Cérebro – o órgão onde tudo acontece!

Cérebro

O cérebro e o corpo são inseparáveis e ligam-se um ao outro através de circuitos bioquímicos e neuronais, envolvendo-se numa relação de reciprocidade. Os  nervos motores e sensoriais periféricos transportam sinais das diversas partes do corpo para o cérebro, e do cérebro para todas as partes do corpo. O cérebro lê os sinais, interpreta-os e responde, como pode.

No ser humano, de todos os sistemas de que é composto, o Sistema Nervoso (SN) é sem dúvida o mais complexo e sofisticado. A unidade funcional e estrutural deste sistema, também conhecida como célula neural ou neuronal, é o neurónio. É a unidade base do SN sendo o seu diâmetro de uma dimensão extremamente reduzida e existindo na ordem dos biliões no cérebro humano. Os neurónios diferem entre si no que diz respeito à sua localização, dimensão e funções. Cada neurónio tem uma morfologia adaptada à receção, integração, transmissão e ao processamento de sinais. Estes sinais são transmitidos por meio de estruturas altamente especializadas, que fazem a transmissão de um impulso nervoso de um neurónio para outro – as sinapses. Este impulso pode ser integrado, bloqueado e modificado de duas formas diferentes: as sinapses químicas, que são as mais frequentes no ser humano, e as elétricas. As sinapses químicas pressupõem a presença de neurotransmissores que são compostos químicos produzidos pelos neurónios e comunicados pelas sinapses, os quais são responsáveis por transmitir as informações necessárias para as diversas partes do corpo.

NeurotransmissãoO SN é o nosso grande comandante e é responsabilidade sua, a coordenação de toda e qualquer ação voluntária ou não, assim como a transmissão de sinais a todos os outros sistemas presentes no organismo, como o sistema motor, sensorial, cognitivo e a integração entre todos eles. O SN divide-se em 3 partes e são elas o Sistema Nervoso Central (SNC), o Sistema Nervoso Periférico (SNP) e o Sistema Nervoso Autónomo (SNA). Fazem parte do SNC o cérebro e a espinal medula. O SNP é formado principalmente por nervos (cranianos e espinais), gânglios e recetores sensoriais. O SNP divide-se ainda noutros dois subsistemas, o sistema nervoso somático (nervos sensoriais e motores) e o sistema nervoso autónomo que por sua vez engloba outros dois constituintes, o simpático e o parassimpático. Descrito assim mesmo de uma forma simplificada, percebe-se que o assunto é realmente complexo. Coloquemos então o foco no SNC, mais precisamente no cérebro – o órgão onde tudo acontece!

Neurónio

O cérebro divide-se em 4 partes, os lobos. O lobo frontal é o maior e é responsável pelos movimentos físicos, assim como pelas funções da aprendizagem, do pensamento, da memória e da fala. O lobo parietal é responsável pela perceção espacial e pela transmissão da informação sensorial como a dor, o calor ou o frio. O lobo temporal responde pelos estímulos auditivos e o lobo occipital recebe e processa as imagens visuais. Dividindo o cérebro ao meio, este apresenta uma função contra lateral, ou seja, a metade esquerda do cérebro controla o lado oposto do corpo (lado direito) e as funções do lado esquerdo do organismo são comandadas pela metade direita do cérebro. A lateralidade cerebral define que cada hemisfério controla determinadas funções (ex. o hemisfério direito confere a capacidade de reconhecer rostos e objetos e o esquerdo comanda a capacidade de leitura e escrita). Assim, o cérebro é o comandante de todas as funções e sentimentos, como os movimentos corporais, a memória e emoções. É a ação conjunta das várias partes do cérebro que permite ao ser humano capacidades como a marcha, a fala e a capacidade de pensar, sentir e amar.

Neurotransmissão

O cérebro é um órgão muito curioso e tem características e particularidades muito suas. Embora seja o responsável pela transmissão dos sinais e pela interpretação da sensação de dor, o cérebro em si é indolor. Sendo um orgão que pesa menos de 2 quilos, tem cerca de 160 000 quilómetros de vasos sanguíneos. O cérebro consome muita energia, embora o seu peso represente apenas cerca de 2% do peso total do corpo, ele gasta cerca de 25% de toda a energia de que o corpo humano necessita para funcionar. Este grande consumo de energia parece dever-se à manutenção dos processos relacionados com o pensamento e os processos corporais, sendo parte dela possivelmente investida na manutenção da saúde das células cerebrais.

Neurotransmissão

Estudos acerca do funcionamento cerebral por género revelam que o cérebro das mulheres é diferente do dos homens, ou seja, parece estar efetivamente comprovado que o cérebro das mulheres é mais orientado para as emoções e para a subjetividade, enquanto o dos homens parece ser mais racional e objetivo. O cérebro dorme mas não para. É durante os períodos de sono que o cérebro humano mais trabalha, conseguindo mesmo assimilar informação. Esse trabalho cerebral está relacionado com a atividade onírica, ou seja o sonhar. Com o avançar da idade, observam-se determinadas alterações no cérebro humano e algumas das suas partes começam a diminuir de forma natural, à qual se associa uma perda neuronal. As zonas cerebrais responsáveis pela regulação dos processos cognitivos como a memória, começam a diminuir por volta dos 65 /70 anos de idade o que pode conduzir à redução da plasticidade cerebral e da capacidade de adaptação dos indivíduos.

CérebroVoltando aos neurónios, a ideia de que estes não se reproduzem nem se dividem e que são insubstituíveis, foi durante muito tempo uma verdade absoluta. No entanto, alguns estudos mais recentes têm vindo a apontar para a possibilidade de haver um processo de neurogénese adulta, ou seja, a capacidade de se criar e reforçar os neurónios em idade mais tardia, através de uma série de práticas relacionadas aos hábitos vida saudáveis ao longo do tempo. A prática de exercício físico de corrida ou resistência, a dieta mediterrânica e a estimulação cognitiva, podem ajudar a manter o cérebro saudável. A aprendizagem facilita as conexões entre as diferentes áreas do cérebro e por isso pode constituir-se como um fator protetor contra a neuro degeneração. Porém, a neurogénese adulta, a ser uma realidade, tem um papel limitado incapaz de corrigir lesões cerebrais graves. A investigação e a ciência estarão decerto atentas a este problema e irão continuar a fazer esforços no sentido do prolongamento da saúde neuronal.

Cérebro

Até lá e pelo sim, pelo não, cuide-se para envelhecer melhor!

 

 

 

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Obesidade infantil e televisão

Obesidade

A obesidade e o excesso de peso na infância é atualmente uma das áreas que suscita grandes preocupações a profissionais de saúde, pais e educadores, assim como à comunidade científica, que em virtude do aumento da prevalência destas problemáticas entre os mais novos, se tem vindo a dedicar ao estudo desta matéria.

Sendo este um problema de saúde com graves consequências no desenvolvimento e no futuro da criança, há que estudar todas as possíveis causas, no sentido de se poderem encontrar soluções para as eliminar ou fazer diminuir o seu efeito. De entre as diversas causas atualmente apontadas para a elevada prevalência de problemas relacionados com o excesso de peso infantil, prevê-se que os meios de comunicação possam ter também um papel influenciador nesta matéria, nomeadamente a publicidade a alguns produtos alimentares, veiculada através da televisão. Vários são os estudos que se debruçaram sobre este tema, no entanto, nem todos são convergentes no que diz respeito aos resultados. Se uns apontam para uma forte influência da publicidade televisiva no que concerne a produtos alimentares de elevado teor de sal e açúcares, no consumo dos mesmos, outros há que não destacam essa variável mas sim, encontram uma associação direta negativa entre o ver televisão e a prática de exercício físico, ou por outras palavras, à medida que aumenta a atividade física, apesar dos valores elevados de consumo televisivo, a tendência para a obesidade diminui.

fast foodPor outro lado, os hábitos alimentares das sociedades modernas mudaram e começou a notar-se uma grande adesão por parte dos pais ao fast-food. Esta adesão deve-se em parte à comodidade mas também aos preços acessíveis que este tipo de alimentação oferece, tornando-se muitas vezes uma tentação, para muitas famílias difícil de resistir. Juntando este fator à falta de tempo e à quantidade de exigências do dia-a-dia, muitos pais facilitam e desvalorizam o consumo televisivo e tendem por vezes a não dar importância nem ao tempo, nem aos conteúdos a que as suas crianças estão sujeitas e a estímulos que podem ter um efeito pernicioso.  É certo que as escolhas alimentares das crianças resultam da combinação de vários fatores, não se podendo responsabilizar apenas a publicidade televisiva. Porém, o excesso de publicidade durante a exibição de programas infantis, especialmente em horário nobre televisivo, pode conduzir a um aumento da apetência para o seu consumo, com todos os potenciais efeitos negativos.

Excesso de peso infantil

Um trabalho de Story, Newmark-Sztainer e French (2002) identifica a existência de quatro níveis de fatores com grande relevância para a compreensão da escolha alimentar. O primeiro é o nível individual em que se observam fatores biológicos, comportamentais e psicossociais. O segundo é o nível ambiental que inclui a família e os amigos. O terceiro nível corresponde ao sistema comunitário que se refere à existência e ao acesso aos alimentos e o quarto nível tem a ver com o macrossistema que é a sociedade. É neste nível que se encontra a comunicação social, nomeadamente a oferta publicitária presente nos conteúdos televisivos infantis. Assim, pode-se dizer que em relação à exposição aos referidos conteúdos, estes conduzem também a uma maior exposição à publicidade a produtos alimentares pouco equilibrados do ponto de vista nutricional. Também o ver televisão pode estar associado ao consumo de petiscos doces ou salgados, habitualmente calóricos, ou até mesmo à ingestão de alimentos de forma distraída e por vezes abundante. Sendo o visionamento de televisão uma atividade sedentária, o metabolismo é reduzido e a atividade física é nula e vêm constituir-se como fatores de propensão ao aumento do peso.

Atividades ao ar livrePois bem, a ideia não é diabolizar a televisão nem entrar em extremismos pouco adaptativos. O objetivo deste artigo é o de chamar a atenção para estes factos do quotidiano, no sentido de consciencializar para os perigos dos excessos e para os benefícios do equilíbrio. Como em tudo na vida, o segredo está no equilíbrio. Não vamos proibir as nossas crianças de verem televisão, nem de terem contacto com a publicidade televisiva, nem mesmo proibi-las de comerem doces ou fast-food, a não ser que outros problemas de saúde o tornem imperativo. Vamos sim dar atenção ao tempo que as nossas crianças passam em frente ao écran e controlar o que ingerem durante esses períodos de tempo. Para além disso, promover a prática de exercício físico e de atividades ao ar livre, é sempre salutar e pode atuar como fator de proteção para o problema da obesidade assim como pode ajudar a promover o desenvolvimento de competências sociais, através da interação com outras crianças, ao mesmo tempo que pode proporcionar momentos de expressão afetiva.

VER TELEVISÃO

 

Fonte:

Story, M. T., Neumark-Stzainer, D. R., Sherwood, N. E., Holt, K., Sofka, D., Trowbridge, F. L., and Barlow, S. E. (2002), “Management child and adolescent obesity: Attitudes, barriers, skills, and training needs among health care professionals”, Pediatrics, 110 (1), 210-214.

 

A vinculação humana

Vinculação humanaA vinculação humana pode ser entendida como uma ligação emocional recíproca e duradoura entre o bebé e a figura parental, em que cada um contribui para a qualidade da relação. É uma relação diádica na qual o nível de participação da criança vai aumentando gradualmente  embora a importância da figura parental não diminua no que diz respeito à reciprocidade desta díade.

John Bowlby, psicanalista britânico, defendeu inicialmente a ideia de que a teoria da vinculação consistia principalmente numa estratégia de sobrevivência para a protecção do bebé com origem em processos evolutivos para a promoção reprodutiva. Posteriormente distingue 4 estádios do desenvolvimento da vinculação durante o primeiro ano de vida. Antes dos 2 meses o bebé responde indiscriminadamente a qualquer pessoa e interage involuntariamente. Entre os 2 e os 3 meses o bebé sorri e foca-se na mãe mais do que nas outras pessoas. Entre os 6 e os 7 meses o bebé revela uma vinculação à mãe bem definida (locomoção e linguagem)e começa a recear os estranhos. Depois dos 8 meses, o bebé desenvolve uma relação reciproca com uma ou mais figuras e começa a inferir sobre os objectivos do outro.

Vinculação humana

Mary Ainsworth, discípula de John Bowlby, veio a dedicar-se a este tema tendo desenvolvido ela própria uma técnica de avaliação dos padrões de vinculação em bebés com cerca de 12 meses e geralmente, a mãe–  situação estranha – que consiste numa sequência de situações de reunião e separação da criança à figura de  vinculação e em que da observação do comportamento das crianças se podem distinguir 3 tipos/grupos de vinculação. Estes tipos são o grupo A, inseguro-evitante ou ansioso-evitante, caracterizado por comportamentos de evitamento em relação à figura de vinculação, o grupo B, seguro, o grupo mais comum, no qual se podem distinguir 4 sub-grupos ou padrões de comportamento, sendo os grupos B1 e B2 caracterizados por uma interacção mais distante com a figura de vinculação e os grupos B3 e B4 por uma procura activa de contacto e proximidade por parte do bebé. O grupo C, inseguro-ambivalente ou ansioso–resistente divide-se ainda em C1 cujas crianças revelam irritação na procura de contacto e C2 caracterizado pela passividade.

Vinculação humana

Devido ao facto de haver ainda bebés cujos comportamentos não se enquadravam em nenhum dos grupos referidos, foi ainda criado o grupo D, desorganizado-desorientado onde se incluem crianças com comportamentos contraditórios, movimentos assimétricos e expressões de confusão e apreensão em relação à figura parental, revelando incapacidade de manter uma estratégia de vinculação coerente.

As características atribuídas a cada grupo não são apenas exclusivas das crianças sendo que também as mães revelam um padrão comportamental específico, isto é, as mães de crianças pertencentes ao grupo de vinculação segura mostram tendencialmente maior sensibilidade e disponibilidade tanto emocional como física para responder às necessidades dos seus bebés enquanto as mães das crianças evitantes mostram normalmente menor envolvimento afectivo, menor disponibilidade, rejeição e até aversão à criança. Por sua vez as mães das crianças ansiosas revelam frequentemente dificuldade em captar os sinais e as necessidades do bebé, apresentam comportamentos inconscientes e imprevisíveis, irritação e tratamento desajeitado do bebé.

Vinculação humanaA qualidade da relação de vinculação depende não apenas das características parentais mas também do contexto familiar, do apoio social, da qualidade da relação do casal e de stressores ambientais, entre outros. Assim sendo, a vinculação passa a ser vista como um modelo ecológico baseando-se no pressuposto de que a parentalidade e a relação criança-figura de vinculação são multideterminadas e o desenvolvimento da insegurança poderá resultar da acumulação de várias vulnerabilidades.

São vários os estudos que demonstram que a qualidade de vinculação precoce pode ter implicações na vida futura da criança, sendo que a vinculação segura aumenta a probabilidade da criança vir a desenvolver relações de maior qualidade com a figura parental e com os seus pares, desenvolver características como a autonomia em relação às suas figuras de vinculação, desenvolver um autoconceito positivo, maior tolerância a situações de stresse, persistência e entusiasmo na resolução de problemas, melhores competências emocionais e de compreensão da linguagem e menor probabilidade de desenvolver problemas de comportamento durante a infância. Estas vantagens estendem-se pela adolescência pois tornar-se-ão jovens com maior facilidade em estabelecer relações de amizade e de funcionar em grupo comparativamente a jovens anteriormente classificados como evitantes ou resistentes e têm tendencialmente melhor saúde emocional e auto-estima.

Vinculação humanaPara Bowlby, os modelos internos dinâmicos tendem para a continuidade ao longo das gerações. O modo como a mãe recorda as suas relações de vinculação com as suas figuras parentais pode predizer a qualidade da relação que irá estabelecer com o seu filho, ou seja, uma mãe com uma vinculação segura à sua própria mãe pode reconhecer com maior precisão os comportamentos de vinculação do bebé, responder de forma estimulante e ajudar o bebé a estabelecer uma vinculação segura a si.  Contudo, esta concordância não é absoluta. A replicação do modelo de vinculação de geração para geração poderia também dever-se à hereditariedade mas diversos estudos efectuados nesse sentido concluem que a influência genética é pequena sendo maior a influência do contexto, isto é, das características ambientais partilhadas, podendo deste modo inferir-se que a qualidade da relação conjugal e familiar assim como o ambiente emocional, contribuem fortemente para a transmissão do padrão de vinculação entre gerações.

 

Fontes:

Soares, I., Martins, S. (2007). Vinculação na infância. In I. Soares (Ed.), Relações de vinculação ao longo do desenvolvimento: Teoria e avaliação (pp. 47-98). Braga, Portugal: Psiquilibrios.

Papalia, D. E., Olds, S. W. & Feldman, R. D., (2001). O mundo da criança Lisboa: McGrow Hill

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Famílias modernas

FamíliaNas últimas décadas, as sociedades ocidentais têm sofrido alterações bastante significativas em relação às gerações anteriores. A família, enquanto instituição, tem sido alvo de muitas mudanças ao longo do tempo, devido ao aumento do número de separações e de divórcios, a par de outras transformações de carácter económico e social.

Socialmente, o divórcio já não é visto como outrora, em que o estigma conduzia muitas vezes a um sentimento de vergonha e de baixa autoestima, principalmente por parte das mulheres. Com a entrada da mulher no mundo profissional e com profissões cada vez mais diferenciadas, que conduzem a uma maior autonomia económica, o problema da dependência financeira do marido, deixou em muitos casos de ser um entrave à separação. Por outro lado, a procura da felicidade e do bem-estar emocional, constitui-se como um direito de todos, sendo que as exigências afetivas passaram a ter um papel cada vez mais determinante na decisão da manutenção ou da dissolução de uma união.

FamíliasUm estudioso destas matérias (Hall, 1999) identificou três formas de pensar acerca do casamento: a visão mais tradicional, que vê o casamento como uma obrigação de relação mútua, romântica e algo hierarquizada, a visão mais autocentrada, ou seja, que vê o casamento de forma mais paralela, prática, individualista e menos romântica e uma outra visão mais extremista no que diz respeito ao estatuto do casamento, muito orientada para a obrigação e muito pouco para o romantismo. Qualquer uma destas formas de olhar o casamento tem subjacente um conceito comum, a família, sendo que a cada modo de percecionar o casamento poderá corresponder um modelo de família. O modelo de família tradicional, caracteriza-se pelo destaque pela a autoridade paterna, a funcionalidade da união e a relação com a família alargada e a comunidade. Outro modelo de família, refere-se a um tipo de construção familiar mais influenciado pelo individualismo e autonomia, mais nuclear e menos complexa e que se centra essencialmente nos afetos e nos sentimentos. Por fim a família pós-moderna, pautada pela aceitação de formas menos convencionais, com maior flexibilidade e diversidade nos seus constituintes.

FamíliaPodemos encontrar hoje em dia famílias tradicionais, constituídas por pais, filhos, por vezes avós ou outros que coabitam e/ou que se relacionam de uma forma tipicamente hierarquizada. As famílias monoparentais, que são cada vez mais frequentes, assim como também vão sendo notórias, famílias cujos laços nem sempre são de sangue e que se organizam de uma forma menos convencional e mais flexível. Atualmente, as novas formas de conjugalidade concorrem com as mais tradicionais, no que se refere aos papéis de género, à sexualidade, à cultura, à religião, entre outros aspetos das sociedades modernas. Apesar de toda a diversidade de famílias que podemos encontrar na sociedade atual, existem algumas características comuns como a diminuição do número de filhos e de membros, o aumento da participação feminina no mercado de trabalho e a participação dos diversos elementos da família na economia doméstica. Observa-se assim que a evolução e a transformação das famílias, conduziu a uma organização das mesmas, mais democrática cooperante e participativa, comparativamente ao modelo de família patriarcal em que o chefe de família era o pai e se constituía como o núcleo económico e de poder.

Família

 

A adolescência e o processo de separação/individuação: três olhares

AdolescentesA adolescência corresponde a uma fase do desenvolvimento que começa com a entrada na puberdade. Tem por isso um início biológico marcado por transformações às quais o indivíduo tem que se adaptar. O final da adolescência poderá ser determinado pela independência do jovem em relação aos pais, logo tem um carácter psicossocial.

A adolescência é uma fase de paradoxos uma vez que há uma inconstância de sentimentos e emoções que levam o jovem a oscilar entre o desejo de estar só e a vontade de sentir atenção e companhia, “Entre o medo e o desejo de crescer” (M. Fleming, 2005). Em termos psicológicos, a tarefa básica do adolescente é a aquisição do sentimento de identidade. Descobrir e experimentar coisas novas, assim como ensaiar vários papéis característicos do adulto, são tarefas típicas deste período. Para isso é fundamental que o contexto relacional do adolescente lhe forneça a segurança e o apoio necessário à experimentação e à sua estruturação enquanto individuo. Os estudiosos desta matéria defendem diversas teorias e modelos, sendo vários os autores portugueses que têm dado o seu contributo para o estudo do processo de separação/individuação na adolescência. Apresento neste texto três olhares psicodinâmicos sobre esta temática, de três psiquiatras e psicanalistas portugueses, cada qual com as suas particularidades e especificidades.

Separação/IndividuaçãoSegundo Carlos Amaral Dias, a adolescência é um período de espera moratória concedido ao adolescente enquanto não se encontra com aptidão para satisfazer os compromissos da vida adulta. O autor refere ainda que a adolescência é uma fase organizadora do psiquismo em que há um desinvestimento nos laços de dependência narcísica que anteriormente uniam a criança às suas figuras parentais, através de um processo de luto, que dá ao jovem a possibilidade de estar só e de ultrapassar de forma positiva o processo de separação/individuação. Em relação a este processo, o autor introduz uma ideia original, com base na obra de Bion e Meltzer, na medida em que defende que o adolescente rejeita o continente parental, isto é, a disponibilidade que os pais poderão ter para acolher conteúdos não transformados que recebem dos filhos através da identificação projetiva, conferir-lhes significado e a dirigi-los novamente para o filho de modo a que este já o possa assimilar. Para este autor, o adolescente, na fase de separação/individuação passa por dois processos de luto, na medida em que perde o self parental ao adquirir autonomia das figuras parentais e também o luto pelo grupo no sentido de conseguir individualizar-se e constituir-se enquanto ser com capacidade de estar com os outros mas também de estar só, consigo próprio.

Separação/IndividuaçãoNa perspetiva de Eurico Figueiredo, o conflito de gerações é indispensável à estruturação do indivíduo, sendo que o conflito é articulado por duas problemáticas distintas. Por um lado a idealização vs. desidealização das figuras parentais e por outro lado o narcisismo ou amor-próprio. Durante a infância a criança idealiza as figuras parentais e interioriza esse objeto que mais tarde, na adolescência lhe vai causar deceção ao olhar com outros olhos os pais reais. Isto leva a uma relação de conflito – o conflito de gerações. A realidade parental apresenta-se como uma dupla ameaça pois por um lado há uma renuncia precoce a um ideal que é do agrado do jovem e por outro lado há uma ameaça de depressão causada por um luto interno de desejos e ambições que o jovem receia não poder vir a concretizar, ou seja, ao mesmo tempo que o indivíduo renuncia a algo que o fez feliz na infância ele teme também não conseguir realizar as suas aspirações de adolescente. Este autor defende que no conflito de gerações há uma luta pelo amor-próprio. Por parte dos pais porque temem perder o amor dos filhos ao qual se habituaram durante a infância e por parte dos filhos porque lutam pelo seu amor-próprio que ficou perturbado pela desidealização dos pais. Eurico Figueiredo defende que a separação psicológica da família de origem é universal e deverá traduzir-se em aquisições psicológicas também elas universais (Fleming, M., 2005). Estes conflitos têm uma natureza evolutiva entre vários polos: autonomia vs. dependência, desautorização vs. submissão e desidealização vs. idealização, sendo que o primeiro polo deverá predominar à medida que o indivíduo se torna adulto.

Separação/Individuação

Por último, a perspetiva de Emílio Salgueiro. No que concerne a adolescência e ao processo de separação/individuação, o autor discorda da teoria da desvinculação ou desinvestimento do jovem adolescente às figuras parentais. Para ele os pais ganham importância e tornam-se figuras complexas ajudando a remodelar os objetos internos primordiais (Fleming, M., 2005). Isto é, refere que os pais ganham relevo na medida em que auxiliam o jovem a conferir uma nova forma aos objetos internos iniciais que irão ser o suporte para a sua vida adulta. O autor salienta que o amor pelos pais não desaparece, porém por vezes toma a forma de ódio positivo, sentimento inseparável do amor positivo, causado pela deceção dos pais idealizados na infância face aos pais reais. Se por um lado o adolescente se vê impelido a reagir contra os pais, por outro lado a confiança e segurança que estes lhe oferecem irá ser fundamental na consolidação da sua individuação.

 

Processo de separação/IndividuaçãoEmbora o processo de separação/individuação seja complexo, contraditório e pleno de obstáculos, ele é indispensável para que os adolescentes entrem no mundo dos adultos com a maturidade necessária para enfrentarem as novas situações e vivências com que se irão deparar na vida adulta.

 

 

Fontes:

Amaral Dias, C. & Nunes Vicente, T. (1981). A depressão no adolescente. Porto: Edições Afrontamento.

Fleming, M. (2005). Entre o medo e o desejo de crescer. Porto. Edições Afrontamento.

Sprinthall, N. & Collins, W., (2003). Psicologia do Adolescente: Abordagem desenvolvimentista. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Adolescência: a pressão dos pares

 

Pressão dos paresAs relações de amizade, à medida que o  tempo passa e a adolescência se aproxima, vão-se tornando cada vez mais significativas. À medida que se vai crescendo vai-se passando cada vez menos tempo com a família e cada vez mais tempo com os amigos, que por sua vez vão assumindo um papel cada vez mais importante na vida dos jovens, com grande influência nas suas vidas e nas suas tomadas de decisão.

A influência dos pares, principalmente na adolescência pode ser decisiva em muitas áreas da vida. O modo como o jovem se vai vestir, o desporto que vai escolher praticar, as músicas que vai ouvir ou até mesmo escolhas curriculares e profissionais, podem ser grandemente influenciadas pelos amigos. Essa influência exercida pelos pares, tem muitas das vezes bons resultados, ou seja, marca pela positiva, porque pode ajudar a tomar uma decisão importante, pode ser um exemplo para se atingir um melhor desempenho escolar, pode ajudar no desenvolvimento de competências sociais e também porque pode fazer com que o jovem se identifique com o grupo, desenvolvendo um sentimento de pertença, fundamental para a vivência saudável da fase da adolescência. No entanto, a influencia dos pares nem sempre é positiva e por vezes, é precisamente essa influencia que pode conduzir o adolescente a adotar comportamentos de risco, potencialmente perigosos para a sua saúde e integridade física ou emocional.

Pressão dos paresOs amigos podem oferecer maus exemplos, maus conselhos ou exercer pressão sobre os outros para fazerem algo com o qual estes não se sentem à-vontade e que não cabe dentro do seu sistema de valores e regras. Perturbar deliberadamente os outros, roubar, consumir álcool ou drogas, correr riscos a conduzir um carro ou ter relações sexuais sem proteção, podem ser exemplos de comportamentos que o adolescente pode vir a adotar, com base na influencia dos pares e por pressão destes. A pressão dos amigos pode ser exercida de uma forma direta ou indireta. De uma forma direta, a pressão pode ser exercida através de incentivos verbais como por exemplo, dizerem para beber mais umas cervejas, para fumar mais um cigarro, para experimentar uma droga, para acelerar com o carro, etc. De forma indireta, a pressão pode ser mais subtil e fazer-se presente por exemplo por ser disponibilizado aos outros os meios de correrem riscos, como manter disponível uma grande quantidade de bebidas alcoólicas ou drogas numa festa, ainda que não o façam de forma verbal.

Pressão dos pares na adolescênciaA dificuldade que alguns jovens têm para filtrar ou tomarem a decisão de não ultrapassarem as suas regras ou os seus valores, prende-se com a necessidade que estes podem ter de serem aceites e inseridos no grupo. Há muitas vezes uma pressão para que os jovens façam o que outros fazem, e se isto pode ser inócuo quando se trata de um comportamento sem consequências graves, como usar um determinado tipo de vestuário, por outro lado, podem levar o jovem a comportamentos com consequências sérias, graves e por vezes ilegais. A insegurança e a dificuldade nos relacionamentos interpessoais que alguns adolescentes têm, pode levar a que se deixem pressionar pelos pares, com tudo o que isso pode ter de bom ou de mau. Para além dos perigos que os jovens podem correr por influência dos pares, estas situações podem também constituir oportunidades de reflexão e de como cada um pode pensar em lidar com a pressão. E como podem então os jovens lidar com a pressão dos pares?

Pressão dos paresEm primeiro lugar, é necessário que o adolescente se ouça a si mesmo. Se perante um determinado desafio proposto por um amigo o jovem sente desconforto com a ideia, isso significa que essa situação é errada para si e só por isso deverá ser alvo de maior cuidado na sua avaliação. A utilização de uma balança de decisões, onde se colocam todos os aspetos e consequências  positivas num dos pratos da balança e no outro, todos os aspetos negativos, pode ajudar o jovem a tomar a decisão mais consciente e acertada. Os sentimentos que essa situação lhe provoca, as consequências possíveis por se envolver na situação, o modo como ela pode afetar os outros, os efeitos que a situação pode trazer a longo prazo ou as consequências que pode ter na sua relação com os outros, são fatores que devem ser analisados com cuidado, no sentido do adolescente poder decidir em consciência se se vai ou não envolver nessa situação.

Adolescência e comportamentos de riscoOutra estratégia para lidar com a pressão dos pares pode ser a programação antecipada da resposta, ou seja, o jovem, perante um acontecimento que prevê que possa envolver situações de risco, deve-se preparar para as recusar, de forma assertiva. Decidir o que não se quer fazer e ensaiar respostas adequadas para recusar certos comportamentos, pode ser muito eficaz no momento em que o adolescente se vê confrontado com algo que não quer.  Saber dizer “não” é fundamental. A comunicação assertiva pressupõe  a capacidade do indivíduo  se expressar de forma aberta e sincera ao mesmo tempo que demonstra interesse genuíno nos seus interlocutores. Ser assertivo é ter confiança em si próprio e ser fiel aos seus valores e crenças, com a coragem de falar o que se quer e quando se quer mas sem desrespeitar aos ideias e opiniões dos outros. Se um amigo quer convencer outro fazer alguma coisa que este sabe que não deve fazer ou que o deixa ansioso e desconfortável, este deve negar, ter orgulho em ser forte e fazer o que acha melhor para si e que vai ao encontro do seu sistema de valores.

Pressão dos pares na adolescênciaO evitamento pode também ser uma forma de resistir à pressão, isto é, se o jovem sabe que em determinado local ou evento, vão estar disponíveis, por exemplo, substâncias ilícitas, pode sempre optar por não comparecer ao evento, evitando assim cair em tentação. As consequências de um determinado comportamento são maioritariamente para quem o pratica e por isso deve ser sempre bem avaliado o que desse comportamento pode advir. Além disso há sempre a possibilidade de escolher sair com amigos que pensem da mesma forma, o que vai reduzir a probabilidade de se ter que  dizer “não”.  Numa situação de pressão, a voz da consciência não estará sozinha e provavelmente resistir vai ser mais fácil, quando há mais alguém com quem se partilha valores e os respeita.

Pressão dos pares na adolescênciaQuando a pressão é muita e o jovem já não sabe como lidar com ela, há sempre outra alternativa que é pedir ajuda. Perante uma situação potencialmente perigosa, como por exemplo a pressão para o consumo de drogas, o jovem não deve hesitar em pedir ajuda a um adulto em quem confie e se sinta à-vontade para o fazer, ao invés de correr riscos desnecessários. Se o adolescente estiver com dificuldade em resistir, em dizer eu não quero, a partilha do problema com os pais, com um irmão mais velho ou com outro amigo pode ajudar a decidir da melhor forma. Se o jovem não se sentir confortável em abordar o assunto em questão com os seus familiares ou com os que lhe estão mais próximos, pedir aos pais para ir falar com um psicólogo, pode mesmo ser a melhor opção.

 

 

 

 

Moralidade: um conceito, duas perspectivas

Piaget e KholbergUm dos objectivos da socialização é inculcar valores morais que são respeitados não apenas para evitar a punição mas também porque a pessoa acredita que eles são correctos.

A socialização dá-se ao longo do desenvolvimento humano sendo um  processo gradual e cumulativo. Ao longo do tempo tem-se procurado compreender de que forma o indivíduo assume e interioriza  os valores que orientam o seu comportamento, isto é, a forma como ocorre o desenvolvimento moral que vai influenciar o modo como vai construir o seu significado sobre o mundo social.

Piaget e Kohlberg Jean Piaget, cientista suíço que revolucionou o modo de encarar a educação das crianças, ao mostrar que elas não pensam como os adultos mas constroem a sua própria aprendizagem, afirma que o desenvolvimento moral das crianças, desde o nascimento até cerca dos 12 anos de idade, passa por duas orientações: heteronomia e autonomia. Numa primeira fase, as crianças encontram-se em moralidade heterónoma, ou seja, todas as regras são impostas pelo adulto, exteriores a si e não podem ser contestadas. Um comportamento é visto como completamente certo ou completamente errado, não havendo lugar para ver o ponto de vista do outro. Numa segunda fase, as crianças evoluem para uma moralidade autónoma, onde aceitam que as regras podem ser alteradas por elas próprias ou pelos outros, julgam os actos pela sua intenção e não apenas pela consequência dos mesmos e têm a capacidade de se colocar no lugar do outro, considerando mais do que um ponto de vista.

Kohlberg e PiagetPara este autor, a moral refere-se a um conjunto de regras e o conceito de moralidade refere-se ao respeito que a criança tem por essas regras. Para uma abordagem mais profunda a este conceito, Piaget divide-o em dois níveis: a consciência que a criança tem das referidas regras e a prática, isto é,o modo como as respeita e segue. As três questões básicas da moralidade são, o conhecimento das regras, a sua origem e a sua mutabilidade. Quando expostas às regras de determinado jogo, as crianças no estádio sensório-motor não tendo ainda consciência destas, vêm o jogo como uma actividade meramente motora. No estádio pré-operatório, as crianças imitam o comportamento dos outros e reconhecem a existência de regras, considerando-as imutáveis e rígidas. Embora tenha já consciência que essas regras regulam a actividade/jogo, a criança tem uma atitude egocêntrica na medida em que não joga “com os outros” mas sim retira dessa actividade um prazer para si mesma. No estádio operatório concreto, a criança já vê o jogo como uma competição e não apenas como uma actividade geradora de prazer psicomotor. Este estádio é marcado pela moralidade heterónoma em que as regras são vistas como algo rígido, não contestável e também percebidas como necessárias para a evolução do jogo. Numa última fase deste estádio, por volta dos 10 anos ou no início do estádio operatório formal, a criança desenvolve o raciocínio abstracto e passa para a fase da autonomia moral. Nota-se então um maior interesse não só em estudar as regras mas também em discuti-las de uma forma cooperante dentro do seu grupo de pares.

Piaget e KohlbergPor outro lado, Kohlberg, psicólogo norte-americano que se dedicou ao estudo do desenvolvimento moral das crianças e adolescentes, postula que este passa por três níveis: pré-convencional, convencional e pós-convencional, cada um dos quais está dividido em dois estádios, que vão para além da adolescência. Para este autor, só a maturidade pode trazer um conceito de moral, pleno de significado. Na base desta classificação está o nível de maturidade, de consciência e de motivação em relação às regras e à utilidade destas. O primeiro nível é Moralidade Pré-convencional onde a moralidade da criança é apenas marcada pelas consequências dos seus actos. No estádio 1, a criança respeita a regra apenas por ter medo da punição e não por ter noção do valor e do significado da mesma. Há uma orientação para a punição e para a obediência sendo considerada apenas a perspectiva do próprio ou da figura de autoridade. No estádio 2, marcado pelo individualismo e pela troca instrumental, a criança vê a relação com os outros como uma troca comercial, isto é, uma acção justa é aquela que é recompensada. No segundo nível,  Moralidade Convencional, há uma atitude de conformidade com a ordem da sociedade de lealdade e amor à família e ao grupo. O estádio 3 caracteriza-se pelo relacionamento e conformidade interpessoal, isto é, o comportamento é muitas vezes julgado com base na intenção, e esta intencionalidade torna-se pela primeira vez importante. A consciência social, o desenvolvimento da noção do dever e a manutenção da lei e da ordem, caracterizam o estádio 4. No terceiro nível, Moralidade Pós-convencional, destaca-se o esforço do indivíduo para definir os valores morais, o certo e o errado prescindindo por vezes da figura de autoridade. Alcançado o  estádio 5, nota-se uma orientação para o contrato social e os direitos individuais aceites democraticamente.  Há uma tomada de consciência da existência do outro, de maioria e de utilidade social. Por último, o  estádio 6 reflecte uma orientação para os princípios éticos universais. A noção de justiça define-se nesta fase pela decisão da consciência de acordo com princípios éticos abstractos que determinam o código moral pessoal, escolhidos com base na compreensão lógica, na coerência, na universalidade, e na solidariedade, regendo-se por princípios universais de igualdade, reciprocidade e respeito pelo outro.

Piaget e Kohlberg O desenvolvimento moral ocorre através da interiorização de um conjunto de princípios éticos ou normas, a partir das quais é avaliada a conformidade dos vários pensamentos, sentimentos e comportamentos. A maturidade moral implica  a capacidade e disponibilidade do indivíduo para se sujeitar às normas morais interiorizadas, mesmo quando não estão presentes as figuras de referencia e autoridade, que habitualmente reforçam a conduta moral ou punem as transgressões. Duas teorias, duas perspectivas, em todo o caso têm em comum uma ideia desenvolvimentista e ecológica. Tanto no modelo de Piaget como no de modelo de Kohlberg, a moralidade de um indivíduo depende tanto de factores psicológicos e biológicos  como de elementos sociais e culturais, tornando-se claro que diferentes situações sociais, culturais, psicológicas e biológicas irão propiciar diferentes comportamentos e diferentes moralidades.

Fontes:

Kohlberg, L. (1981). The Philosophy of Moral Development. San Francisco. Harper and Row.

Piaget, J. (1994). O juízo moral na criança. São Paulo: Summus

 

 

Esquemas mentais, memória e formação de impressões

Esquemas mentaisFormar uma impressão significa organizar a informação disponível acerca de uma pessoa de modo a podermos integrá-la numa categoria significativa para nós.

Tendo como base a psicologia cognitiva, a abordagem da formação de impressões que tem como base a memória, tem o objectivo de analisar os processos cognitivos relacionados com aquisição, armazenamento e recuperação de informação. Assim sendo, é através dos esquemas mentais, isto é, estruturas cognitivas formadas por categorias, conceitos e conhecimentos anteriores, que são utilizados de modo a dar coerência e sentido à nova informação de modo a categorizar e até avaliar uma pessoa quando num primeiro contacto formamos uma impressão.

Esquemas mentais e memóriasOs esquemas mentais influenciam a codificação da informação nova, a memória de conhecimentos anteriores e permitem-nos inferir sobre informação ausente assim como prever acontecimentos futuros. Interpretamos o comportamento da outra pessoa baseando-nos na nossa memória, isto é, nos nossos conhecimentos e informações anteriores como por exemplo os traços de comportamento e os estereótipos, tornando-se  os processos de memória fundamentais para a formação de impressões.

Fonte:

Vala, J., & Monteiro, M. B. (Eds.). (2001 Psicologia Social (6ª ed.). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

 

 

Estamos divorciados! E os nossos filhos?

SeparaçãoAs separações e os divórcios são uma realidade muito frequente nos dias de hoje. Quando os casais que se separam têm filhos ainda pequenos, muitas vezes têm comportamentos em relação às crianças, que nem sempre são as mais adequadas e adaptativas. Algumas vezes fazem-no intencionalmente para magoar o ex-companheiro/a mas muitas vezes é apenas porque não sabem fazer melhor.

Se de repente se separou e se viu sozinha/o com o seu filho pequeno, não se admire se a sua criança começar a apresentar comportamentos diferentes do habitual. Alguns comportamentos podem ter a ver com o facto de a sua estrutura familiar ter mudado, assim como alguma alteração das rotinas do dia-a-dia mas também porque as crianças, como seres em desenvolvimento que são, têm por vezes comportamentos desadequados apenas porque ainda estão a aprender a se comportarem.

Criança infelizAssim,  encha-se de paciência, de tolerância e não ceda a birras ou exigências. Não deixe que a separação seja um motivo para que o seu filho a/o manipule. As regras e o seu cumprimento são de grande importância para o seu filho, no presente e mais ainda no futuro. Não fique demasiado preocupada/o se o seu filho revelar reações de hostilidade, com frequência mais dirigidas ao progenitor com quem ficou a viver mais tempo. Ele poderá culpa-la/o de ser responsável pela separação e isso pode ser “normal” numa primeira fase. Dê ao seu filho tempo para aceitar a mudança. Se for possível, dedique alguns minutos por dia a conversar com o seu filho sobre o que se está a passar. Fale com ele sobre o que o preocupa ou assusta. Prepare-se para o aparecimento de alguns comportamentos regressivos (ex. falar “à bebé”, voltar a fazer xixi na cama, mau comportamento na escola, isolamento…). Se estes comportamentos persistirem, peça ajuda profissional.

Separação litigiosaGuarda partilhada? É fundamental que os pais pensem muito bem se este é o regime que beneficia a criança. Será benéfico para a sua criança mudar de casa todas as semanas? Como fazer em relação aos brinquedos, roupas, livros e à escola? Conseguem criar dois ambientes (casa da mãe e casa do pai) idênticos no que diz respeito a regras e rotinas? A guarda partilhada é uma solução cada vez mais com expressão em novos casos de divórcio, no entanto, a permanência numa casa fixa, com visitas semanais, quinzenais ou outras a combinar com o outro progenitor, poderá promover uma maior estabilidade emocional à criança. Pensem bem antes de decidir. Ponham sempre à frente o superior interesse da criança e nunca caia no erro de a utilizar para atingir o outro. Nunca se esqueça que os momentos que passa junto dos seus filhos devem ser de qualidade, muito mais do que em quantidade.

DivórciooNa escola, é essencial que a professora/educadora seja avisada das alterações que sofreu a vida familiar da criança. A sua colaboração nesta fase será de grande importância, principalmente no que se refere à capacidade de empatia e de a saber ouvir. Os professores devem ter em conta que o divórcio pode prejudicar o rendimento escolar da criança, além de poder estar associado à agressividade e a problemas relacionados com a concentração e a atenção. Peça-lhe para lhe comunicarem caso a criança altere significativamente os seus comportamentos após a separação dos pais. Se os comportamentos se tornarem desadequados e preocupantes, a ajuda da professora pode ser muito útil na avaliação da criança e na definição de estratégias de apoio.

SeparadosEstá muito zangada/o ou magoada/o com o seu ex-companheiro/a? Pois é, por vezes e principalmente numa fase inicial, pode ser muito difícil o relacionamento entre os elementos de ex-casais. Evite ao máximo discutir com o pai/mãe da sua criança  na sua presença. Seja antes, durante ou após o processo de separação, trocar argumentos e acusações na presença das crianças aumenta a sensação de conflito, gera confusão, sentimentos de culpa e de revolta nos mais pequenos. Procure que o processo de divórcio não seja demasiado prolongado. A separação pode causar muito sofrimento a uma criança mas ela certamente saberá ultrapassá-la, depois de um processo normal de luto, de duração variável, caso a caso.

Luto infantilNunca culpe a sua criança. É fundamental que a criança compreenda que os pais se separam porque já não se amam e porque já não querem viver juntos e não porque ela fez algo de errado. É fundamental que continue a transmitir ao seu filho o quanto o ama. Embora seja uma excelente companhia e ofereça um grande conforto, o seu filho não é o seu melhor amigo. Não confunda os papéis. Pai e mãe são isso mesmo, pai e mãe. Tornar-se uma espécie de melhor amigo da criança pode levar a graves problemas de autoridade no futuro. Por outro lado, evite transformar o pai/mãe numa figura ausente. Na infância, sentir que o pai/mãe é uma figura presente, mesmo não vivendo diariamente com a criança, sentir a sua proteção, vê-lo como modelo e referencia, e como alguém que estabelece regras e exerce a autoridade quando é necessário, é fundamental para que a criança cresça com estabilidade emocional e equilíbrio psicológico.

Para que serve o psicólogo?Quando as crianças ficam à guarda da mãe, o pai não deve delegar nestas, todas as funções associadas à educação da criança. Por outro lado, a mãe também não deve utilizar em seu benefício, o facto de lhe ser concedida a guarda da criança, optando muitas vezes por afastar o pai, manipulando informações em seu benefício e transformando-o num ser temido e ausente aos olhos do filho. A alienação parental é uma realidade muito preocupante e as grande vítimas deste flagelo são sem dúvida as crianças. Se a sua relação com o seu ex-companheiro/a é muito difícil, pode sempre recorrer à mediação familiar. Há psicólogos especializados nessa área, que podem dar um contributo muito importante para o bem-estar de todos os envolvidos num processo de separação.

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