Confinamento, culinária e excesso de peso

Nestes tempos de pandemia, o confinamento em casa parece ter despertado em algumas pessoas um cozinheiro/pasteleiro, anteriormente adormecido. As redes sociais dão notícia de belos petiscos, grandes cozinhados, soberbos bolos e fantásticas sobremesas que saem das mãos daqueles que se encontram em casa e que utilizam a culinária como estratégia de distração e de ocupação de algum tempo que agora lhes sobra.

Mas se por um lado, explorar os dotes culinários pode ser uma excelente forma de ultrapassar esta fase tão difícil para todos nós, por outro lado, e, aliado a um decréscimo na atividade física, está o perigo de engordar! É sabido que o excesso de peso se constitui como um fator de risco para o aparecimento de doenças, nomeadamente doenças cardiovasculares. Por outro lado, também é do conhecimento geral, que muitas vezes se compensam com a ingestão de comida, alguns défices socio-emocionais como a falta de abraços, beijinhos, convívio com familiares e amigos, enfim, a ausência de partilha dos afetos. Do mesmo modo, o medo do que não se sabe estar para vir e a ansiedade causada quer pelas notícias, quer pelo facto de as rotinas e hábitos terem sido completamente alterados, é muitas vezes compensada com “comida de conforto”, expressão que habitualmente designa alimentos altamente calóricos e docinhos…

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As minhas crianças estão muito preocupadas com o Covid-19!

De há um tempo a esta parte fui recebendo mensagens de pais que me questionavam sobre se seria normal a preocupação excessiva que algumas das suas crianças manifestavam acerca do Coronavírus. De facto o assunto tornou-se uma preocupação generalizada e os números de infetados, quer a nível nacional como internacional são muito significativos, tendo conduzido a esta situação de pandemia que hoje vivemos.

Algumas crianças mais ansiosas, começaram a preocupar-se com o novo vírus logo que se começou a falar dele. Outras, foram aos poucos dando atenção ao assunto e, principalmente após a adoção de medidas mais extremas como o fecho das escolas e as recomendações de isolamento social, entre outras, foram ficando “contaminadas” de medos e dúvidas, para algumas delas muito perturbadoras. Como tal, deixo aqui algumas dicas de como agir com a sua criança neste momento de inquietação tão novo para todos nós.

Não deixe de falar com a sua criança sobre este tema, começando por questionar a criança acerca do que ela já sabe ou de como pensa sobre o assunto. Ouça a sua criança com atenção e deste modo irá permitir que a criança se exprima, que fale sobre o que receia mas acima de tudo poderá corrigir alguma informação errada à qual a criança tenha tido acesso. Ensine à criança como se transmite o vírus e como se pode proteger, falando sempre com verdade e adequando a sua linguagem à idade da criança e à sua capacidade de entendimento. Use um tom de voz tranquilo pois informação e serenidade são recomendáveis em momentos como este.

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Adolescentes e comportamentos auto lesivos: porquê?

Adolescência

Designam-se por comportamentos auto lesivos todos os comportamentos diretos que causam lesão física ligeira a moderada, feita sem intenção suicida consciente, e que acontece na ausência de psicose ou incapacidade intelectual organicamente determinada.

Se cada cabeça é um mundo, no caso dos adolescentes, podem mesmo ser vários mundos. As variações do humor e dos sentimentos, características desta fase de ambiguidades e descobertas, podem fazer com que os jovens se sintam ora os “donos do mundo”, cheios de razão e de verdades absolutas, ora os seres mais infelizes na face da terra, cheios de dúvidas e de incertezas. Estas oscilações podem ter um impacto significativo no bem-estar emocional dos jovens ou na perturbação do mesmo. Continue a ler “Adolescentes e comportamentos auto lesivos: porquê?”

Imagem corporal e perturbações alimentares na infância

Perturbações alimentáres

O excesso de peso tem nos dias de hoje uma expressão significativa nas nossas crianças e jovens, no entanto, muitas das crianças que procuram perder peso nem sempre têm peso a mais, assim como as que querem engordar nem sempre têm peso a menos. A preocupação com a imagem corporal, principalmente na fase da infância e da adolescência, tem a ver com o modo como a criança se vê, isto é, como julga a sua aparência.

Um fator de extrema importância para o desenvolvimento das perturbações do comportamento alimentar, mais comuns nas raparigas, é a maneira como estas se vêm, ou seja, a imagem que têm de si mesmas. Por vezes, uma imagem distorcida da realidade pode ser interpretada como a necessidade de a alterar e pode conduzir a perturbações sérias, que podem pôr em risco não só a saúde como a própria vida. Uma criança/adolescente que se vê gorda, ainda que possa ter o peso adequado à sua idade e estatura, é uma criança em risco. As meninas, ao entrarem na fase da puberdade começam a apresentar formas mais arredondadas e um aumento da gordura corporal que é normativo. Porém, muitas vezes influenciadas por modelos de magreza, que podem ser as suas amigas ou figuras mediáticas veiculadas através dos meios de comunicação social, passam a ter uma imagem de si mesmas que lhes desagrada e que consideram indesejável, embora faça parte do seu desenvolvimento normal. Continue a ler “Imagem corporal e perturbações alimentares na infância”

Crianças ansiosas: ajude-as!

Ansiedade socialAs perturbações de ansiedade surgem frequentemente em idade precoce. Crianças e adolescentes não estão “imunes” a este problema, no entanto, isso não significa que tenham que viver com ele para o resto das suas vidas. Os problemas relacionados com a ansiedade tratam-se e esta pode deixar de ser perturbadora e passar a ser adaptativa.

Sabe-se que o medo e a ansiedade são protetores e que uma dose moderada de cada um deles fazem parte do processo normativo do desenvolvimento infantil.  Uma das formas de ansiedade mais comum nas crianças, mesmo as de mais tenra idade, é a ansiedade de separação. Reagir com choro à separação da mãe ou de outra figura de vinculação é uma característica deste tipo de perturbação. Mais tarde, a entrada para o infantário, pode ser também um momento em que a ansiedade se manifesta de forma mais ou menos perturbadora. Os medos também são característicos de determinadas fases do desenvolvimento, como é o caso do medo do escuro ou dos fantasmas ou monstros, por volta dos 4 anos. Posteriormente, em idade escolar, é também comum aparecerem “novos” medos como a morte ou as agressões. No início da adolescência, é muito frequente a ansiedade social, ou seja, medo ou perturbação de falar em público, de se exporem. Continue a ler “Crianças ansiosas: ajude-as!”

Só queria ver o meu pai uma vez, só uma…

Pai ausente.jpegO Filipe tem 12 anos e é um menino muito meigo, tranquilo e sossegado. Não gosta de barulho, de confusão, de locais muito movimentados e de grandes reboliços. Prefere estar em casa, não lida bem com o imprevisto e escolhe brincar sozinho em vez de ir jogar à bola com o seu grupo de colegas da escola.

O Filipe não vê o pai desde os seus 5 anos. Por essa altura, os pais divorciaram-se e o pai apenas o procurou um par de vezes para estar com ele. Saíram, foram para a casa do pai e o Filipe recorda um jantar que não terá corrido muito bem, pois diz que o pai tinha a casa cheia de amigos e pouco lhe ligou. Foi a última vez que o viu. Do pai nada sabe, se está vivo, onde vive, o que faz… nada. Sofre muito com essa ausência na sua vida mas parece que nada pode ser feito para alterar a sua realidade. Pelo menos para já.

Em sessão com a psicóloga, onde anda em acompanhamento por apresentar elevada sintomatologia ansiosa, o Filipe verbaliza: “Só queria ver o meu pai uma vez, só uma, para lhe dizer que estou muito zangado com ele. E depois, nunca mais o quero ver na vida”.

Solidão na velhice: compreensão, prevenção e intervenção

RnvelhecerO processo de envelhecimento pressupõe inevitavelmente uma degradação progressiva e diferencial do indivíduo. É um processo que ocorre e se manifesta a vários níveis, pois a velhice associa-se a um conjunto de alterações biológicas, psicológicas, funcionais e sociais que variam de indivíduo para indivíduo.

Não sendo a idade um fator determinante, constitui-se como mais uma variável a levar em consideração no processo de envelhecimento. A par com o passar do tempo, destacam-se também as características individuais como a personalidade, a história e os hábitos de vida do sujeito. Uma pessoa mais ativa será tendencialmente mais funcional, até mais tarde na vida, em suma, terá uma melhor qualidade de vida e autonomia. O envelhecimento ativo é visto como um meio que procura otimizar as oportunidades para a saúde e manter a participação e a segurança, no sentido de aumentar a qualidade de vida ao longo do envelhecimento. Continue a ler “Solidão na velhice: compreensão, prevenção e intervenção”

Ano Novo, ansiedade velha…

AnsiedadeSentir ansiedade em determinadas situações pode ser comum e normativo. A ansiedade e o medo protegem-nos e podem ser adaptativos, no entanto, se forem em excesso limitam-nos, interferem no nosso dia-a-dia, impedem-nos de cumprir as nossas rotinas, baixam a nossa qualidade de vida e podem mesmo conduzir a outras perturbações como por exemplo a depressão.

Importa diferenciar a ansiedade “normal” de perturbação de ansiedade, uma vez que ter medo ou ficar ansioso é em muitas situações muito adaptativo. Termos medo que um automóvel nos possa atropelar ajuda-nos a dar mais atenção quando atravessamos uma estrada. Ficarmos levemente ansiosos perante um exame académico leva-nos a sermos mais cuidadosos na preparação do mesmo e possivelmente a obter um melhor resultado. No entanto, medo e ansiedade em excesso podem chegar ao ponto de nos impedir de sair à rua com medo de sermos atropelados ou a deixarmos de comparecer no dia do exame por medo de não o conseguirmos fazer. Este tipo de comportamentos são típicos de uma perturbação de ansiedade e não de ansiedade normativa. Deve ser encarado como um problema de saúde psicológica, que de maior ou menor gravidade, sempre que interfere com a funcionalidade do indivíduo, deve ser tratado e não ignorado. Continue a ler “Ano Novo, ansiedade velha…”

Gerir o tempo

Gerir o tempoUma das estratégias mais eficazes para o aumento da organização e da produtividade é a correta gestão do tempo. Assim parece ser consensual que na vida do dia-a-dia, as pessoas possam retirar benefícios de uma boa gestão do seu tempo. E em relação ás crianças e adolescentes? Será igualmente importante que aprendam a fazer essa gestão no sentido de verem incrementada a sua produtividade, por exemplo, em termos de desempenho escolar?

A gestão do tempo é sem dúvida um fator relevante e muitas vezes apontado pelos mais novos como uma preocupação. Hoje em dia, as crianças e adolescentes vêm-se “a braços” com múltiplas tarefas e exigências que incluem a escola, a família, as atividades extracurriculares desportivas ou de lazer e as exigências sociais, fundamentais para um ótimo desenvolvimento enquanto seres humanos. Assim, torna-se cada vez mais importante a gestão do tempo, não apenas no sentido de o “fazer chegar” para tudo, mas também para que este possa ser aproveitado com qualidade e para que haja um bom ajustamento psicossocial. Continue a ler “Gerir o tempo”

Resolução de problemas

Tomada de decisãoÉ comum ouvir-se dizer que todos temos problemas. Uns de nós mais dados a “problematizar” e outros menos, o facto é que os problemas existem e andam por aí para serem resolvidos, caso contrário, permanecem como uma nuvem negra que paira sobre as nossas cabeças, incomodando, incomodando…

Há problemas e problemas, ou seja, há problemas de fácil resolução, na medida em que sabemos exatamente o que fazer para nos livrarmos deles, mas há outros, que por várias ordens de razão, são mais difíceis de solucionar pois implicam a tomada de decisões importantes que têm que ser bem ponderadas. Vários são os fatores que contribuem para a dificuldade que possamos ter em resolver um determinado problema. Ou porque o assunto implica gastos inesperados, ou porque nos obriga a alterar as nossas rotinas e vem revolucionar o nosso quotidiano, ou porque pode causar algum tipo de conflito ou mal-entendido com alguém ou porque nos encontramos num período particularmente difícil, em termos emocionais, o que nos condiciona e dificulta a tomada de decisão. Certo é que resolver um problema nem sempre está ao nosso alcance mas também é certo, que muitas vezes está, só não sabemos como. Continue a ler “Resolução de problemas”