Hiperatividade e défice de atenção – O processo de avaliação

O processo de avaliação psicológica tem o seu início quando é pedida a resposta a uma questão ou um parecer profissional sobre um determinado caso ou indivíduo. Sendo a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção uma das mais prevalentes em crianças e adolescentes, uma correta e cuidada avaliação implica especificidades às quais o psicólogo deve atender.

Ao avaliar, é importante ter em consideração que as crianças e os adolescentes estão num processo de desenvolvimento e de mudança contínua muito mais acelerado que o dos adultos e que estão inseridos em contextos educativos, familiares e sociais extremamente determinantes do seu comportamento e com grande influência no seu desenvolvimento, pelo que não devem ser excluídos do processo de avaliação. No entanto, o sujeito em avaliação, em consequência da sua pouca idade, poderá também oferecer um conjunto de dificuldades intrínsecas ao próprio processo, como por exemplo, as suas capacidades de colaboração poderem ser limitadas em maior ou menor grau pelas suas características em termos de linguagem, temperamento, atividade motora, desenvolvimento cognitivo, etc.

Muitas das mudanças que tipicamente ocorrem durante a infância estão relacionadas com a maturação. As diferenças individuais aumentam à medida que a criança cresce e experiencia acontecimentos de vida não-normativos diferenciados e com impacto variável relativamente ao momento em que ocorrem. Dados empíricos evidenciam períodos críticos para certos tipos de desenvolvimento físico precoce, no entanto, para o desenvolvimento cognitivo e psicossocial parece haver maior plasticidade. A avaliação psicológica atende a vários domínios e níveis específicos. Em termos de domínios, são de referir o cognitivo, o emocional, o comportamental, o interpessoal/comunicação e o domínio do desenvolvimento. Quanto aos níveis, podemos considerar o individual, a díade (ex. relação mãe/pai-filho/a), a família nuclear, a família alargada, a comunidade e a cultura da criança/adolescente.

A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) é a condição psiquiátrica mais frequentemente diagnosticada em crianças e caracteriza-se pela manifestação de um padrão persistente de falta de atenção e/ou impulsividade-hiperatividade, com uma intensidade que é mais frequente e grave que o observado habitualmente nos sujeitos com um nível semelhante de desenvolvimento. Esta perturbação é particularmente grave, porque os jovens tendem a desenvolver uma vasta gama de problemas escolares e de relacionamentos sociais potencialmente desadaptativos. Se não for tratada, esta perturbação pode conduzir a uma extrema frustração, alienação, insucesso escolar, comportamento antissocial ou até mesmo levar ao consumo de substâncias psicoativas. A impulsividade e agressividade podem originar dificuldades na aquisição e manutenção de relacionamentos saudáveis assim como dificultar o envolvimento no grupo de pares.

Para um diagnóstico de PHDA é necessário que sejam identificados na criança/adolescente alguns critérios, e que estes se manifestem com frequência, com intensidade desadaptativa e que persistam pelo menos durante seis meses. Como critérios exemplificativos descrevem-se o não prestar atenção suficiente aos pormenores ou cometer erros por descuido nas tarefas escolares ou outras atividades; ter dificuldade em manter a atenção em tarefas ou atividades; parecer não ouvir quando se lhe fala diretamente; evitar ou estar relutante em envolver-se em tarefas que requeiram um esforço mental mantido; distrair-se facilmente com estímulos irrelevantes; precipitar as respostas antes que as perguntas tenham acabado; falar em excesso; interromper ou interferir nas atividades dos outros; ter dificuldade em organizar tarefas ou atividades; correr ou saltar em situações em que é inadequado fazê-lo (em adolescentes pode limitar-se a sentimentos subjetivos de impaciência), entre outros critérios igualmente relevantes.

Embora a criança possa apresentar critérios tanto de falta de atenção como de hiperatividade, em alguns casos predomina claramente um dos padrões. A PHDA pode ser do tipo misto, do tipo predominante desatento ou do tipo predominante hiperativo-impulsivo. Assim, para o correto diagnóstico deve tomar-se em consideração qual o padrão sintomático predominante nos últimos 3 meses. Para além das manifestações principais de PHDA, há crianças/adolescentes que apresentam outras perturbações, tais como perturbações de comportamento, perturbações emocionais, dificuldades nas aquisições escolares, perturbações da linguagem ou da motricidade. Há situações de comorbilidade com a PHDA, como por exemplo as perturbações de aprendizagem, a perturbação de oposição e desafio, as perturbações do comportamento, a perturbação de ansiedade, a perturbação de Asperger ou as perturbações de tiques.

A avaliação da PHDA deve incluir uma entrevista semiestruturada (pais e criança), de modo a que sejam recolhidos dados relevantes, respeitando as singularidades de cada criança/adolescente. É através desta entrevista que se inicia o estabelecimento da relação terapêutica e a motivação para o processo de avaliação e possível futura intervenção. Também os professores podem ter um papel muito importante no processo de avaliação, nos casos em que as situações problemáticas ocorrem principalmente em sala de aula. A observação, laboratorial ou naturalista (em contexto escolar ou familiar) pode ser outro método avaliativo a considerar, no sentido de se poder verificar a frequência, intensidade e o grau com que os comportamentos se manifestam. É muito útil e informativa na avaliação da relação do avaliado com os pais, irmãos, outros familiares, professores e o grupo de pares.  Serve também para se identificar em que ambientes se mantêm, agravam ou diminuem os comportamentos desadaptativos.

Outro método de grande utilidade na avaliação da PHDA são os questionários ou inventários de auto e hétero-relato. Estes destinam-se à recolha estruturada e detalhada de informação complementar à fornecida pelas entrevistas e observação, permitindo uma visão mais aprofundada e completa das problemáticas apresentadas pela criança/adolescente. Quando os resultados das técnicas anteriormente descritas se revelam inconclusivos, poder-se-á recorrer à avaliação das funções executivas, na tentativa de clarificar a direção que os seus resultados nos indicam. As funções executivas referem-se à capacidade de um indivíduo em se focar em comportamentos orientados para objetivos, realizar ações voluntárias de forma independente, auto-organizada e direcionada a um fim específico.

Para isso poderá ser necessário o recurso a instrumentos de avaliação psicológica como o Teste de Stroop, que avalia a atenção seletiva; os Testes de Memória de Trabalho Auditiva e de Memória de Trabalho Visual ou o Teste de Fluência Verbal. Estes instrumentos podem ser informatizados e por isso oferecerem vantagens na análise de medidas temporais, como tempos de reação e duração da resposta, permitindo um registo preciso do tempo, aumentando a sensibilidade dos testes. Para além disso, a informatização promove a padronização das condições de apresentação de estímulos e a recolha das respostas, permitindo maior rigor no controlo das condições de avaliação. Estes instrumentos avaliam as funções executivas e têm revelado evidências de validade na sensibilidade a alguns aspetos da PHDA, reconhecendo a hipótese de que as funções executivas devem ser consideradas nos seus diversos componentes, como a atenção seletiva, o planeamento, o controlo inibitório, a memória de trabalho e a flexibilidade.

Posteriormente, o psicólogo deverá devolver ao cliente os resultados da avaliação, tendo o cuidado em integrar os vários resultados e fornecer a informação o mais clara e completa possível, de modo a permitir uma compreensão do caso, revelando respeito e compreensão pela questão em avaliação e pela criança avaliada. A discussão do relatório deverá ser feita com o cliente numa tentativa de analisar até que ponto as circunstâncias preocupantes iniciais se mantem, cessaram ou se agravaram, tendo em vista o possível encaminhamento para uma intervenção. As perturbações do neurodesenvolvimento devem ser levadas em consideração e tratadas para evitar consequências futuras certamente mais difíceis de gerir e de tratar em idade adulta.

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A adolescência e o medo do julgamento

Sendo as perturbações de ansiedade das mais prevalentes no universo infantojuvenil, a fobia social é um tipo de perturbação com grande expressão na adolescência, quer pelas suas especificidades, quer pelas características do desenvolvimento típicas desta faixa etária.

A ansiedade social caracteriza-se por um medo acentuado e persistente de uma ou mais situações sociais e de desempenho, nas quais o jovem está exposto a pessoas com as quais não tem proximidade nem à-vontade. Nessas situações, o jovem sente-se observado e avaliado e teme ser humilhado, envergonhado ou criticado. Nas situações em que tem que se expor, o adolescente sente-se muito ansioso embora possa reconhecer que tal sentimento é irracional e excessivo. Em alguns casos, o facto de ter que se expor, por exemplo perante a turma para a apresentação oral de um trabalho, o jovem pode mesmo ver escalar a sua ansiedade para um ataque de pânico. O medo da avaliação dos outros é normativo na adolescência, contudo quando esse medo impede a funcionalidade do jovem e lhe causa sofrimento, deverá ser alvo de avaliação e intervenção.

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Resoluções de Ano Novo

Agora que o ano de 2020 está a aproximar-se do fim e que o balanço não é certamente positivo para a maioria das pessoas, há que renovar esperanças para o novo ano que se avizinha.

As expetativas de que um novo ano nos trará a resolução de alguns problemas, colide com a noção de que outros se desenham no horizonte e de que é necessário reunir esforços e recursos para lidarmos com um período de crise económica, política e de saúde. O aumento da taxa de desemprego, as dificuldades económicas que muitas famílias atravessam, as lutas políticas e ideológicas relacionadas com a gestão da situação pandémica e as repercussões do cenário social nas nossas vidas, darão origem a desafios alguns deles difíceis de enfrentar. Por outro lado, a esperança numa vacina eficaz, a vontade de retomar a “normalidade” e a enorme força da massa humana para ultrapassar a adversidade, concorre com todas as dificuldades.

É comum ouvir-se dizer que o ano de 2020 é “para esquecer”, no sentido em que têm sido tantas as perdas causadas pela pandemia que o melhor mesmo é fazer de conta que este ano não existiu. Mas será mesmo assim? Será que devemos esquecer ou pelo contrário, devemos refletir acerca do que aconteceu, está a acontecer e terá certamente impacto em nós e na forma como passamos a olhar o mundo? Esta é uma reflexão pertinente num momento em que se aproxima o início de um novo ano, situação que trás consigo por tradição a tomada de decisões acerca de aspetos das nossas vidas que decidimos mudar – as típicas resoluções de ano novo.

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Para além das questões que se prendem com a subsistência, como manter ou mudar de emprego, investir capital para obter rendimento extra, iniciar uma atividade remunerada, enfim toda e qualquer resolução que implique resolver a situação económica de cada um, as decisões de mudanças comportamentais são as mais frequentes. Mudar o comportamento alimentar para perder peso ou para melhorar a saúde física, poderá estar no topo das resoluções de ano novo, motivado em parte pelos excessos cometidos na quadra natalícia. Também as decisões de iniciar ou retomar a prática de exercício físico são muito comuns. Comprar casa, carro, ou outros bens de consumo, são decisões que muitas vezes se tomam em início de ano. Até mesmo mudanças referentes aos comportamentos que se prendem com relações pessoais como, estar mais vezes com amigos, iniciar ou terminar uma relação, telefonar mais vezes a um familiar…

E que tal ter como resolução de ano novo a mudança do seu pensamento? Modificar a maneira como pensamos modifica também a forma como nos sentimos, e logo, muda também o nosso comportamento. Quantos de nós nos damos por vezes a ter pensamentos rígidos acerca de determinado assunto, que nos impede de ver a situação sob uma perspetiva diferente? A capacidade de se ser flexível no modo de pensar não faz de nós pessoas incoerentes mas sim, pessoas que se adaptam de forma mais adequada ás diferentes situações. Pensar diferente pode-nos ajudar a lidar com um problema com menor sofrimento. Pode não ser um trabalho fácil mas a reestruturação do nosso pensamento pode ter um efeito muito positivo no modo como olhamos o mundo e os outros, levando-nos a aceitar, compreender e a ter uma atitude mais positiva perante algumas questões com as quais temos dificuldade em lidar.

Pensamentos mais adaptativos levam a sentimentos mais positivos. As nossas emoções, por vezes tão complicadas de gerir, irão beneficiar se conseguirmos ter um pensamento mais flexível, o que pode implicar o distanciamento de uma situação e uma reavaliação da mesma.  Tomar a decisão de mudar exige um exercício de reflexão e análise acerca de quem somos, qual a nossa forma típica de pensar, de sentir e de nos comportarmos. Mudar é difícil, exige aprendizagem, treino, monitorização e voltar ao ponto de partida, sempre que necessário. Mudar implica um trabalho de autoconhecimento complexo, por vezes demorado podendo levar à desistência e ao desânimo. Mudar, não é tarefa para se fazer sozinho. E que tal, definir como resolução de ano novo a procura de apoio, de ajuda especializada de um psicólogo/a?

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Ansiedade de separação na infância

Os problemas relacionados com ansiedade são muito prevalentes na população pediátrica. Os medos fazem parte do contexto infantil e são em certa medida adaptativos e protetores, porém, há casos em que o medo se torna impeditivo do funcionamento “normal” da criança, com um impacto potencialmente negativo no seu desenvolvimento socio-emocional.

Das várias dimensões que a ansiedade pode abarcar, a ansiedade de separação é talvez a mais típica do universo infantil. As crianças com esta perturbação apresentam um sofrimento excessivo e recorrente em situações de separação das figuras de referência, principalmente os pais. A enorme preocupação destas crianças com a perda, possíveis danos como acidentes ou até mesmo a morte dos que lhes são próximos, é muito perturbadora do seu quotidiano, com repercussões na tranquilidade familiar. Do mesmo modo, o medo intenso de se perderem ou de serem raptadas é outro sentimento comum a estas crianças. Esta perturbação pode verificar-se em crianças a partir dos 9 meses e estender-se à adolescência ou até mesmo à idade adulta, no entanto, é entre os 5 e os 9 anos que se observa maior incidência.

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Bullying e Cyberbullying

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O bullying é um fenómeno infelizmente muito presente nos nossos dias, tipicamente em contexto escolar, mas não só. Com o advento das tecnologias e das novas formas de comunicação, o bullying saiu do recreio das escolas e entrou em casa de muitas crianças e adolescentes, através das redes sociais e do telemóvel.

O bullying caracteriza-se por comportamentos físicos abusivos (empurrões, murros, palmadas, pontapés…), agressões verbais (insultos, humilhação, ridicularização…), violência emocional (intimidação, exclusão social…) e pelo cyberbullying (envio e partilha de mensagens ou imagens ofensivas através de correio eletrónico, redes sociais ou telefone). Estes comportamentos de agressão, qualquer que seja a sua forma, são habitualmente repetidos, podendo manter-se por algumas semanas ou prolongar-se no tempo por meses ou até mesmo anos. As crianças ou adolescentes vítimas de bullying têm habitualmente muita dificuldade em expor os seus medos e em se defenderem, tornando-se assim alvos mais fáceis dos seus agressores, que perante a falta de reação das suas vítimas, vêm reforçado o seu comportamento disruptivo.

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Um Natal diferente…

Chegados a Dezembro deste atípico ano de 2020, aproxima-se uma quadra natalícia igualmente atípica e certamente repleta de emoções. A primavera “despertou” com a chegada de um vírus que nos virou do avesso. O verão foi vivido pela maioria de nós, a medo e o Natal avizinha-se para muitos, como mais um desafio a enfrentar.

Cada pessoa, à sua maneira, se adaptou à situação pandémica em que vivemos. Uns com menor dificuldade, por questões que se prendem com o temperamento, a existência de bons recursos internos, o apoio familiar e/ou social, a boa saúde física e mental, as razoáveis condições de habitabilidade, etc. Outros com maiores dificuldades e a verem no seu dia-a-dia, os problemas a chegarem sem os conseguirem controlar e resolver, acrescentando à dramática situação de saúde pública, a sua saúde física, psicológica e emocional debilitadas. Será certamente menos penoso vivenciar esta época, se tivermos maior flexibilidade psicológica e de adaptação à adversidade e se soubermos utilizar estratégias adaptativas para lidar com a ansiedade e o medo, com a incerteza e com todas as limitações que nos têm vindo a ser impostas.

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Família

A família é habitualmente pensada como o contexto onde nascemos, vivemos e morremos, sendo que durante o ciclo de vida, a família se vai alterando. A família de origem, tal como o nome indica, dá origem ao indivíduo e a laços familiares, que embora se mantenham para sempre, assumem diferentes papéis no decorrer do ciclo de vida.

A família constitui-se como o espaço privilegiado de aprendizagens e de desenvolvimento, através das interações entre os diferentes membros. É em contexto familiar que acontece a primeira vivência dos afetos, o desenvolvimento da comunicação (verbal e não-verbal) e as primeiras experiencias de “exploração do mundo”. É através das interações familiares, numa cadência alternada de emoções positivas com emoções negativas, que o indivíduo desenvolve o seu sentimento de pertença e filiação. A família, enquanto grupo social e institucional relativamente estável, representa a base da vida social. Cada família é constituída por um conjunto de elementos únicos ligados por um conjunto de relações particulares e que se mantém em contínua interação com o exterior.

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Entender as birras

A birra é a expressão de uma variedade de sentimentos, pelo que, para a compreender, é necessário entender a sua relação com esses mesmos sentimentos, com o temperamento individual e com as características globais do ser humano, designadamente as etapas do desenvolvimento (Cordeiro, 2011).

A idade típica para o aparecimento das birras, com maior ou menor intensidade, é aos 18 meses, no entanto, pelas suas características individuais, algumas crianças manifestam-nas mais cedo. Por outro lado, por volta dos 4 anos, estas tendem a cessar. Fazer birras é transversal aos dois géneros, sendo que meninos e meninas, especialmente entre os dois e os três anos, tendem a expressar-se dessa forma. As birras coincidem com a fase do desenvolvimento em que a criança adquire mais autonomia e procura dominar o meio que a envolve. É habitualmente um período em que a criança não possui ainda mecanismos internos para lidar com a frustração e com as contrariedades, em que a sua linguagem verbal é ainda limitada e não tem ainda capacidade para entender o conceito de futuro de modo a conseguir adiar a satisfação das suas vontades. As crianças com mais de 3 anos podem recorrer às birras para chamar a atenção dos adultos e satisfazerem os seus desejos através da manipulação.

As birras, ocorrências emocionais normalmente breves mas intensas, caracterizam-se por choro, gritos, rigidez corporal, pontapés, espernear no chão e por vezes bater com a cabeça, podendo ainda incluir o fugir, atirar objetos, bater nos outros, morder, provocar o próprio vómito ou suster a respiração. Por serem normativas de uma determinada fase do desenvolvimento infantil, as birras, embora desagradáveis e frustrantes, não são motivo de alarme. Devem ser entendidas como uma forma de expressão emocional de um cérebro ainda imaturo. Com o passar do tempo, a criança adquire uma capacidade mais elaborada de compreensão e o comportamento de birra tende a diminuir.

Segundo alguns autores, as birras e os comportamentos de oposição têm um papel fundamental na distinção e afirmação do “Eu” em relação aos outros, na estimulação da autonomia e no desenvolvimento da identidade, caracterizando assim um desenvolvimento psicoafectivo normal (Rooney, Kouwenhoven & Hannan, 2008; Ramalho, 2006, Cordeiro, 2011). Porém, mesmo entendido como normativo, o comportamento de birra pode ser altamente disfuncional e perturbador, quer para a criança, quer para os adultos que a acompanham. Assim, segue-se um conjunto de estratégias importantes no controlo desse comportamento, quer pelo evitamento do mesmo, quer pela forma como se pode lidar com a criança, perante uma situação de birra.

Uma das estratégias mais eficazes no controlo de uma birra é a distração. A criança, emocionalmente desregulada, não conseguirá ouvir devidamente o adulto nem compreender as suas razões. Também ralhar ou reforçar a criança nesse momento, parece não ser adequado, pois ela não irá ter capacidade de atenção. Assim, uma vez iniciada uma birra, o melhor será atuar logo no início, mesmo antes da criança perder totalmente o controlo, desviando a sua atenção, levando-a para outro local, contendo-a em caso de ela bater ou se poder magoar, ignorando-a nalguns casos em que não corra perigo ou utilizando o efeito de surpresa, mudando repentinamente o seu foco de atenção. O adulto deverá ser capaz de se manter calmo e não responder emocionalmente, ainda que isso possa ser difícil e constitua um complicado exercício de autodomínio.

Durante uma birra, em que a criança extravasa as suas emoções de forma muito expressiva, pode tornar-se necessário conte-la, não propriamente com a intenção de expressar afetividade mas sim para evitar que ela se magoe. Esta contenção pode incluir ainda a retirada da criança do local onde se encontra, para outro local livre dos olhares alheios e dos comentários desajustados. É necessário acalmar a criança antes de qualquer tipo de explicação ou racionalização. Para isso, esperar algum tempo para que ela se autorregule, pode ser necessário. O facto de ter entrado em birra não faz com que a criança perca totalmente a razão. O adulto deverá ter a capacidade de avaliar a situação e dar razão à criança, naquilo que for efetivamente razoável.

Por outro lado, o adulto não deverá nunca ceder a uma birra. Isso estaria a reforçar um comportamento que não se quer ver repetido. Por mais que por vezes ceder possa ser tentador, a criança precisa de entender que o seu comportamento, a sua desorganização emocional e a sua falta de autocontrolo não são uma forma de resolver os problemas. No final de uma birra, esta deverá ser desvalorizada e a criança deverá ser integrada numa atividade. A criança “recupera” mais facilmente de uma situação de birra, quanto menos importância dermos ao comportamento. Uma boa estratégia para evitar as birras consiste em avisar a criança, com alguma antecedência, do que vai acontecer, principalmente se isso foge à rotina. A previsibilidade de algo ajuda a criança a preparar-se para tal. Outra estratégia é dar as ordens de modo carinhoso e assertivo, uma vez que, tal como os adultos, as crianças também não recebem bem os tons de voz agressivos e bruscos. Não nos devemos esquecer que as crianças são seres com sentimentos e que não devemos retirar importância aos seus pensamentos e às suas atividades.

O isolamento forçado

Em tempos de pandemia, situação que já não vai sendo nova e com os números de infetados a aumentar, podemo-nos ver a qualquer momento obrigados a entrar em isolamento, quer por apresentarmos sintomatologia suspeita de Covid-19, quer por termos tido conhecimento de ter havido contacto próximo com alguém infetado.

No sentido de ajudar as pessoas que se possam encontrar nesta situação, deixo aqui algumas dicas, que podem ser úteis, quer a nível da manutenção da nossa saúde física, quer para a preservação da nossa saúde mental. Assim, torna-se necessário dar atenção á alimentação. Uma alimentação equilibrada é sempre recomendável em todas as fases da vida. Numa situação de recolhimento, em que a atividade física e as rotinas habituais inevitavelmente se veem alteradas, a alimentação assume um papel ainda mais importante. Privilegie os alimentos naturais, frutas e legumes, que pelo facto de serem ricos em fibras, minerais, antioxidantes e vitaminas, vão certamente contribuir para o bom funcionamento do seu corpo e para uma mais rápida recuperação, no caso de estar doente.

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Perturbação de pesadelos

O espectro de perturbações do foro mental é vasto e diversificado. As perturbações do sono, para além de terem grande prevalência na população, transversal a todas as faixas etárias, tem implicações sérias ao nível das funções cognitivas, assim como na funcionalidade global do indivíduo.

De entre as várias tipologias de perturbações do sono, a perturbação de pesadelos é relativamente frequente e aumenta desde a infância até à adolescência. Em termos de prevalência, cerca de 1,3 a 3,9% dos pais relatam que os seus filhos em idade pré-escolar, têm frequentemente pesadelos (Manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais – DSM-V). A predominância desta perturbação aumenta por norma entre os 10 e aos 13 anos, em ambos os géneros, continuando tendencialmente a aumentar, entre os 20 e os 29 anos, principalmente no género feminino, enquanto, para o género masculino, a tendência é inversa. Nos adultos, a prevalência de pesadelos no mínimo mensais é de cerca de 6% e dos pesadelos frequentes é de aproximadamente 1 a 2 %. Estes pesadelos combinam indiscriminadamente as causas pós-traumáticas com pesadelos sem causa direta.

Em termos de características distintivas dos pesadelos em relação a outros sonhos, estes são tipicamente longos, elaborados, com uma sequência de imagens sonhadas do tipo história, que parecem reais e que provocam ansiedade, medo ou outras emoções perturbadoras. Os conteúdos dos pesadelos evocam habitualmente tentativas de evitamento ou de enfrentamento de perigos eminentes. No entanto, podem ocorrer pesadelos que evocam outros temas causadores de outras emoções negativas ou pesadelos que ocorrem após acontecimentos altamente stressantes ou traumáticos, podendo replicar a situação de ameaça.

Ao despertar, os pesadelos conseguem ser habitualmente recordados com facilidade e descritos em pormenor. Os pesadelos, por norma, terminam quando o indivíduo acorda, porém, as emoções por ele provocadas podem persistir e dificultar o retomar do sono, assim como causar um mal-estar diurno duradouro. Alguns pesadelos podem não induzir o acordar e serem recordados pelo indivíduo, apenas mais tarde.

Pode dizer-se que um indivíduo sofre de uma perturbação de pesadelos quando estes sonhos ocorrem repetidamente, são prolongados, são altamente perturbadores e envolvem, de um modo geral, esforços para evitar ameaças à sobrevivência, à segurança ou à integridade física do indivíduo ou outros. Outro critério de diagnóstico para esta perturbação é o facto de esta causar no indivíduo uma sensação de mal-estar clinicamente significativo, ou seja, que implique uma disfunção social, ocupacional ou que tenha impacto negativo noutra área do funcionamento individual. É ainda fator de diagnóstico o facto de o pesadelo não ser explicado por outras causas fisiológicas, como por exemplo o consumo de substâncias psicoativas ou outra condição médica coexistente.

No que diz respeito aos fatores de risco para o desenvolvimento de uma perturbação de pesadelos, podemos incluir os fatores temperamentais, ou seja, relacionados com a presença de uma perturbação da personalidade ou de um diagnóstico de doença mental. Destacam-se os fatores ambientais, como a privação ou a fragmentação do sono em horários irregulares de sono-vigília, que alteram o tempo e a qualidade do sono. Parece haver também evidencia para a influência de fatores genéticos na disposição parta os pesadelos.  Como fator de proteção para esta perturbação é de referir o comportamento parental adequado, ou seja, acalmar a criança à cabeceira quando esta acorda perturbada pode protege-la de desenvolver pesadelos crónicos.

Os pesadelos, de modo geral, causam mais um mal-estar significativo do que propriamente disfuncionalidade social ou ocupacional. Contudo, se os pesadelos forem muito frequentes ou levarem ao evitamento do sono, os indivíduos podem experienciar uma sonolência diurna excessiva, dificuldades de atenção e concentração, irritabilidade, ansiedade ou sintomatologia depressiva. A prática de bons hábitos de higiene do sono pode ter um impacto muito positivo na diminuição dos pesadelos, no entanto, pode não ser suficiente. Uma vez que os sonhos espelham frequentemente preocupações e angustias do indivíduo, a intervenção psicológica pode ter um papel muito importante nesta problemática. Procure ajuda, consulte a Sua Psicóloga!

Fonte: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – Quinta Edição (DSM-V). American Psychiatric Association.