Comportamentos auto lesivos e suicídio

Comportamentos auto lesivosNa adolescência, os comportamentos auto lesivos assumem uma grande relevância, estando associados a patologia psiquiátrica, podendo ser preditores de tentativas de suicídio no futuro.

Podemos entender por comportamentos auto lesivos (CAL), auto mutilação ou auto lesão não suicida, todos os comportamentos com resultado não letal, em que o sujeito se envolve deliberadamente, com o objectivo de causar dano a si mesmo mas sem a intenção de provocar a morte (ex. cortar-se, queimar-se, morder-se, saltar de alturas, ingerir medicamentos em dose excessiva…). Considera-se que hoje em dia, estes comportamentos na adolescência constituam um grave problema de saúde pública. Embora a investigação nesta área aponte Portugal como um dos países com menor taxa de prevalência desta problemática em relação a outros países da Europa, o facto é que mesmo assim, estes comportamentos são graves e relativamente frequentes durante a adolescência, principalmente em jovens do género feminino. Mais preocupante se torna, se acrescentarmos que cerca de 2/3 dos pais não têm conhecimento de que os seus filhos têm comportamentos de auto lesão. Entende-se por tentativa de suicídio, qualquer acto levado a cabo por um sujeito e que tem como objectivo a sua morte mas que por qualquer razão de diversas ordens e normalmente alheia à vontade do sujeito, acaba por não se concretizar. Já o suicídio consumado refere-se à morte provocada por uma acção levada a cabo pelo próprio sujeito, com a intenção de por fim à sua vida. Continue a ler “Comportamentos auto lesivos e suicídio”

Adolescência, sociedade, comunicação, Internet, dependência e prevenção

JovensA adolescência é uma construção cultural do século XIX. Antigamente as crianças eram vistas e tratadas como adultos em miniatura, não lhes sendo dada a atenção a que hoje em dia estão sujeitos. A vida era dividida em etapas que correspondiam a actividades e funções, não havendo uma diferenciação entre a infância e a adolescência.

A partir do século XVIII surge essa diferenciação, embora ainda houvesse alguma confusão entre os conceitos. No século XIX descobre-se a infância e no século XX define-se e privilegia-se a adolescência, que passa a ter novos valores e definições. No século XX, a adolescência vai-se expandindo e vai empurrando a infância para trás e o início da idade adulta e da maturidade, para a frente. É difícil determinar com exactidão a sua idade de início e a idade de término, no entanto, actualmente aponta-se para um espaço de tempo entre aproximadamente os 10 e os 25 anos. Pois é, parece que a adolescência começa realmente cada vez mais cedo e acaba cada vez mais tarde. O desenvolvimento fisiológico dá-se mais cedo com o aparecimento dos primeiros sinais pubertários mas o desenvolvimento cerebral e a sua maturação, dá-se bastante mais tarde, apenas por volta dos 24 anos. Assim, e com as devidas diferenças interpessoais, os jovens de hoje em dia, são adolescentes durante mais tempo. Continue a ler “Adolescência, sociedade, comunicação, Internet, dependência e prevenção”

Comunicar: falar e não só…

LinguagemNos seres humanos, a capacidade de comunicar através da fala é inata, sendo aperfeiçoada e utilizada ao longo do seu desenvolvimento.

A comunicação verbal pode revestir-se de diversas formas e alternativas de utilização. Podemos falar diferentes idiomas, o mesmo idioma com variantes de pronuncia, tons de voz diferentes, diferentes ritmos, enfim, dispomos de uma diversidade de modos de falar que normalmente adequamos a cada situação. O modo como cada um de nós comunica através da linguagem pode ser muito revelador da nossa personalidade, estado emocional, identidade pessoal e social, enfim, sobre aquilo que somos. Ao comunicarmos pela fala, podemos diversificar no vocabulário que usamos e podemos utilizar as palavras de diferentes formas. O discurso e as frases que formulamos podem ter diferentes intenções: perguntar, pedir, informar, declarar, etc. O sucesso da comunicação verbal depende muito da forma com que se transmite a mensagem. Existindo vários estilos de comunicação, entende-se como mais eficaz o estilo de comunicação assertiva, em que a mensagem é transmitida de forma clara, firme e directa, respeitando obviamente a posição, o ponto de vista e o entendimento do seu interlocutor. Continue a ler “Comunicar: falar e não só…”

Internalização e externalização

InternalizaçãoAs perturbações habitualmente designadas de internalização ou de externalização, constituem um tipo específico de problema emocional e comportamental, que se manifestam em qualquer idade e com características bastante diversificadas.

As perturbações de internalização manifestam-se quando o sujeito tenta manter um controlo desajustado do seu estado emocional interno, utilizando para tal somente estratégias internas. Estas perturbações derivam da convergência de factores biológicos (ex. défice nos neurotransmissores), familiares (ex. conflitos conjugais ou parentais), acontecimentos de vida (ex.. morte de um familiar significativo, perda de capacidades físicas), factores cognitivos (ex. crenças erróneas) e factores comportamentais (ex. isolamento social). Podemos identificar vários tipos de perturbações de internalização, nomeadamente a depressão, a ansiedade, a somatização e a fobia social. Continue a ler “Internalização e externalização”

Luto infantil

LutoO luto é uma reacção emocional a uma perda significativa e constitui-se como um processo natural de recuperação emocional, face a essa mesma perda. O processo de luto pode ter vários determinantes, como a morte de um ente querido, o final de um relacionamento, a perda do emprego, a perda de capacidades decorrentes de uma situação de doença ou acidente, a perda de um animal doméstico, entre muitas outras perdas, que cada um de nós poderá eleger.

Se para os adultos o luto é um processo difícil, por vezes muito demorado e doloroso podendo mesmo tornar-se patológico, para as crianças, podemos ter a tendência de pensar que elas não entendem nem sofrem do mesmo modo que os adultos, o impacto causado por uma perda. Podemos também acreditar, que desde que as suas necessidades sejam supridas e as rotinas do seu quotidiano sejam mantidas, as crianças facilmente esquecerão quem perderam ou o que perderam. Um dos erros em que podemos cair enquanto adultos é pensar que as crianças não vivem o luto, devido à sua imaturidade psicológica, por não compreenderem o conceito de reversibilidade. Este pensamento pode levar a que por vezes o tema da morte não seja discutido com as crianças, por se acreditar que elas não o vão compreender ou porque lhes pode ser prejudicial. Porém, na realidade, as crianças em qualquer idade fazem luto. O nível do desenvolvimento e as experiências individuais da criança é que diferem no processo de luto. Continue a ler “Luto infantil”

Perturbação de Oposição e Desafio: O que fazer?

ComportamentosA Perturbação de Oposição e Desafio (POD) é uma patologia com elevada prevalência em idade pediátrica e que tem consequências potencialmente comprometedoras para a criança/adolescente e para a sociedade. Caracteriza-se basicamente por um padrão recorrente e persistente de comportamentos negativos, desafiantes, desobedientes, vingativos e hostis, que se revelam particularmente perante as figuras de autoridade.

Perante um diagnóstico de POD, muitos pais ou cuidadores, já exaustos de tentarem levar a bom porto a tarefa árdua que é educar aquela criança, vêm no psicólogo o último recurso para que se dê o milagre tão desejado de a corrigir e de tornar pacifica a sua convivência nos diversos contextos em que se inclui, especialmente na família. Cabe-me desde já alertar os mais expectantes de que não existem soluções fáceis nem radicais ou milagrosas para ajudar a lidar com as dificuldades apresentadas por estas crianças/adolescentes e seus pais, cuidadores e pessoas mais próximas. No entanto, há muito que se pode fazer no sentido de melhorar as relações familiares e as relações da criança com os pares. Na base dessa melhoria relacional está a modificação do comportamento da criança, em particular o controlo dos seus impulsos. Para isso, um dos fatores de maior importância para o sucesso nesta difícil tarefa é a precocidade com que o problema é identificado e a intervenção é iniciada. Quanto mais cedo a criança for avaliada e quanto mais cedo se der inicio à intervenção terapêutica maior será a probabilidade de se obterem bons resultados. Continue a ler “Perturbação de Oposição e Desafio: O que fazer?”

Divórcio e avaliação das competências parentais

Responsabilidade parentalNuma situação de separação ou divórcio litigioso, o tribunal pode solicitar ao psicólogo, uma avaliação psicológica dos pais, com o objectivo de avaliar as suas competências e capacidades parentais, sempre que estejam em causa filhos menores.

O processo de avaliação visa obter informação sobre a personalidade dos pais, sobre os níveis de adaptação familiar, social e emocional e, sobretudo, compreender a capacidade dos mesmos no que concerne ao cuidar e educar os seus filhos. Esta avaliação deverá sempre levar em consideração o contexto familiar mais alargado, assim como as questões ligadas com o exercício de uma parentalidade adequada e responsável, no sentido de proteger a criança e garantir o seu adequado desenvolvimento. A decisão do tribunal acerca da custódia da criança, ou de eventuais restrições, irá ser fundamentada com base na avaliação efectuada aos pais, sobre as suas capacidades e competências enquanto cuidadores daquela criança, cujo superior interesse e bem-estar psicológico deverão ser sempre salvaguardados. Continue a ler “Divórcio e avaliação das competências parentais”

Obesidade infantil e juvenil

excesso de pesoSegundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o problema da obesidade é um dos maiores desafios para a saúde pública deste século. Nos últimos vinte anos e de um modo mais ou menos global, as taxas de obesidade em crianças e adolescentes aumentaram significativamente. Dados recentes da Associação Portuguesa contra a Obesidade Infantil (APCOI) revelam que, mais de 30% das crianças e adolescentes portugueses têm excesso de peso ou são obesos.

A obesidade infantil e juvenil constitui-se como um factor de risco para o desenvolvimento de outras patologias, como por exemplo a diabetes e as doenças cardiovasculares. Também a saúde psicológica dessas crianças/adolescentes pode ser afectada pela sua vivência com o excesso de peso. A baixa autoestima e autoconfiança, a dificuldade em lidar com a sua imagem corporal e o estigma social que leva por vezes a situações de discriminação, podem conduzir ao desenvolvimento de sintomatologia depressiva ou ansiosa. Estes estados, para além de interferirem com o bem-estar da criança/adolescente,  se não forem tratados, poderão agravar-se e prolongar-se pela idade adulta. O sofrimento psicológico experimentado por algumas destas crianças/adolescentes pode afectar de forma negativa o seu rendimento escolar e as suas relações sociais, levando por vezes ao isolamento, o que faz com que percam algumas experiências associadas a um saudável desenvolvimento mental. Neste contexto, o papel do psicólogo pode fazer a diferença. Continue a ler “Obesidade infantil e juvenil”

Perturbações de Ansiedade: Um cardápio diversificado (2)

Perturbação de Ansiedade

De volta ao tema da ansiedade e dos medos, descrevo de seguida alguns subtipos da Perturbação de Ansiedade. A diversidade é de facto considerável e muitos indivíduos apresentam critérios de diagnóstico para vários tipos de perturbação em simultâneo, ao mesmo tempo que também é frequente encontrar sujeitos com problemas de ansiedade a par com outros quadros clínicos do foro da saúde mental, como por exemplo a Depressão ou a Perturbação Obsessivo-compulsiva. Intervir é preciso!

A Perturbação de Pânico caracteriza-se pelo medo e desconforto físico intensos que se associam habitualmente à possibilidade de morte ou de perda do controlo sobre si mesmo. Em presença desta perturbação, os ataques de pânico ocorrem inesperada e recorrentemente. Correspondem a um período abrupto e intenso de medo que atinge o seu pico em poucos minutos e que pode ocorrer tanto a partir de um estado de tranquilidade como de ansiedade. Entre os sintomas podemos incluir a aceleração do ritmo cardíaco, palpitações, suores, tremores, sensação de falta de ar ou de dificuldade em respirar, dor no peito, mal-estar abdominal, sensação de tontura ou desmaio, medo de perder o controlo e medo de morrer. Para ser considerado um ataque de pânico, deverão estar presentes pelo menos 4 dos referidos sintomas. Continue a ler “Perturbações de Ansiedade: Um cardápio diversificado (2)”

Perturbações de Ansiedade: Um cardápio diversificado (1)

Ansiedade e medoAs Perturbações de Ansiedade são problemáticas muito prevalentes na sociedade atual, principalmente entre as crianças e os adolescentes. E o que é afinal uma Perturbação de Ansiedade? As Perturbações de Ansiedade referem-se a perturbações que têm em comum características de medo e ansiedade persistentes e excessivos e todas as alterações do comportamento com eles relacionadas.

Ter medo é normal e é a resposta emocional a uma situação de ameaça real ou percebida. Sentir ansiedade refere-se à antecipação de uma ameaça futura e à sobrestimação do perigo dessa situação, habitualmente desproporcionado. De certa forma o medo e a ansiedade sobrepõem-se, no entanto, o medo associa-se mais vezes a situações de picos de excitação automática, necessária à luta ou fuga, pensamentos de perigo eminente e comportamentos de evitamento. A Ansiedade, por sua vez, associa-se mais a tensão muscular e estados de vigília preparatória para se enfrentar perigos futuros, caracterizando-se por comportamentos cautelosos e de evitamento. Continue a ler “Perturbações de Ansiedade: Um cardápio diversificado (1)”