O difícil confronto

Alberto entrou na sala devagar. Fechou distraidamente a porta e com passos pesados e lentos dirigiu-se a ela. Mariana, a esposa, estava sentada com um jornal que não conseguia ler, pois os seus pensamentos vagueavam. Estava nervosa, e ao ouvir a porta fechar-se sentiu um baque no peito. As mãos frias estavam húmidas e a sua face de pele branca e fina ruboresceu. Ele dirigiu-se a ela e apenas perguntou: “O que é o jantar?”

Há já algum tempo que Mariana se questionava sobre o que se passaria. Os felizes 40 anos de vida em comum com Alberto permitiam-lhe conhecê-lo como achava que não se conhecia a si mesma. No entanto, as últimas semanas ou talvez meses tinham-lhe trazido uma angústia difícil de explicar. Alguns comportamentos do marido deixavam-na desconcertada. O seu olhar vazio começava a perturba-la, e aos poucos ia-o sentindo distante e inacessível. Questionou-o, e ele apenas lhe disse algo como “não se passa nada, está tudo bem”, porém ela sentia que alguma coisa tinha mudado. Alberto saía vezes sem conta dizendo que ia “apanhar ar”. Por vezes voltava ao fim de várias horas, com um olhar tão perdido como os pensamentos que pairavam, sobre a cabeça de Mariana.

Há cerca de 2 meses, Alberto procurou o médico. Falou-lhe das suas preocupações e dúvidas e o clínico avaliou-o. Prescreveu-lhe exames, que ele fez de imediato, e, quando voltou à consulta, achando que a falta de estímulos e de ocupação decorrentes da sua recente situação de reforma, poderiam estar na origem do seu mal-estar, equacionando até poder estar deprimido, foi surpreendido com um diagnóstico que não esperava. Saíu do consultório confuso, triste e assustado. Não lhe ocorreu fazer ao médico nenhuma pergunta. Ouviu tudo o que este lhe disse, ou quase tudo, e com esforço tentou assimilar o máximo de informação. O choque tinha-se apoderado de si mas ecoavam-lhe na cabeça as palavras do clínico: “Sr. Alberto, lamento dizer-lhe mas a sua situação vai piorar, temos que tomar medidas”. Foi para casa, dizendo a Mariana quando esta o questionou acerca da sua saída, que tinha ido apenas espairecer. Saber que dentro de algum tempo já não a reconheceria e que as memórias das suas vidas felizes se estavam a dissipar, deixou-o sem ânimo, sem forças e sem coragem para lhe contar.

Dia após dia, Alberto foi-se fechando em si. Conseguiu esconder de Mariana o que se estava a passar mas sentia-se cada vez mais atormentado. Sofria em silencio os momentos de clara lucidez, e os outros, mais enevoados e difusos e que até então eram esparsos, ia conseguindo driblar com algum engenho, pensando que a estava a enganar e adiando o momento em que teria de a confrontar com a difícil situação. Não a queria fazer sofrer. Naquele dia, Mariana esperava-o para jantar, na dolorosa certeza de que aquele era o momento. A penosa conversa que se seguiria fê-la tremer e cambalear quando se levantou da cadeira e se dirigiu a ele. Tinha que o confrontar com o telefonema que tinha recebido de um consultório do qual nunca tinha ouvido falar. A secretária do médico apenas pretendia informar que a consulta do Sr. Alberto teria que ser adiada dois dias, mas Mariana, com o seu jeito meigo e curioso, conseguiu ouvir o que não esperava e sentir o que jamais imaginaria sentir quando atendeu o telemóvel que Alberto havia esquecido no quarto, antes de sair. A conversa do casal foi dura, os sentimentos sombrios, mas Mariana, abraçou-o demoradamente e tal como em alguns outros momentos da sua longa vida em comum, conseguiu acalmar o turbilhão de emoções confusas que pairavam na cabeça de Alberto. E foram jantar.

Previna a demência e estimule o seu cérebro. A leitura é um bom exercício, mas também o cálculo e os jogos de palavras. Ocupe a sua mente com atividades de estimulação cognitiva de forma a preservar o seu desempenho, a facilitar a realização das suas atividades do dia-a-dia, a gerir a sua saúde e a potenciar a sua qualidade de vida!

Demências: Alzheimer

A demência pode definir-se como a perda de funções mnésicas, deterioração do nível de funcionamento adaptativo e pela presença de, pelo menos, um outro sinal de um défice cognitivo major. As mudanças características da demência ocorrem a nível cognitivo, funcional e comportamental.

A origem da demência pode ser de causas múltiplas e diversificadas, podendo estar relacionada com doenças psiquiátricas (ex. depressão, esquizofrenia), com intoxicações causadas por químicos ou metais, com doenças inflamatórias dos vasos sanguíneos, como lesões cerebrais (ex. tumores, esclerose múltipla) ou ainda com défices vitamínicos (ex. vitamina B12 ou ácido fólico). Podemos distinguir dois tipos de demências: as subcorticais e as corticais. As demências subcorticais estão associados a disfunções da estrutura da matéria cinzenta subcortical e das projeções do lobo frontal. Estas afetam entre outros, os processos cognitivos (lentificação), revelando-se por défices ao nível da atenção e da memória, com dificuldade na recordação de informação aprendida, apesar da preservação do reconhecimento. As funções executivas ficam afetadas desde a fase inicial, existindo dificuldade na resolução de problemas, diminuição da fluência da linguagem, humor depressivo, apatia, falta de energia e défices ao nível do sistema motor (ex. tremores, alteração da postura, da marcha e da coordenação). Duas perturbações representativas deste tipo de demência são a doença de Pakinson e a doença de Huntigton.

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Velhos ou envelhecidos?

O envelhecimento é um processo inexorável que ocorre desde o nascimento até à morte e que pressupõe um conjunto de transformações do organismo, tanto a nível fisiológico como psicológico. Consiste na diminuição progressiva das funções cognitivas, físicas e motoras. A velhice por sua vez, não tem apenas a ver com os efeitos da passagem do tempo no organismo, mas também com a forma como o indivíduo se vai adaptando psicologicamente às transformações inerentes à passagem dos anos.

Parece consensual que distinguir envelhecimento de velhice faz muito sentido. Pode parecer um “lugar-comum” dizer que há velhos de 40 anos e jovens de 80, mas de facto a forma como o indivíduo enfrenta as dificuldades, resolve os problemas, escolhe estratégias que lhe permitem viver melhor e sobretudo, a forma como se relaciona com os outros e como mundo, leva-me a considerar que não é apenas a idade cronológica, as rugas e outras alterações do aspecto físico do indivíduo, que determinam o que é ser um velho. Ser velho, correlaciona-se fortemente com a perda de capacidades que permitam ao individuo manter-se auto suficiente, quer a nível físico como mental, mas também com a perda da capacidade de sonhar e de projetar o futuro.

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Tricotar, relaxar e não só!

Tricot e psicologia

Tricotar ou a arte de entrelaçar os fios é uma atividade antiga mas que mantém muitos adeptos ainda nos dias de hoje. Útil para fazer roupas e acessórios, por vezes utilizado como passatempo, o tricot pode ter um importante efeito terapêutico, relaxante e não só.

O tricot é uma arte inicialmente desenvolvida por mulheres mas nos dias de hoje, parece ocupar já um espaço considerável na vida de muitos homens. A par da utilidade dos trabalhos tricotados que vão desde cachecóis, gorros, meias, camisolas, casacos ou mantas, entre outros, o tricot tem um efeito muito positivo naqueles que o escolhem como passatempo. Os seus efeitos terapêuticos, bem como de outras técnicas de fazer malha, são diversos e muito eficazes. Por um lado tricotar relaxa, potencia a meditação e descontrai, podendo ajudar a aliviar a tensão acumulada ao longo do dia. Por outro lado, tricotar ajuda a desenvolver as habilidades motoras e promove a capacidade de concentração e de atenção. A criatividade é outra competência que pode ser desenvolvida através do tricot. Planear, desenhar a peça, executar e alterar, são formas importantes de colocar a criatividade em movimento e a cabeça a pensar. O tempo do tricot pode ser um tempo de introspeção, de análise pessoal e de reflexão, potenciando a tomada de decisões ou a resolução de problemas. Continue a ler “Tricotar, relaxar e não só!”