Desenvolvimento da personalidade e construção da carreira

Psicologia do trabalhoPode dizer-se que a carreira é o percurso profissional que o indivíduo vai construindo ao longo da vida. Mas como é que temos consciência desse percurso? Como nos desenvolvemos de modo a fazer escolhas e a tomar decisões? Porque é que muitas vezes a profissão que desejávamos em crianças não é aquela que escolhemos em adultos?

Eric Erickson, psiquiatra e psicanalista alemão nascido no início do século XX e seguidor da teoria Freudiana por influência do seu contacto com Anna Freud, foi o responsável pela elaboração da Teoria Psicossocial do Desenvolvimento da Personalidade que é constituída por oito fases ou estádios. Estas fases caracterizam-se por crises que constituem o ponto de viragem entre cada uma delas e que, se por um lado podem aumentar a vulnerabilidade do indivíduo, por outro lado, podem também aumentar o seu potencial e dar origem a uma força básica que vai permitir a evolução para a fase seguinte.

Trabalho e carreiraDas oito fases descritas por Eric Erickson, a primeira tem início no nascimento e vai até cerca dos 12-18 meses. Corresponde a uma dualidade entre confiança  vs desconfiança, isto é, a criança adquire ou não confiança em relação a si mesma e ao meio ambiente, com base no seu relacionamento com a mãe ou com a figura de vinculação que a possa substituir. A segunda fase, caracterizada por autonomia vs vergonha, vai até cerca dos 3 anos e é uma luta entre a vontade própria e as regras sociais. A criança explora o seu próprio corpo e o mundo que a rodeia de uma forma autónoma, o que a pode conduzir a um sentimento de vergonha, ou pelo contrário, ir adquirindo autonomia. Entre os 3 e os 6 anos, situa-se a terceira fase, que segundo o mesmo autor se caracteriza pelo binómio iniciativa vs culpa. É como que um prolongamento da fase anterior mas com a diferença que agora a criança já sabe distinguir o que deve ou não deve fazer, e as suas iniciativas podem por vezes conduzi-la à culpa. A quarta fase decorre desde o início da idade escolar até à adolescência e tem como palavras-chave indústria vs inferioridade. A criança sabe que já é capaz de fazer e de agir, ao mesmo tempo que, se tiver havido uma falha nas fases anteriores no que diz respeito à confiança, autonomia e iniciativa, a criança pode sentir-se inferior e insegura.

Carreira e trabalhoA adolescência, período compreendido entre os 12 e aproximadamente os 20 anos, corresponde à quinta fase do desenvolvimento, caracterizada por identidade vs confusão da identidade. Aqui o jovem adquire uma identidade psicológica e social e toma consciência da sua singularidade. Segundo Erickson, a busca da identidade é o foco central desta fase. Assim, os jovens devem afirmar e organizar as suas capacidades, interesses e vontades, manifestando-as socialmente. A falta de apoio ou perda de laços sociais e afetivos, podem conduzir à confusão da identidade. A sexta fase do desenvolvimento da personalidade situa-se entre os 20 e os 35 anos aproximadamente e traduz-se por intimidade vs isolamento, pois é no decorrer desta fase que o indivíduo procura estabelecer relações afetivas duráveis e, a não concretização destas relações de intimidade pode levar ao isolamento. Dos 35 aos 60 anos ocorre a sétima fase, caracterizada por generatividade vs estagnação. É uma fase de afirmação pessoal em termos familiares, sociais e profissionais. A não realização em qualquer um destes campos pode conduzir o sujeito à estagnação, o que leva a que este se ocupe apenas de si próprio, revelando uma atitude egoísta em relação às gerações seguintes. A oitava e última fase corresponde à fase da integridade vs desespero e ocorre a partir dos 60 anos. Assinala um balanço do percurso de vida, que tanto pode ser positivo, se o indivíduo se sentir realizado e preenchido – integridade, ou pelo contrário, negativo, no caso deste sentir que fracassou nos aspetos sociais, físicos ou mesmo cognitivos – desespero.

Psicologia das organizaçõesParalelamente ao desenvolvimento da personalidade, dá-se também no indivíduo o desenvolvimento em termos de carreira. Uma das personalidades que mais terá contribuído para a teoria do desenvolvimento de carreira foi Donald Super, através da ênfase que dá à importância do autoconceito. Segundo o seu modelo, o autoconceito (modo como a pessoa se vê a si própria) varia ao longo da vida e desenvolve-se como resultado da experiência do indivíduo. Este modelo, representado em forma de arco íris, é constituído por uma dimensão latitudinal, que engloba os vários papéis que o indivíduo desempenha e uma dimensão longitudinal que se caracteriza pela sequência pela qual esses papéis se vão desenvolvendo, desde a infância até à velhice. Também aqui o indivíduo passa por sucessivas fases, cada uma com as suas particularidades em que se depara com tarefas de desenvolvimento. Estas fases são o crescimento que vai desde o nascimento até cerca dos 14 anos, seguida da fase da exploração que ocorre entre os 15 e os 24 anos, onde o jovem explora o sistema escolar e o tipo de profissão que gostaria de vir a ter e faz a sua escolha. Já na idade adulta, entre os 25 e os 44 anos o indivíduo chega à fase do estabelecimento, marcada pelo início da atividade profissional. Procura estabilidade e segurança de modo a estabelecer o seu próprio estilo de vida como reflexo da sua autonomia financeira. Segue-se a fase de manutenção, entre os 45 e os 64 anos e que compreende conceitos como, manter, atualizar e inovar cuja intenção é a de manter o nível de vida, atualizar-se em relação às novas tecnologias e marcar a diferença profissionalmente sendo inovador e criativo. A última fase é a do declínio, depois dos 65 anos e que se caracteriza essencialmente pela preparação para a reforma.

Psicologia do trabalhoA carreira faz parte da história de vida e o planeamento da carreira começa muitas vezes ainda em criança quando por observação de modelos ou por influência direta dos mesmos, nos posicionamos de acordo com um determinado objetivo. Uma carreira profissional, é algo em que, à partida, vamos ocupar o nosso tempo durante muitos anos, é o que nos vai preencher os dias e é também o que nos vai dar a possibilidade de atingir um determinado estatuto socioeconómico. O planeamento do nosso futuro profissional exige algum cuidado e atenção e na minha opinião exige ainda, em muitos casos uma orientação vocacional na medida em que as escolhas começam a ser feitas muito cedo, na adolescência, que é uma fase em que a maioria dos jovens têm muito poucas certezas. Crescemos com sonhos, com objetivos e por muitas voltas que a vida nos faça dar, se formos determinados e persistentes mais cedo ou mais tarde faremos esforços para os concretizar. O importante é que possamos ir somando sucessos, numa carreira bem construída e na certeza de que se fizermos o que gostamos a nossa vida será muito mais feliz.

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Fontes:

Erikson, E. H. (1980). Identity and the life cycle. New York: Norton & Company.

Sacino, M. (2005) Listen to My Story! Identifying Patterns and Purpose in Career Counseling.

Super, D. E. (1990). The life span, life space approach to career development. Em D. Brown & L. Brooks (Orgs.), Career Choice and Development (2ª ed., pp.197-261): San Francisco: Jossey-Bass.

Autismo: doença ou condição?

AutismoSegundo o Manual de Diagnóstico e Estatística (DSM-5), as Perturbações do Espectro do Autismo incluem-se no quadro das Perturbações do Neurodesenvolvimento, que tipicamente se manifestam durante o período pré-escolar e que se caracterizam por défices do desenvolvimento que condicionam o funcionamento a nível pessoal, social, escolar e ocupacional. Estas dificuldades diferem consoante o nível da perturbação e podem variar desde limitações muito específicas na aprendizagem ou no controlo das funções executivas, até aos défices globais da inteligência ou das competências sociais.

Especificamente, as Perturbações do Espectro do Autismo caracterizam-se por défices persistentes na comunicação e interacção social, transversais a vários contextos de vida da criança, que se manifestam habitualmente por dificuldades na reciprocidade social-emocional (ex. partilha reduzida de interesses), nos comportamentos comunicativos não-verbais (ex. falha do contacto ocular) e dificuldade em iniciar e manter relacionamentos (ex. ausência de interesse nos pares). Esta condição caracteriza-se também por padrões de comportamento restritos e repetitivos de interesses e actividades, e que se podem manifestar por exemplo, por movimentos motores estereotipados e repetitivos, inflexibilidade para a alteração de rotinas, dificuldade de adaptação às mudanças, interesses altamente intensos, restritos e fixos e reactividade nula ou excessiva a estímulos sensoriais (sons, cheiros, luzes…). A gravidade da perturbação baseia-se nas deficiências na comunicação social e nos padrões de comportamento.

AspergerOs sintomas deverão estar presentes no início do período do desenvolvimento da criança, podendo não ser de fácil identificação até que as exigências sociais excedam as suas capacidades limitadas e deverão causar um prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social ou ocupacional do indivíduo. Podemos encontrar 3 níveis de gravidade, dentro deste tipo de perturbações. O nível 1 caracteriza-se por défices na comunicação social que causam prejuízos visíveis, como a dificuldade em iniciar interacções sociais, respostas atípicas às interacções dos outros e aparente falta de interesse nessas mesmas interacções que se reflecte principalmente na dificuldade em fazer amigos. Também a inflexibilidade do comportamento causa interferência significativa no funcionamento da criança, em pelo menos um dos contextos (ex. escola). O nível 2 da perturbação pressupõe défices marcados nas competências verbais e não-verbais de comunicação social, limitações em relacionamentos sociais, respostas reduzidas ou atípicas às tentativas de interacção dos outros e comunicação não-verbal marcadamente estranha. Este nível caracteriza-se ainda pela dificuldade e angustia em lidar com a mudança de foco ou de actividade. No nível 3 da perturbação os indivíduos revelam graves e acentuados défices na comunicação quer verbal, quer não-verbal, manifesta por exemplo por apenas conseguirem dizer muito poucas palavras de forma perceptível e por as suas interacções sociais serem muito raras e incomuns. A dificuldade em lidar com a mudança e com a imprevisibilidade é extrema, e a mudança de foco ou de acção provoca enorme angustia e dificuldade, expressa por vezes por extrema reactividade.

AutismoPode dizer-se que as pessoas que vivem no nível 1 desta condição, também descrito como Sindrome de Asperger, percebem o mundo e interagem com as outras pessoas de um modo diferente. O seu funcionamento neurocognitivo é diferente e por isso o seu comportamento também é diferente. No entanto, o seu rendimento intelectual encontra-se habitualmente num nível médio, podendo em alguns casos estar mesmo acima da média. Porém, também é muito comum, apresentarem dificuldades específicas de aprendizagem, necessitando de apoio psicopedagógico especializado. Os indivíduos com Síndrome de Asperger têm dificuldade em ler e interpretar as outras pessoas e em reconhecer ou compreender os sentimentos, emoções e as suas intenções. Do mesmo modo têm dificuldade em expressar as suas próprias emoções, tornando-se muito difícil a interacção social. O mundo pode parecer um lugar muito confuso e cheio de imprevistos com os quais é difícil lidarem. Preferem ter uma rotina diária bem estruturada e rígida, para que saibam exactamente o que lhes vai acontecer em cada dia. O uso de regras também é muito importante, porém, pode ser difícil para alguém com Síndrome de Asperger ter uma abordagem diferente para uma única situação. Uma vez que aprendem determinada regra relacionada uma situação, é para eles complicado assumir outra forma de lidar com a mesma situação mas em contextos em que seja suposto agir de forma diferente. Estes indivíduos têm habitualmente interesses intensos e altamente focados, por vezes desde uma idade muito precoce. Estes interesses podem mudar ao longo do tempo ou manter-se ao longo do ciclo de vida e entre os mais comuns encontram-se por exemplo,  o desenho, a pintura, a música, o interesse por automóveis e computadores, ou até mesmo o interesse pelos estudos.

AutistaAs Perturbações do Espectro do Autismo não são doenças e não têm cura mas as pessoas que se encontram nesta condição, poderão ser apoiadas tendo em vista o aumento das suas competências sociais e a sua melhor adaptação aos diversos contextos de vida, para que possam ser mais felizes. Assim, a intervenção psicológica orientada para os aspectos comportamentais e para o ensino e treino de competências sociais pode ser benéfica. Os diversos aspectos da linguagem, da postura, da comunicação e da socialização, podem ser melhorados bem como a capacidade de reconhecer os seus próprios sentimentos e emoções, assim como as dos outros, no sentido do desenvolvimento da empatia.

Embora não existam medicamentos específicos para se tratar esta perturbação, em alguns casos, a utilização de fármacos para a ansiedade, depressão ou para a perturbação de hiperactividade, pode trazer benefícios. Por outro lado, a atenção, carinho e compreensão, por parte de familiares, amigos, professores e todos os elementos presentes nos diversos contextos de vida da criança, assim como a informação acerca da perturbação e de como lidar com ela, pode ser uma enorme mais-valia para se lidar com as dificuldades decorrentes desta condição. A título de curiosidade, destaco algumas personalidades que foram identificadas como portadoras do Síndrome de Asperger e que se destacaram pelas melhores razões: Einstein, Steven Spielberg, Bill Gates e Lionel Messi.

Autismo

 

 

Fonte: DSM-V – Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (Quinta edição) de American Pshychiatric Association.

 

Bulimia nervosa: atenção aos sinais!

Perturbações do comportamento alimentarA bulimia nervosa é uma perturbação do comportamento alimentar potencialmente grave e que se caracteriza pela ingestão oculta de grandes quantidades de comida, seguida da indução do vómito, ou numa outra forma, pela ingestão excessiva de calorias compensada por níveis demasiado intensivos de exercício físico ou pela utilização de diuréticos e laxantes.

Esta perturbação caracteriza-se pela ingestão alimentar compulsiva, como por exemplo, comer num período de tempo de duas horas, uma quantidade de alimentos, sem dúvida superior àquela que a maioria das pessoas conseguiria ou necessitaria de comer, no mesmo período de tempo. Por outro lado, a bulimia nervosa caracteriza-se também pela compensação excessiva e inapropriada, através de exercício físico, indução do vómito ou toma de laxantes, no sentido de diminuir os efeitos da ingestão desmedida de alimentos. Do mesmo modo, há uma sensação de descontrolo sob o acto de comer ou a incapacidade de parar, durante o acto compulsivo de ingestão alimentar. Estes comportamentos desadequados deverão verificar-se pelo menos uma vez por semana e durante um período de três meses, para que se possa apontar para um diagnóstico de bulimia nervosa.

Bulimia nervosaA prevalência desta perturbação do comportamento alimentar em mulheres jovens é de cerca de 1% e apresenta um pico no final da adolescência e início da idade adulta. Nos homens pouco se sabe acerca desta patologia mas sabe-se que é muito menos comum do que nas mulheres. O início da perturbação acontece habitualmente no final da adolescência ou início da idade adulta, sendo o seu início anterior à puberdade ou depois dos 40 anos, muito raro. É frequente que os comportamentos de ingestão compulsiva comecem durante ou após uma dieta de emagrecimento. Um dos fatores que podem precipitar esta situação, são os acontecimentos de vida marcantes e negativos. Numa grande maioria dos casos clínicos, esta perturbação mantem-se por vários anos, num curso crónico ou intermitente, ou seja, períodos de remissão alternados com períodos de ingestão compulsiva.

Comportamento alimentarAssociado a esta perturbação está o risco de suicídio, ou seja, em indivíduos com bulimia nervosa, a taxa de suicídio é de aproximadamente 2%, sendo particularmente importante a avaliação e despiste de ideação suicida e de comportamentos suicidários nestas pacientes. Cerca de 10 a 15% dos casos de bulimia nervosa evoluem para um quadro de anorexia nervosa e estes indivíduos tendem a oscilar entre períodos de bulimia e anorexia, tornando por vezes o diagnóstico difícil de definir e algumas vezes passam para um diagnóstico de perturbação de ingestão alimentar compulsiva ou para uma perturbação do comportamento sem outra especificação. Os indivíduos bulímicos podem apresentar grandes limitações funcionais, particularmente no que diz respeito ás relações sociais.

Bulimia nervosaOs fatores de risco para a bulimia nervosa são múltiplos, nomeadamente temperamentais, ambientais, genéticos e fisiológicos. No que diz respeito aos fatores temperamentais, destacam-se a baixa autoestima, a sintomatologia depressiva, preocupações com o peso e problemas de ansiedade. Em relação aos fatores ambientais, sabe-se que a internalização de um corpo magro ideal ou histórias de abuso físico ou sexual na infância, podem aumentar o risco do desenvolvimento de bulimia nervosa. A obesidade infantil e a maturação pubertária precoce, podem também constituir-se como fator de risco para o desenvolvimento desta perturbação, assim como a vulnerabilidade genética e a existência prévia de casos em familiares.

Comportamento alimentarEm termos de prevenção, destaca-se a manutenção de hábitos de vida saudáveis e a identificação precoce de qualquer sinal de perturbação alimentar. Nos casos em que a perturbação se começa a manifestar mais precocemente, o acompanhamento pediátrico regular, pode permitir a identificação de distúrbios alimentares logo que estes se manifestem. A manutenção de uma boa autoestima e o desenvolvimento de uma adequada perceção da autoimagem, mediada e modelada pelos pais e adultos significativos, desempenham um importante papel na prevenção das perturbações alimentares. Em termos de tratamento, a bulimia nervosa pode necessitar de uma intervenção farmacológica (e. g. antidepressivos), combinada com acompanhamento nutricional e psicológico. O envolvimento da família e dos amigos nestes casos é fundamental para o sucesso da intervenção. Em casos de extrema gravidade pode ser necessária a hospitalização.

As perturbações do comportamento alimentar são muito graves e preocupantes, no entanto, com o apoio certo e no momento certo, tudo se ultrapassa, tudo se resolve!

Não deixe de pedir ajuda.

 

Fonte: DSM-V – Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (Quinta edição) de American Pshychiatric Association

Psicologia clínica pediátrica: na saúde e na doença

Psicologia da DoençaQuando a criança sofre de uma condição fisiológica, principalmente se se tratar de uma doença crónica, como por exemplo a diabetes, a intervenção psicológica pode ser uma mais-valia, quer na aceitação do diagnóstico, quer na adaptação à doença e no desenvolvimento de estratégias para lidar com a mesma. Do mesmo modo, a intervenção psicológica pode promover a prevenção de doenças, como por exemplo a obesidade, educando para a saúde, no sentido de promover um desenvolvimento saudável da criança.

Uma criança doente é uma criança normal numa situação anormal, situação esta que pode potenciar emoções e comportamentos perturbados, como pode também alterar as rotinas esperadas da criança em determinada etapa do desenvolvimento. Pode no entanto, tornar-se numa experiência positiva em termos de aprendizagem de estratégias e formas de confronto, que poderão vir a ser utilizadas em situações de vida futuras. Habitualmente, a intervenção psicológica em contexto de doença física, é realizada num tempo relativamente curto e com objectivos muito concretos e pré-definidos, com recurso a metodologias de abordagem comportamental e cognitiva, orientadas para o objectivo. A intervenção deverá abranger não apenas a criança doente mas também os pais ou cuidadores, bem como alguns constituintes do contexto em que a criança se desenvolve, como por exemplo, os professores/educadores. Continue a ler “Psicologia clínica pediátrica: na saúde e na doença” →

Comportamentos auto lesivos e suicídio

Comportamentos auto lesivosNa adolescência, os comportamentos auto lesivos assumem uma grande relevância, estando associados a patologia psiquiátrica, podendo ser preditores de tentativas de suicídio no futuro.

Podemos entender por comportamentos auto lesivos (CAL), auto mutilação ou auto lesão não suicida, todos os comportamentos com resultado não letal, em que o sujeito se envolve deliberadamente, com o objectivo de causar dano a si mesmo mas sem a intenção de provocar a morte (ex. cortar-se, queimar-se, morder-se, saltar de alturas, ingerir medicamentos em dose excessiva…). Considera-se que hoje em dia, estes comportamentos na adolescência constituam um grave problema de saúde pública. Embora a investigação nesta área aponte Portugal como um dos países com menor taxa de prevalência desta problemática em relação a outros países da Europa, o facto é que mesmo assim, estes comportamentos são graves e relativamente frequentes durante a adolescência, principalmente em jovens do género feminino. Mais preocupante se torna, se acrescentarmos que cerca de 2/3 dos pais não têm conhecimento de que os seus filhos têm comportamentos de auto lesão. Entende-se por tentativa de suicídio, qualquer acto levado a cabo por um sujeito e que tem como objectivo a sua morte mas que por qualquer razão de diversas ordens e normalmente alheia à vontade do sujeito, acaba por não se concretizar. Já o suicídio consumado refere-se à morte provocada por uma acção levada a cabo pelo próprio sujeito, com a intenção de por fim à sua vida. Continue a ler “Comportamentos auto lesivos e suicídio” →

Divórcio e avaliação das competências parentais

Responsabilidade parentalNuma situação de separação ou divórcio litigioso, o tribunal pode solicitar ao psicólogo, uma avaliação psicológica dos pais, com o objectivo de avaliar as suas competências e capacidades parentais, sempre que estejam em causa filhos menores.

O processo de avaliação visa obter informação sobre a personalidade dos pais, sobre os níveis de adaptação familiar, social e emocional e, sobretudo, compreender a capacidade dos mesmos no que concerne ao cuidar e educar os seus filhos. Esta avaliação deverá sempre levar em consideração o contexto familiar mais alargado, assim como as questões ligadas com o exercício de uma parentalidade adequada e responsável, no sentido de proteger a criança e garantir o seu adequado desenvolvimento. A decisão do tribunal acerca da custódia da criança, ou de eventuais restrições, irá ser fundamentada com base na avaliação efectuada aos pais, sobre as suas capacidades e competências enquanto cuidadores daquela criança, cujo superior interesse e bem-estar psicológico deverão ser sempre salvaguardados. Continue a ler “Divórcio e avaliação das competências parentais” →

Obesidade infantil e juvenil

excesso de pesoSegundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o problema da obesidade é um dos maiores desafios para a saúde pública deste século. Nos últimos vinte anos e de um modo mais ou menos global, as taxas de obesidade em crianças e adolescentes aumentaram significativamente. Dados recentes da Associação Portuguesa contra a Obesidade Infantil (APCOI) revelam que, mais de 30% das crianças e adolescentes portugueses têm excesso de peso ou são obesos.

A obesidade infantil e juvenil constitui-se como um factor de risco para o desenvolvimento de outras patologias, como por exemplo a diabetes e as doenças cardiovasculares. Também a saúde psicológica dessas crianças/adolescentes pode ser afectada pela sua vivência com o excesso de peso. A baixa autoestima e autoconfiança, a dificuldade em lidar com a sua imagem corporal e o estigma social que leva por vezes a situações de discriminação, podem conduzir ao desenvolvimento de sintomatologia depressiva ou ansiosa. Estes estados, para além de interferirem com o bem-estar da criança/adolescente,  se não forem tratados, poderão agravar-se e prolongar-se pela idade adulta. O sofrimento psicológico experimentado por algumas destas crianças/adolescentes pode afectar de forma negativa o seu rendimento escolar e as suas relações sociais, levando por vezes ao isolamento, o que faz com que percam algumas experiências associadas a um saudável desenvolvimento mental. Neste contexto, o papel do psicólogo pode fazer a diferença. Continue a ler “Obesidade infantil e juvenil” →

Perturbações de Ansiedade: Um cardápio diversificado (2)

Perturbação de Ansiedade

De volta ao tema da ansiedade e dos medos, descrevo de seguida alguns subtipos da Perturbação de Ansiedade. A diversidade é de facto considerável e muitos indivíduos apresentam critérios de diagnóstico para vários tipos de perturbação em simultâneo, ao mesmo tempo que também é frequente encontrar sujeitos com problemas de ansiedade a par com outros quadros clínicos do foro da saúde mental, como por exemplo a Depressão ou a Perturbação Obsessivo-compulsiva. Intervir é preciso!

A Perturbação de Pânico caracteriza-se pelo medo e desconforto físico intensos que se associam habitualmente à possibilidade de morte ou de perda do controlo sobre si mesmo. Em presença desta perturbação, os ataques de pânico ocorrem inesperada e recorrentemente. Correspondem a um período abrupto e intenso de medo que atinge o seu pico em poucos minutos e que pode ocorrer tanto a partir de um estado de tranquilidade como de ansiedade. Entre os sintomas podemos incluir a aceleração do ritmo cardíaco, palpitações, suores, tremores, sensação de falta de ar ou de dificuldade em respirar, dor no peito, mal-estar abdominal, sensação de tontura ou desmaio, medo de perder o controlo e medo de morrer. Para ser considerado um ataque de pânico, deverão estar presentes pelo menos 4 dos referidos sintomas. Continue a ler “Perturbações de Ansiedade: Um cardápio diversificado (2)” →

Anorexia nervosa

Perturbações alimentares

A Anorexia Nervosa é uma das perturbações do comportamento alimentar mais comuns. Trata-se de uma patologia psiquiátrica com três características essenciais: restrição persistente do consumo de energia (alimentos), medo intenso de ganhar peso ou comportamentos persistentes que interferem com o ganho de peso (vómito) e perturbação da percepção do seu próprio peso ou imagem corporal.

O Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-5) insere-a nas perturbações da alimentação e da ingestão e define como critérios de diagnóstico, a restrição do consumo de energia relativamente às necessidades que conduz a um peso significativamente baixo para a idade, sexo, trajectória do desenvolvimento e saúde física; o medo de engordar e ganhar peso e os comportamentos persistentes que interferem com o ganho de peso, mesmo quando este já é significativamente baixo. Constitui-se ainda como critério de diagnóstico, a perturbação na própria apreciação do peso ou do aspecto e forma corporal, bem como a ausência do reconhecimento da gravidade do peso actual. Continue a ler “Anorexia nervosa” →

1ªs Jornadas de Comportamentos Aditivos: Alcool, Tabaco e Internet

Alcool tabaco jogos

Tiveram lugar pela primeira vez no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, as Jornadas dos Comportamentos Aditivos, que contaram com a participação, como oradores, de profissionais da área da saúde mental, nomeadamente médicos, psiquiatras, psicólogos e enfermeiros, entre outros. O evento foi da máxima importância uma vez que abordou temas muito actuais – álcool, tabaco e internet – focando-se nas várias dimensões de uma problemática com um indiscutível impacto negativo, no indivíduo, nas famílias e na sociedade, que é a adição.

Deixo aqui um resumo dos temas apresentados e debatidos, que embora incompleto devido à quantidade das comunicações e especificidades das mesmas, tem como objectivo despertar a consciência dos meus leitores, no sentido da reflexão e porventura da procura de mais informação sobre o tema. Para isso deixo no final algumas referências, de publicações que serviram de base para a informação abaixo descrita e/ou complementar à informação apresentada. Continue a ler “1ªs Jornadas de Comportamentos Aditivos: Alcool, Tabaco e Internet” →