A enurese é uma disfunção que se manifesta pela perda involuntária de urina, diurna ou noturna, não normativa em relação à idade da criança e que não surge como consequência de falta de controlo da bexiga por doença neurológica, anomalia do trato urinário ou convulsão epilética, por exemplo.
A enurese noturna corresponde a perdas de urina durante o sono. Apesar de ser um problema comum, tem um forte impacto no dia-a-dia da criança e da sua família, constituindo-se como uma enorme fonte de stresse. O controlo dos esfíncteres corresponde a uma tarefa do desenvolvimento da criança, que decorre naturalmente mas que pode ser facilitada por atitudes educacionais. O contexto relacional e cultural onde decorre este processo, nomeadamente no que se refere ao ensino da higiene e às diferentes fases de aprendizagem e treino dos hábitos de higiene, é de extrema importância. A enurese pode ser primária, se a criança nunca chegou a adquirir o controlo da urina durante a noite ou secundária quando se observou um período de pelo menos seis meses de continência. A prevalência da enurese primária varia com a idade, sendo mais comum nos meninos (cerca de 9%) aos sete anos de idade, do que nas meninas (cerca de 6%) na mesma idade. Sendo o controlo dos esfíncteres um processo complexo, que envolve a ação coordenada de músculos, nervos, espinal medula e cérebro, pode resultar de vários fatores. Parece ser mais frequente em crianças que urinam mais vezes durante o dia, apresentam disfunção da bexiga ou têm dificuldades de sono (sono muito profundo e dificuldade em despertar). Ainda em termos de causas, parece existir também alguma predisposição genética.
Perante um caso de enurese, o primeiro passo é contactar o pediatra para o despiste de algum problema fisiológico (ex. renal) ou causa orgânica (ex. infeção urinária). Em termos de tratamento, habitualmente este só se aplica em casos de crianças com mais de seis anos de idade. A abordagem ao tratamento da enurese pode ser medicamentosa ou comportamental. A abordagem comportamental envolve estratégias de reforço, treino de retenção urinária ou pela utilização de sistemas de condicionamento com reforço positivo.

Os pais e cuidadores têm a grande responsabilidade de ajudar a criança a ultrapassar a situação de enurese ao invés de a transformarem numa experiência traumatizante, o que pode ser fácil, não por má intenção mas por desconhecimento das características do problema. Para ajudar a criança a lidar com a enurese, os pais deverão normalizar a situação, explicando à criança que não está sozinha e que há muitas crianças da sua idade, que também passam pelo mesmo problema e que conseguem ultrapassá-lo. Outra estratégia passa por limitar a ingestão de líquidos a partir do final da tarde. Deverá também ser estabelecida uma rotina de sono, com horários regulares e que contemple uma ida à casa de banho, mesmo antes de ir para a cama. Se os pais sentirem dificuldade em lidar com o problema e com o impacto deste na sua vida e na sua família, devem recorrer à ajuda profissional de um psicólogo.

Na consulta de psicologia, deverá ser feita a avaliação do impacto emocional da enurese na criança e na família, bem como devem ser identificadas algumas situações que possam ser responsáveis pela perturbação do equilíbrio emocional e psicológico da criança, como por exemplo a perda de um familiar, o nascimento de um irmão, algum tipo de abuso ou uma dificuldade de adaptação à escola. De acordo com a criança em questão e com a familia, será selecionada a estratégia a implementar. E como cada caso é uma caso e cada criança tem as suas particularidades, quando um método não for eficaz, haverão outros métodos a serem implementados até ao sucesso da intervenção.
É de extrema importância que os pais ou cuidadores não punam nem culpem a criança por urinar a cama. Esse comportamento por parte dos adultos, não só irá contribuir para a baixa da autoestima da criança, desenvolvimento do sentimento de vergonha, aumento da ansiedade e possíveis dificuldades de socialização e decréscimo do rendimento escolar, assim como dificulta o processo de tratamento. Pelo contrário, a criança deverá ser reforçada a cada sucesso que alcança. Este problema também constitui um grande desafio para os pais, não sendo fácil lidar com a enurese. Dependendo dos casos, alguns adultos podem, em consequência desta perturbação dos filhos, desenvolver problemas de sono, ansiedade, aumento da tensão emocional, agressividade e stresse familiar.
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Sugestão:
Barros, L. (2004). Perturbações da eliminação na criança e no adolescente: da prevenção ao controlo. Lisboa: Climepsi.

O luto éuma reação à perda de um ente querido ou de algo mais abstrato em seu lugar, como por exemplo, o trabalho, um relacionamento, a pátria ou até mesmo uma ideologia.
No conforto orientado para a perda o enlutado disponibiliza-se para elaborar a perda, vivenciar a dor, a ausência, os medos, traduzindo-se numa abertura para trabalhar estes aspetos. O confronto orientado para o restabelecimento diz respeito ao investimento na vida e na realidade que o rodeia, traduzindo-se na reorganização da vida. Este processo dinâmico é fundamental para uma adaptação satisfatória, funcionando como um mecanismo regulatório que integra e organiza internamente, quer o confronto orientado para a perda, quer o confronto orientado para o restabelecimento.
Considerar em simultâneo as duas dimensões é muito difícil, mas como é necessário atender a ambas, a oscilação é um processo indispensável e, muito possivelmente, um dos melhores informativos do desenvolvimento da experiência do luto. O valor que os autores atribuem ao processo de oscilação, tratando-se de um processo de ‘coping’ (lidar com), que regula os esforços de adaptação do indivíduo, em paralelo com a proposta de que um ‘coping’ adaptativo seria constituído tanto por stressores de perda como de restabelecimento, que se traduz numa oscilação enquanto indicador do processo.
A tomada de decisão por parte do enlutado, está sempre presente na medida em que pode optar pela atenção dada ao stresse gerado pela perda ou pela supressão da dor e centrar-se na adaptação a uma realidade externa alterada. Partindo deste modelo, o psicoterapeuta assume o papel de facilitador, sensibilizando os seus clientes na tomada de decisão inerente a este processo ativo, ajudando-os a discriminar as implicações que advêm de cada uma das suas decisões, que podem ser tomadas de uma forma consciente ou inconsciente.
Assim, as intervenções com pessoas enlutadas devem ser principalmente dirigidas para pacientes com riscos sociodemográficos e circunstanciais, sejam elas pessoas sem apoio familiar, social e financeiro, que vivam sós ou cujo luto seja consequência de mortes violentas, traumáticas ou em massa. Parece também relevante dar especial atenção a situações de mães e esposas, sobretudo se a relação com o falecido tiver características de dependência. Indivíduos que apresentem ideação suicida devem ser considerados prioridade, assim como os que manifestaram transtornos psiquiátricos prévios à perda. Sujeitos que tenham sido vítimas de abuso ou negligência parental na infância podem igualmente obter grandes benefícios com a psicoterapia.
A Psicologia da Saúde surgiu na década de 70 do Séc. XX nos EUA e teve como principal intuito estudar a natureza e a extensão da contribuição dos Psicólogos para a investigação básica e aplicada sobre os aspetos comportamentais nas doenças físicas e na manutenção da saúde (Ribeiro, J., 2007, p.33).
Outro aspeto importante da intervenção do psicólogo da saúde é a intervenção facilitadora à adesão e resposta do doente a terapêuticas médicas variadas, como a medicação, a cirurgia e meios complementares de diagnóstico, por exemplo. Este profissional de saúde tem também competências para trabalhar na problemática da comunicação interpessoal, desenvolvendo no indivíduo competências relacionais, técnicas de mediação e gestão de conflito, gestão do stress, entre outras. Pretende-se ainda que o psicólogo da saúde possa num futuro breve vir a integrar projetos de humanização dos serviços, acesso e atendimento, bem como em projetos de melhoria da qualidade nos cuidados de saúde e nas organizações.
E o que pode então fazer um psicólogo da saúde numa empresa ou organização? O psicólogo da saúde pode implementar na empresa algumas intervenções práticas a realizar no âmbito dos programas de ajuda em contexto organizacional. Pode trabalhar na promoção da atividade física de modo a prevenir os efeitos nefastos do sedentarismo, como o caso da obesidade e de problemas motores entre outros. Pode dedicar-se ao ensino e treino de técnicas de relaxamento a serem utilizadas em momentos de maior sobrecarga de stresse ou de trabalho, com vista a um melhor bem-estar físico e psicológico dos colaboradores. Pode trabalhar na promoção da comunicação e partilha de experiências entre hierarquias em contexto informal, com vista a aprendizagens e partilha de experiências, assim como o convívio e a prática de atividades conjuntas de modo a proporcionar uma maior proximidade, conhecimento e facilitar a comunicação e as relações pessoais/sociais.
O psicólogo da saúde pode também promoverr na empresa práticas de alimentação saudável, em parceria com os responsáveis pela cantina da empresa e com um nutricionista, com o objetivo de corrigir maus hábitos alimentares e evitar problemas cardiovasculares e excesso de peso, entre outros, com forte influência na autoestima do individuo e consequentemente no seu bem-estar físico e emocional. A implementação de programas de cessação tabágica ou de outros consumos excessivos identificados, poderá ser uma proposta de intervenção, assim como a realização de ações de incentivo à adesão aos tratamentos, nos trabalhadores com doença crónica diagnosticada, identificando as consequências da não adesão para o seu bem-estar e que afetam diretamente a sua vida profissional.
Neste contexto torna-se necessária a avaliação das crenças dos trabalhadores com doença crónica, em relação à evolução da mesma e trabalhar no sentido de aumentar a sua adaptação à doença e às possíveis limitações inerentes a esta que possam interferir com o desempenho na organização e com o seu bem-estar geral. Outro ponto de extrema importância a poder ser trabalhado com os colaboradores da empresa, é a promoção de ações de formação sobre hábitos saudáveis de sono. Os distúrbios do sono têm consequências adversas no dia-a-dia dos indivíduos por diminuir o seu funcionamento aumentar a propensão a distúrbios psiquiátricos, défices cognitivos, surgimento e agravamento de problemas de saúde, riscos de acidentes de trabalho e de trânsito e consequentemente absentismo no trabalho, comprometendo assim também a sua qualidade de vida.
E como comunicar de forma eficaz é meio caminho andado para o entendimento, a promoção de treinos de comunicação assertiva no sentido de facilitar a mediação e a gestão de conflitos decorrentes dos problemas inerentes às atividades profissionais, e de dar competências a empregados e empregadores para uma melhor comunicação e relação. é outro dos pontos relevantes que podem ser melhorados, com a intervenção do psicólogo. Do mesmo modo, a promoção de programas de incentivo à crítica construtiva, de modo a aumentar o sentimento de autoeficácia e aumento da autoestima, são pertinentes e necessários. Promover a ‘política do elogio’ com vista a aumentar a satisfação do indivíduo, que se vai refletir na continuação de boas práticas e numa maior abertura à mudança, pode fazer a diferença. Por fim, este profissional de saúde poderá ainda organizar palestras/comunicações com especialistas em várias doenças que são diretamente afetadas pelo stresse excessivo, como é o caso das doenças cardiovasculares, digestivas, diabetes, etc. de modo a informar, esclarecer dúvidas e aconselhar práticas mais saudáveis adequadas a cada patologia.
Assim, um psicólogo da saúde em contexto organizacional, muito poderá fazer em termos de intervenção psicológica, no que diz respeito não só à promoção da saúde e prevenção da doença, mas também no sentido de minimizar os efeitos decorrentes da falta de informação, de motivação e de comunicação. Fomentar relações saudáveis, hábitos de vida saudáveis e promover um contexto de trabalho orientado para a saúde física e emocional dos colaboradores, poderá prevenir o absentismo, promover a satisfação pessoal e a melhoria do desempenho, que se irá decerto refletir no aumento do rendimento da própria organização.
O principal interesse da Psicologia pelas doenças é o modo como as reações de ansiedade e/ou depressão que acompanham muitos dos processos de doença fisiológica, interferem com as ações de tratamento. As emoções desadaptativas ou patológicas do doente, podem manifestar-se nas reações ao diagnóstico e/ou ao tratamento, influenciando a progressão da doença, qualquer que seja o seu tipo.
A doença física constitui-se como um terreno fértil para a expressão de emoções desadaptativas. A depressão está muitas vezes associada à doença crónica. As reações depressivas tendem a manifestar-se mais tarde, em comparação com as reações de ansiedade e posteriormente, ambas podem ocorrer de forma alternada ou em simultâneo. O processo depressivo pode ser anterior à doença física e pode constituir-se como determinante direto ou indireto da mesma (ex. alterações imunológicas e/ou fisiológicas, negligência pessoal etc.). O processo depressivo posterior à doença física pode apresentar-se como sintoma da doença ou como consequência do seu tratamento (ex. efeitos da medicação, baixa da autoestima, possível perda de capacidades ou de papéis sociais, isolamento, etc.).
É difícil saber se é a depressão que contribui mais para o aparecimento e evolução da doença física ou se é esta que contribui para o desenvolvimento da depressão. Isto leva à necessidade de que médicos e psicólogos trabalhem em equipa, no sentido de chegarem ao diagnóstico, quer seja de doença física com sintomatologia depressiva quer seja de depressão com sintomatologia somática. Caso contrário, o médico pode diminuir a sintomatologia do processo depressivo, considerando-o normal e inerente ao processo de doença, ficando o doente sem acesso ao tratamento psicológico, ou, o psicólogo poderá considerar que as reações somáticas do doente fazem parte do processo depressivo, e o doente ficar sem os cuidados médicos de que pode necessitar. Considerar que doença física e depressão se determinam mutuamente poderá permitir que médico e psicólogo formem uma equipa e que trabalhando em conjunto possam dar uma resposta mais adequada ao doente.
O stesse, estado reativo do organismo face a situações inesperadas ou de ameaça e hoje em dia também visto como uma resposta de ajustamento do organismo, contingencial a essas situações, é o processo ansiogénio mais comum, tendo sido transformado em sinónimo de todo e qualquer tipo de ansiedade geral ou específica. Sendo o stresse um conceito de grande operacionalidade em psicologia da doença, a intervenção clínica é quase sempre dirigida à sua redução para limites aceitáveis, por diversas razões. Uma delas é o facto de o stresse poder causar doença por interferir no sistema imunitário. Por outro lado, pode estar também associado a hábitos que causam a doença (ex. tabagismo). O stresse pode escalar facilmente para processos ansiogénios mais graves, podendo interferir com a capacidade do indivíduo reagir tanto a um diagnóstico de doença, como à adesão ao tratamento proposto.
A depressão e a ansiedade têm sido estudadas na sua relação com o mesmo tipo de doenças, o que não significa que sejam abordadas da mesma forma. As reações depressivas tendem a ser consideradas na sua polaridade mais grave (depressão major) e o stresse é mais representativo das reações ansiogénias. Dada a semelhança entre sintomas reais e somatizações, como saber se é a depressão ou o stresse que provocam e/ou agravam os sintomas ou se é a doença, na sua dimensão orgânica que os provoca e/ou agrava? A maior dificuldade do psicólogo para determinar se as emoções excessivas contribuem para o agravamento da condição do paciente advêm de questões metodológicas, que incluem a avaliação da gravidade da doença e a avaliação da gravidade da emocionalidade negativa que a acompanha. Embora esta questão possa parecer circular, ela constitui uma limitação para a intervenção. Uma vez mais se destaca a grande importância do trabalho de equipa ,em psicologia da saúde. Não basta tratar a doença, é fundamental tratar o doente.
A psicologia do desenvolvimento e gestão de carreira no contexto das organizações tem como foco o estudo da relação entre o individuo e a organização onde trabalha, no sentido de sustentar o desenvolvimento das pessoas, encontrar respostas às necessidades das organizações e procurar um compromisso entre a estratégia organizacional e as aspirações de cada trabalhador.
No passado não eram valorizados nem a motivação nem o auto-desenvolvimento do trabalhador. Atualmente parece haver a responsabilidade do empregado aprender a gerir a sua carreira, e da empresa, em promover programas de desenvolvimento de carreira, visando a sobrevivência e satisfação de ambos, ou seja, passou a haver uma responsabilidade partilhada. Promove-se também hoje em dia, a construção de uma teia de relações e responsabilidade crescente, que se tem vindo a estabelecer entre o individuo em busca de percursos de desenvolvimento de satisfação pessoal e a organização, que reúne as condições necessárias para mobilizar essa procura.
O mundo do trabalho modelou o conceito de carreira na medida em que após a revolução industrial e das mudanças socioeconómicas daí decorrentes, as profissões diversificaram-se e foi necessário ajudar as pessoas e encontrarem o emprego certo. Anteriormente o modelo vigente era centrado exclusivamente nos objetivos da organização e era orientado para a determinação de regras rígidas voltadas para a realização de tarefas e a incrementação do rendimento, ignorando as relações sociais e as necessidades das pessoas, sendo o conceito de carreira baseado somente na progressão hierárquica.
A importância crescente do indivíduo decorre da importância estratégica da gestão dos recursos humanos. São vários os elementos para promoção de sistemas de desenvolvimento e gestão de carreiras flexíveis que promovam satisfação e sucesso para o colaborador e para a organização, nomeadamente a criação e desenvolvimento de mecanismos de detenção de informação, o reconhecimento, a integração dos colaboradores na cultura da organização e o desenvolvimento de sistemas de recompensa pelo seu desempenho e desenvolvimento, entre outras.
A avaliação psicológica individual deverá permitir capitalizar o que de melhor o individuo tem para dar à organização ao mesmo tempo que a psicologia da construção da vida deverá promover a adequação da pessoa aos novos contextos em que o trabalho e emprego se desenvolvem. A carreira do individuo desenvolve-se através do modo como ele perceciona a realidade e a ela se adapta, sem renegar a sua personalidade e as linhas estruturantes da sua história pessoal. Os paradigmas atuais devem considerar as diferenças individuais em oposição à uniformização que conduziu nos tempos modernos, à mecanização dos comportamentos. No futuro, espera-se uma teoria psicológica que vise a promoção do sucesso e que procure a construção como fonte de satisfação. Outro desafio que se apresenta é o apoiar e escutar o individuo, bem como a organização, de forma harmoniosa, enquanto agentes ativos do constante processo de integração, neste novo mundo em que a informação está ao alcance de um clique.
Quando o seu pensamento se prende repetidamente a uma ideia ou a uma imagem e não o consegue afastar, por muito que não o queira ter e por mais absurdo que ele lhe pareça ser, e quando a esse pensamento se junta uma sensação de mal-estar, nervosismo ou ansiedade, que apenas consegue ver reduzida após efetuar determinados comportamentos ou rituais, então poderá estar perante uma Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC).
A POC é uma perturbação grave que se caracteriza por dois fenómenos: as obsessões e as compulsões. As obsessões definem-se como pensamentos, imagens ou impulsos recorrentes, intensos e persistentes e que provocam grande ansiedade e mal-estar. O sujeito pode tentar ignorar estes pensamentos com algum outro pensamento ou através de comportamentos compulsivos ou ritualizados. Definem-se como compulsões os comportamentos repetitivos geralmente executadas em resposta às obsessões, ou seja, aos pensamentos. Para além dos exemplos de compulsões já referidos, repetir palavras, números ou frases assim como organizar objetos segundo uma determinada ordem podem ilustrar comportamentos característicos da POC e que têm como finalidade a diminuição do desconforto causado pelos pensamentos obsessivos.
No entanto, muitas pessoas gostam de ser muito organizadas, de ter bons cuidados de higiene ou de se certificarem se realmente fecharam todas as janelas antes de saírem de casa, sem que por isso reúnam critérios de diagnóstico de POC. A avaliação deverá ser feita com cuidado e com recurso a instrumentos rigorosos e por um psicólogo com boas competências de avaliação psicológica, para que se possa diferenciar de forma inequívoca o normal do patológico. Apenas poderá ser considerado que o sujeito tem POC quando as obsessões ou as compulsões interferem significativamente com as suas rotinas diárias e quando as mesmas ocupam um tempo considerável do seu dia, isto é, pelo menos uma hora. Esta é uma perturbação que pode reduzir acentuadamente a funcionalidade dos indivíduos nos vários contextos em que se move, o que se vai refletir num decréscimo na sua qualidade de vida.
Embora a POC habitualmente tenha o seu início durante a adolescência ou no início da idade adulta, em alguns casos poderá começar a manifestar-se na infância, sendo a prevalência desta perturbação de cerca de 2%. A idade de início é geralmente mais precoce no género masculino (entre os 6 e os 15 anos) do que no género feminino (20 e os 29 anos), aparecendo por norma gradualmente e quase sempre de forma aguda. Na maioria dos casos observa-se um curso crónico de melhoria alternada com períodos de agravamento dos sintomas, em que muitas vezes o agudizar dos sintomas se prende com situações relacionadas com a ansiedade. A POC pode ser ligeira a grave em termos de incapacidade, podendo mesmo em casos extremos, causar incapacidade absoluta ao ponto do paciente poder ter que ser internado.
Em termos de tratamento, a intervenção baseada no modelo cognitivo-comportamental tem mostrado grande eficácia. Esta intervenção tem como objetivo ensinar o indivíduo a lidar com a ansiedade produzida pelas obsessões e a reduzir ou eliminar os rituais compulsivos. O ensino e treino de um conjunto de técnicas e estratégias estruturadas, leva a que o indivíduo aprenda a utiliza-las em situações de ansiedade e em momentos em que o mal-estar causado pelas obsessões e compulsões se torna disfuncional. A intervenção visa a mudança de comportamento através de estratégias de enfrentamento, de confronto e de exposição, inicialmente em ambiente controlado e posteriormente em contexto natural. As técnicas de relaxamento, entre outras, são também ensinadas e treinadas no sentido da redução da ansiedade. Por vezes, em casos mais graves, a medicação pode ser necessária. Os medicamentos que afetam a serotonina parecem ser os mais eficazes no tratamento desta doença, obedecendo a sua escolha a critérios médicos, de acordo com o perfil de cada doente. Porém, para uma maior eficácia, mesmo o tratamento medicamentoso beneficia, se associado ao tratamento psicológico.
Os tiques são movimentos involuntários ou vocalizações, geralmente de início súbito, breve, repetitivo, estereotipado, mas de caráter não rítmico. Frequentemente imitam um comportamento normal mas ocorrem muitas vezes fora de um contexto de atividade normal. O tique está geralmente associado a uma ânsia premonitória para realizar um movimento específico, ao mesmo tempo que se associa a uma sensação de alívio, uma vez realizado.
Os tiques podem ser simples ou complexos, conforme o número de músculos envolvidos e podem constituir 3 tipos de perturbações: a Perturbação Gilles de la Tourette (duração superior a 1 ano, existindo simultaneamente vários tiques motores e pelo menos um tique vocal), Perturbação de Tiques Motores ou Vocais Persistente/Crónica (duração superior a 1 ano, por vezes associados a défice de atenção e hiperatividade, que são sempre ou tiques motores ou tiques vocais e nunca os dois tipos em simultâneo) e a Perturbação de Tiques Transitória (tiques motores e/ou vocais com duração de pelo menos 4 semanas mas não superior a 12 meses consecutivos).
Geralmente as perturbações de tiques surgem antes dos 18 anos, sendo o mais frequente por volta dos 6 anos, podendo prolongar-se por toda a infância, adolescência ou mesmo toda a vida adulta, com fases de remissão (desde algumas semanas até mesmo vários anos), sendo a taxa de prevalência de cerca de 10% em crianças. Habitualmente os tiques desaparecem antes da adolescência, mas podem voltar em momentos de maior ansiedade e excitação. As causas apontadas para este tipo de perturbação prendem-se com alterações em determinados circuitos cerebrais e neurotransmissores (substâncias que fazem circular a informação no cérebro). Parece existir também uma componente genética e podem também estar associados ao abuso de substâncias, patologias do foro neurológico ou ainda, terem origem emocional e ocorrerem associados a situações traumáticas, servindo como alívio. Na maioria dos casos os tiques interrompem-se durante o sono. Embora geralmente os tiques sejam comportamentos conscientes, algumas crianças mais pequenas e por vezes até alguns adultos podem não ter consciência dos seus próprios tiques. Porém, com o seu desenvolvimento, muitas pessoas sentem o impulso ou a sensação corporal que antecede o tique motor ou vocal e uma sensação de alívio ou de diminuição de tensão após a sua expressão.
A gravidade da perturbação de tiques prende-se com a sua intensidade e frequência, bem como com o modo como esta condiciona a pessoa, biológica, psicológica e socialmente. Geralmente os tiques aumentam em situações de maior ansiedade e stresse diminuindo quando a criança está concentrada numa atividade específica ou quando está descontraída. Quando uma criança começa a apresentar tiques, os pais, professores e outros elementos constituintes dos seus contextos, deverão informar-se acerca do problema, de forma a poderem tranquilizar a criança, principalmente dizendo-lhe que o mais provável é que estes venham a desaparecer com o tempo. Embora por vezes possa ser difícil, ignorar os tiques e considera-los algo normal e passageiro, não lhes dar muita atenção pode contribuir efetivamente para que a sua evolução possa ser boa e possam desaparecer num prazo de meses. També não é benéfico chamar a atenção à criança, principalmente perante outras pessoas, de modo a salvaguardar a sua autoestima.
O ambiente familiar é muito importante para a criança. Se os pais conseguirem reduzir a tensão existente em torno da criança e aumentar a sua compreensão e afeto, poderão estar a contribuir para que o problema fique mais leve. Por outro lado, a criança não deverá ser sobrecarregada com atividades extracurriculares excessivas. Se a prática desportiva pode ajudar, ter tempo para brincar livremente de forma descontraída será decerto favorável para a criança. Os exercícios de relaxamento e de respiração podem também ajudar muito a lidar com o problema.
Quando os tiques são muito intensos com elevado grau de interferência na vida da criança, comprometendo os seus contactos sociais e o seu desempenho escolar, é fundamental procurar ajuda especializada para lidar com o prolema. Quanto mais precoce for a intervenção, melhores serão as possibilidades de recuperação. A intervenção nas perturbações de tiques poderá ser farmacológica e/ou psicológica, de acordo com a intensidade da mesma. A intervenção psicológica com maior eficácia demonstrada baseia-se nas técnicas cognitivo-comportamentais. O ensino e treino de estratégias de relaxamento podem ajudar muito a lidar com o problema e com os seus efeitos, ou seja, com o mal-estar que os tiques provocam e que se faz sentir, principalmente ao final do dia. O psicólogo poderá ainda ajudar a criança/adolescente a concentrar-se no tique, antecipa-lo e substitui-lo por um comportamento alternativo. O apoio psicológico pode ainda abarcar outros objetivos pois estas crianças/adolescentes podem apresentar também outras perturbações associadas e outros sintomas como a baixa autoestima ou dificuldades nas relações sociais. Se for o caso, a identificação do fator que estimula o surgimento dos tiques, poderá ser trabalhado no sentido de facilitar o seu desaparecimento.
Muitas condições médicas e psiquiátricas foram descritas como coexistentes com a Perturbação de Tiques, sendo particularmente comuns a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) e a Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC). A intervenção medicamentosa, em alguns casos mais extremos pode ser uma necessidade, principalmente se os tiques aumentarem e se tornarem mais complexos. Em casos mais extremos, pode ser recomendado pelo pedopsiquiatra ou pelo neurologista, o recurso a medicamentos como neuromoduladores, benzodiazepinas ou antipsicóticos. Contudo, o tratamento para eliminar os tiques, somente se deverá aplicar, em casos em que estes interfiram significativamente nas atividades ou na autoimagem do indivíduo.
São grandes e muito importantes as transformações a nível intelectual ao longo da adolescência. Esta é uma fase em que o pensamento concreto da infância vai dando lugar ao pensamento formal do adulto. A escola, os pares e a família, todos dão o seu contributo para a formação da identidade do jovem.
É na adolescência que “nasce” o mundo interior e se desenvolve a capacidade de introspeção, insight e de pensar sobre si mesmo, dando início ao processo de construção da identidade. Para o sucesso deste processo é extremamente importante a vivencia dos afetos, a expressão das emoções e a qualidade das experiencias de vida, conseguidas em grande parte através das suas relações com os vários contextos onde se desenvolve. Os estímulos, os modelos e as influências são determinantes para a construção do pensamento e para o desenvolvimento da personalidade do adolescente. Quanto maiores e melhores foram os estímulos a que o jovem é exposto (ex. música, pintura, teatro, cinema) mais este assimila as experiências e as assimila e internaliza. Do mesmo modo, as experiências negativas têm também um efeito neste mesmo processo, mas pernicioso, pelo que algumas delas podem ser muito desadaptativas. O jovem assimila todas as novas experiências que vive e nem sempre se preocupa ou consegue avaliar se se ajustam ou não.
Um dos contextos com maior impacto na vida do adolescente é a escola. Aqui o jovem aprende, ensina, expressa-se sob as mais diversas formas e tem a possibilidade de desenvolver competências a vários níveis. A par dos conhecimentos que adquire, o adolescente, em contexto escolar, tem a possibilidade de desenvolver responsabilidades individuais ou de grupo. A escola constitui-se como um território que o acolhe e onde ele se sente à vontade para exercitar as suas vivências e convivências. É em contexto escolar que se dão encontros, desencontros e relações, em que o adolescente questiona valores e começa a delinear e construir o seu projeto de vida. Para os adolescentes, a escola é o principal espaço de construção e partilha de conhecimentos sobre a vida futura.
A morte é um assunto que por tendência se procura evitar e uma questão sobre a qual talvez a maioria das pessoas procurem nem pensar. A dificuldade de lidar com a ideia da morte pode complicar a sua elaboração e impedir que se vivenciem com tranquilidade as perdas, que são naturais e ocorrem inevitavelmente, ao longo de todo o ciclo de vida.
Ao longo do último século, as ciências sociais e humanas aumentaram o seu interesse na investigação do processo de luto, nas suas diversas formas, das complicações e das diferentes abordagens psicoterapêuticas de apoio na realização do trabalho de luto. É reconhecido a Freud (1917), no seu artigo sobre o ‘Luto e melancolia’, a introdução precursora, na literatura psicológica, do trabalho clínico sobre o luto. Freud considerou o luto como uma reação à perda de alguém próximo, que é assimilada sem conflitos significativos, onde o enlutado é capaz de manter a capacidade de se desligar do objeto perdido, de uma forma natural. A energia investida no objeto perdido necessita, através do trabalho de luto, de se ir dissipando progressivamente das recordações, fantasias e expetativas que revestiam essa ligação, e ao fim de algum tempo, o Ego do enlutado estará novamente liberto para investir na realidade.
De uma forma consensual, o processo de luto apresenta-se como um processo ativo, multidimensional, personalizado e com múltiplos determinantes. Muito se tem escrito sobre o luto, o que evidencia o quanto o tema tem despoletado interesse na comunidade científica, resultando em numerosos estudos de diversas abordagens, tanto sobre questões relativas aos conceitos como sobre as utilizações de terapêuticas e sua eficácia. São vários os modelos de entendimento do processo do luto, como as variáveis que, em vários estudos empíricos, se revelaram fatores facilitadores ou problemáticos do seu curso. Na literatura disponível são diversas as posições assumidas no que respeita à opinião acerca dos modos de intervenção, mas é transversal e consensual que nos casos em que o processo de luto se complexifica, a intervenção psicológica é fundamental.
E falar de Educação Sexual é falar de educação para a saúde. A partir do final da década de 70 do século passado, as preocupações com a saúde acentuaram-se, em parte com o reconhecimento de algumas perturbações psicológicas relacionadas com o stresse e a ansiedade, decorrentes da mudança de ritmo imposta por uma sociedade cada vez mais global e modernizada. No entanto, o aparecimento da SIDA constituiu-se como um marco relevante em termos de saúde pública, tendo sido um forte contributo para que as preocupações com a aquisição de hábitos saudáveis relacionados com as práticas sexuais se intensificassem e que o conceito de saúde tivesse também ele sofrido uma alteração. Se até então, a saúde era descrita como um estado de conservação do bem-estar físico, emocional e social, a partir desse marco, o conceito de saúde adotado pela OMS passou a abarcar uma componente ativa do indivíduo, na promoção da sua própria saúde. Este tem uma participação efetiva com a finalidade de aumentar a sua capacidade para controlar a sua própria saúde, no sentido de a melhorar, através da prática de estilos de vida saudáveis, com grande foco na prevenção.
Em 1984 foi aprovada em Portugal a primeira lei que contemplava a Educação Sexual em contexto escolar, com a necessidade de reforçar as garantias do direito à saúde reprodutiva. Mais tarde, em 2000, a Escola foi reconhecida, como entidade competente para integrar estratégias de promoção e Educação para a Saúde que incluíam a Educação Sexual nos currículos dos ensinos básico e secundário, mas foi apenas em 2009 que se estabeleceu a sua aplicação nos estabelecimentos do ensino básico e do ensino secundário. A saúde dos jovens depende em parte do nível de informação sobre sexualidade, a que estes têm acesso. A falta de conhecimentos nesta área pode levar a situações de gravidez indesejada, ao aumento das interrupções voluntárias da gravidez, a infeções sexualmente transmissíveis ou ao abuso sexual, entre outros.
Estarão então os jovens portugueses, informados e com habilidades desenvolvidas para lidarem com a sua sexualidade forma adequada? Um estudo de 2002 sobre o papel da escola na educação sexual dos jovens portugueses, refere que estes globalmente revelaram poucos conhecimentos sobre a temática da educação sexual, tendo-se verificado que a escola desempenhou um papel pouco significativo, como agência de educação sexual dos jovens que constituíram a amostra do estudo. Em 2009, uma investigação direcionada para o objetivo geral de compreender o nível de educação sexual dos jovens portugueses escolarizados e o papel da escola e dos professores neste processo, revela que o papel da escola tem já alguma relevância na educação sexual dos jovens. No entanto, a escola está maioritariamente centrada numa abordagem de tipo biológico e preventivo, feita no contexto das Ciências Naturais. O mesmo estudo diz que embora a maioria dos jovens tenham revelado um conhecimento razoável acerca do tema, revelaram também défices de conhecimentos relativamente às questões práticas referentes aos métodos contracetivos e à informação sobre as infeções sexualmente transmissíveis (à exceção da SIDA). A maioria destes jovens afirmou ter tido comportamentos preventivos em matéria de gravidez não desejada e doenças sexualmente transmissíveis, pelo que parece que a lógica preventiva integra já a sua vivência sexual. A mesma investigação aponta para um reduzido recurso a profissionais e serviços de saúde, por parte dos jovens, em parte justificado pelo facto de nunca terem sentido essa necessidade mas também relacionado com falta de informação e dificuldades no acesso aos mesmos.
Em 2013, um estudo levado a cabo em escolas portuguesas com o objetivo de perceber a influencia dos conhecimentos, atitudes e comportamentos sexuais dos adolescentes no sentido da adoção de estilos de vida saudáveis, concluiu que a maioria dos adolescentes portugueses que iniciou a sua vida sexual tem comportamentos protetores. O mesmo estudo mostra que os adolescentes que referiram ter tido Educação Sexual têm mais conhecimentos face à SIDA e mais atitudes inclusivas face aos portadores desta síndrome. O estudo revela ainda que a Educação Sexual não teve qualquer efeito negativo nos conhecimentos, atitudes ou comportamentos dos adolescentes portugueses. Segundo uma investigação mais recente (2015) com o intuito de avaliar a implementação da Educação Sexual em contexto escolar, confirma o aumento e a consolidação dos conhecimentos dos adolescentes como objetivos privilegiados numa vertente de prevenção. Porém, o mesmo estudo refere alguma falta de formação, de experiência e de à-vontade dos docentes nesta área como limitações no processo de implementação da Educação Sexual.
A escola, sendo o contexto ideal para a promoção dos direitos fundamentais dos indivíduos, pode constituir-se como um espaço privilegiado de aprendizagens, de desenvolvimento de competências sociais e relacionais ao mesmo tempo que pode permitir o aumento da consciência individual dos riscos para a saúde, associados a comportamentos relacionados com a sexualidade. A formação dos professores na área da sexualidade é uma necessidade, para a eficácia das intervenções em contexto escolar. Intervenções bem planeadas, com base numa prévia avaliação das necessidades e atividades dinâmicas e integrativas, irão certamente potenciar uma maior adesão por parte dos jovens, assim como uma melhor aquisição e consolidação de conhecimentos, tendo em vista a sua saúde e as suas experiências nos campos relacional e sexual. Uma atitude positiva face à sexualidade, passa pela informação e pelo conhecimento no sentido de favorecer atitudes e comportamentos responsáveis no que diz respeito à vivência tranquila e satisfatória da vida sexual dos jovens, como expressão de relações e de afetos.