando não só o seu bem-estar como também a qualidade da sua relação amorosa e a harmonia familiar.

Fontes:

Bringle, R. G. (2007). Psychosocial aspects of jealousy: A transactional model. In Psychology of Envy and jealousy. The Gilford Press.

Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – Quinta Edição (DSM-V). American Psychiatric Association.

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