O quadro das perturbações do sono-vigília é consideravelmente variado, englobando entre outras, a perturbação de insónia, a narcolepsia, as perturbações do sono relacionadas com a respiração, a perturbação de pesadelos e a síndrome das pernas inquietas. Embora muitas pessoas refiram ter dificuldades de sono, muitas vezes identificar o tipo de perturbação, as causas e as suas consequências, nem sempre é fácil.
Uma das perturbações do sono que desperta maior curiosidade, até porque não será a mais comum, é a síndrome das pernas inquietas. É uma perturbação neurológica sensoriomotora do sono e que se caracteriza por um intenso desejo de mover as pernas (ou os braços) associado a sensações desconfortáveis tipicamente descritas como formigueiro, latejar, rastejar ou sensação de queimadura. O diagnóstico desta perturbação tem por base inicial o relato do doente e a sua história clínica. Os sintomas tornam-se mais intensos quando o indivíduo está em repouso, sendo que os movimentos frequentes das pernas derivam de um esforço do mesmo para aliviar o desconforto que sente. Estes sintomas são frequentemente mais intensos ao final do dia e à noite. Este desconforto nas pernas deve ser diferenciado de cãibras ou de outro desconforto decorrente de mal posicionamento.
Segundo a lenda, Narciso, personagem da mitologia grega, apaixonou-se pela sua própria imagem ao vê-la refletida num lago. Consta que era um jovem de extrema beleza e que despertava grande interesse nas donzelas, no entanto, escolheu viver só, por achar que não havia quem fosse digno de si e do seu amor.
Uma Perturbação da Personalidade pode definir-se como um padrão estável de experiência interna e comportamental, que se afasta marcadamente do esperado para um sujeito de uma determinada cultura. É invasiva, inflexível e tem o seu início na adolescência ou no início da idade adulta, mantendo-se estável ao longo do tempo e causando mal-estar, dificuldades de adaptação ou até mesmo incapacidade. O Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-V) define 10 perturbações de personalidade específicas: paranoide, esquizoide, antissocial, estado-limite ou borderline, histriónica, narcísica, evitante, dependente, obsessivo-compulsiva, alteração da personalidade devida a outra condição médica, perturbação da personalidade com outra especificação e não especificada.
A Perturbação Narcísica da Personalidade caracteriza-se por um padrão global de grandiosidade e necessidade de admiração, bem como na ausência de empatia com o outro. É um tipo de perturbação do foro mental que tem o seu início no começo da idade adulta e que está presente numa variedade de contextos. Os sujeitos com esta perturbação tendem a sobrevalorizar as suas capacidades e a exagerar os seus feitos, sendo com frequência apelidados de vaidosos e gabarolas. Consideram que os outros lhes atribuem o mesmo valor que eles próprios julgam ter e surpreendem-se quando não têm o reconhecimento que esperam e julgam merecer.
É frequente o indivíduo narcísico desvalorizar as capacidades dos outros, sempre que as compara com as suas próprias capacidades e fantasiar com o seu sucesso ilimitado, poder, brilho e beleza. Apresenta pensamentos ruminantes acerca de uma merecida admiração e tem tendência para comparar-se favoravelmente com pessoas influentes, privilegiadas e famosas. As pessoas com este tipo de personalidade consideram-se superiores, raras e especiais, esperando que os outros as reconheçam como tal. Sentem que só se devem associar a pessoas que consideram igualmente especiais ou de elevado estatuto, acreditando que as suas necessidades são também elas especiais e que não estão ao alcance das pessoas comuns.
O narcísico tem uma autoestima elevada, espelhada pelo valor idealizado que atribui às pessoas a quem se associa, e procura juntar-se com indivíduos de profissões diferenciadas e nível socioeconómico alto, desvalorizando o “comum dos mortais”. Esta autoestima elevada é no entanto frágil, uma vez que o indivíduo narcisista mantém uma preocupação excessiva com o quão bem se está a sair e quão favoravelmente é considerado pelos outros, uma vez que possui uma necessidade excessiva de admiração que nem sempre é expressa, defraudando as suas expectativas.. Adora e espera ser sempre recebido com “pompa e circunstância”, ficando muito espantado com a possível indiferença dos outros, procurando sucessivamente o elogio e agindo de forma sedutora.
Uma pessoa com personalidade narcísica espera dos outros alguma inveja e subserviência, ficando surpresa quando isso não acontece. Tem um elevado sentido de reverência a par com uma inabilidade para compreender as necessidades do outro, o que pode levar a situações de desrespeito e exploração, intencional ou não. A falta de empatia é uma característica muito vincada no narcisista. Estes indivíduos têm enorme dificuldade em identificar e compreender os sentimentos das outras pessoas, tendendo a desvaloriza-las, colocando sempre os seus sentimentos em primeiro lugar. Discutem os seus problemas com exagerado pormenor e por vezes de forma desadequada, desprezando e impacientando-se quando são os outros a falar dos seus assuntos e das suas preocupações.
A Perturbação Narcísica da Personalidade tem uma prevalência estimada de 0 a 6,2% na população e 50% a 75% dos casos diagnosticados são homens. A característica mais relevante na discriminação desta perturbação em relação à perturbação histriónica (sedutor), antissocial (insensível) ou borderline (dependente) é a grandiosidade. A relativa estabilidade da autoimagem, bem como a ausência de auto destrutividade, impulsividade e preocupação de abandono, distinguem a perturbação narcísica da perturbação borderline de personalidade. O excessivo orgulho nos seus feitos, o desdém pela sensibilidade alheia e a relativa ausência de manifestação dos sentimentos, ajudam a distinguir esta perturbação da perturbação histriónica. Os sujeitos com perturbação narcísica e perturbação antissocial tendem a ser rígidos, superficiais, exploradores e sem empatia, no entanto, os narcísicos não incluem habitualmente características de agressividade, impulsividade ou dolo.
O narcisismo é uma das construções de personalidade mais antigas conhecidas. Porém, continua a ser fonte de discussão científica, nomeadamente nas áreas da teoria clínica, do diagnóstico psiquiátrico e da psicologia. É uma síndrome desafiante, complexa de entender, heterogénea na sua apresentação e difícil de tratar, prejudicando também o tratamento de outras patologias do foro mental que possam estar presentes, como por exemplo a perturbação depressiva, a ansiedade ou o abuso de substâncias. É uma perturbação que pode incluir manifestações de grandiosidade alternadas com vulnerabilidade, conforme o contexto ou o momento/situação do sujeito, o que por si só dificulta o tratamento. Das várias abordagens psicoterapêuticas disponíveis, as de maior sucesso parecem ser as do grupo das terapias cognitivo-comportamental.
Fonte: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – Quinta Edição (DSM-V). American Psychiatric Association.
O ciúme é uma emoção universal, que em maior ou menor grau, todo o ser humano experiencia, em algum momento da sua vida. Transversal às relações pessoais e sociais, o ciúme pode ser vivenciado em diversos tipos de relacionamentos: romântico, familiar ou de amizade.
Definir o ciúme não é fácil, mais fácil é sem dúvida identifica-lo. No entanto, podemos referir as suas principais características que incluem o facto de ser um sentimento perante uma ameaça percebida, que pressupõe a existência de um rival, quer este seja real ou imaginário, e é uma reação que tem como objetivo eliminar o risco da perda do “objeto amado”. Foquemo-nos então no amor romântico e no respetivo ciúme. Este é um ciúme que acontece entre casais, tipificado por um conjunto complexo de pensamentos, emoções e ações perante a ameaça da perda do amor do outro e do respetivo relacionamento. O ciúme decorre da existência de um triângulo social, ainda que imaginário o que desperta sentimentos como o medo, a raiva ou a tristeza e que podem levar o indivíduo a comportamentos por vezes irracionais e desadequados.
O momento do parto pode ver visto sob duas perspetivas: a positiva, associada à felicidade e entusiasmo pelo nascimento e pela realização do casal enquanto pais, e a perspetiva mais negativa, habitualmente relacionada com a ansiedade e o medo da vivência desse momento.
O parto é, à medida de cada caso, uma experiência física e emocionalmente exigente. A separação de dois (ou mais!) seres, que viveram aproximadamente 9 meses de modo interdependente em contacto íntimo e permanente, tem um impacto emocional para cada um deles. Numa perspetiva psicodinâmica, no momento do parto a mulher revive inconscientemente o trauma do seu próprio nascimento e a angústia que experienciou ao nascer, pela perda do estado intrauterino e pelo medo do desconhecido. A ansiedade causada pelo medo de cuidar o bebé, associado à sensação de perda ou “esvaziamento”, são os dois fatores cuja interação pode conduzir a um estado de confusão que pode desencadear na mulher a sensação de despersonalização ou perda de identidade.
Dentro do vasto espectro das perturbações mentais e do desenvolvimento, podem ser várias as perturbações da comunicação. Estas incluem défices na linguagem, na fala e na comunicação.
A fala corresponde à produção expressiva de sons e inclui a articulação, a fluência, a voz e a qualidade da ressonância de um indivíduo. A linguagem tem a ver com a forma, a função e a utilização de um sistema convencional de símbolos – palavras faladas, palavras escritas, linguagem gestual ou imagens, orientadas por regras de comunicação. A comunicação inclui todos os comportamentos verbais e não-verbais, intencionais ou não, que influenciam o comportamento, o pensamento ou as ideias e atitudes de outro indivíduo. Para uma correta avaliação das capacidades de fala, linguagem e comunicação, dever-se-á ter em conta o contexto linguístico e cultural do indivíduo, principalmente tratando-se de pessoas que se desenvolvem em contextos bilingues ou multiculturais.
Comunicar é uma necessidade inata ao ser humano. Desde sempre que os indivíduos procuram encontrar formas de interação em substituição da comunicação verbal ou em complemento a ela. A comunicação não-verbal tem vindo a ser utilizada e explorada, assumindo grande importância nas relações interpessoais.
Inicialmente, antes de haver uma linguagem estruturada, quer falada, quer escrita, a comunicação acontecia por meio de gestos e símbolos. Hoje em dia, continuamos a utilizar esse tipo de comunicação, mesmo que por vezes não tenhamos consciência disso. A comunicação não-verbal diz tanto sobre quem somos e sobre a forma como pensamos, que é necessário estar atento a ela, no sentido de salvaguardarmos as nossas relações interpessoais. Um dos componentes da linguagem não-verbal é a aparência. A aparência física é responsável pela primeira impressão causada no outro e pode expressar credibilidade ou a falta dela. O modo como nos vestimos mas também a forma como cuidamos o cabelo, a barba no caso dos homens, ou a maquilhagem no caso das mulheres, produzem a nossa imagem completa perante os outros. Adequar a imagem à situação é extremamente importante para uma comunicação e interação eficazes e transmissoras de confiança.
A comunicação e as relações interpessoais nem sempre são fáceis e por vezes implicam ter conversas difíceis, sobre assuntos igualmente difíceis e que podem ferir suscetibilidades ou gerar conflito, tanto a nível pessoal e familiar como profissional.
O conceito de inteligência emocional pressupõe a capacidade de se identificar emoções, dos próprios e dos outros, bem como saber geri-las de forma adaptativa. Deste modo, a gestão de conflitos está incluída nesta competência tão necessária á nossa adaptação aos desafios do dia-a-dia. Por vezes, evitar ou adiar uma “conversa difícil” pode ser protetor e adequado naquele momento, no entanto, só resolve o problema a curto prazo. Se o assunto é realmente importante, mais cedo ou mais tarde terá que ser abordado e se pensarmos bem, quanto mais cedo for esclarecida uma dúvida, resolvido um mal-entendido ou esclarecida uma confusão, mais cedo a nossa paz interior será reestabelecida.
A perturbação de movimentos estereotipados caracteriza-se por comportamentos motores repetitivos, não atribuíveis a efeitos fisiológicos de uma substância ou condição neurológica, aparentemente dirigidos sem propósito, que interferem com as atividades sociais, académicas ou outras, e que pode resultar em lesões do próprio indivíduo.
A perturbação de movimentos estereotipados pode incluir comportamentos como sacudir ou agitar as mãos, balançar o corpo, bater com a cabeça, bater a si próprio ou até mesmo morder-se, podendo resultar ou não em comportamentos autolesivos, consoante a gravidade do caso. Consideram-se autolesivos todos os comportamentos que podem resultar em lesões se não forem tomadas medidas preventivas. Deverá especificar-se se estes comportamentos estão associados a alguma condição médica ou genética conhecida, perturbação do neurodesenvolvimento ou fator ambiental (ex. exposição intrauterina ao álcool). A gravidade desta perturbação pode ser ligeira, se os sintomas são facilmente suprimidos por distração ou estímulos sensoriais, ou moderada, se os sintomas requerem medidas protetoras e modificação explícita do comportamento.
A psicologia estuda os processos mentais e o comportamento humano no sentido de os avaliar, compreender, organizar, classificar, prever e modificar, no sentido da otimização dos recursos internos e do aumento da qualidade de vida.
A Psicologia da Saúde é a área disciplinar da psicologia que se refere ao estudo do comportamento humano em contexto de saúde ou da falta dela. Corresponde a um conjunto de contribuições técnicas, educacionais e cientificas da psicologia, para a promoção da saúde, a sua manutenção e a prevenção da doença, ou, no caso de esta estar instalada, trabalhar a aceitação do diagnóstico, a adaptação à situação de doença e ao tratamento da mesma. Nesta área da psicologia, o psicólogo assume um papel de profissional da saúde como um todo e não apenas da saúde mental e oferece uma intervenção de cuidados inclusivos, ou seja, ao longo do tempo e sempre que necessário em articulação com uma equipa multidisciplinar, como por exemplo o pediatra, o nutricionista ou o fisioterapeuta, ou outros.
Após quase um ano de pandemia por Covid-19 em Portugal, o cansaço está a apoderar-se de muitos de nós. É um cansaço físico por redução da atividade, mas essencialmente psicológico devido às constantes adaptações às mudanças que nos foram impostas e que em tanto alteraram o nosso quotidiano.
Depois de terminarmos o fatídico ano de 2020 que tanta mudança operou nas nossas vidas, vimo-nos, ao contrário do que muitos esperávamos, confrontados com uma situação de aumento de casos de infeção por Covid-19 e consequentemente, um aumento de mortes e hospitalizações muito preocupante que puseram à prova a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde e dos decisores políticos. Bem ou mal, depende do entender de cada um, o confinamento foi decretado novamente e voltamos a ficar impedidos de levar as nossas vidas, com a “normalidade” a que já nos estávamos a habituar… Mas pelos dados que vão chegando ao nosso conhecimento, o confinamento está a ter eficácia, quer pelo decréscimo de número de novos infetados que se tem vindo a observar nos últimos dias, quer por algum desafogo nas unidades de cuidados intensivos. No entanto, não deixa de ser penoso, preocupante e altamente stressante o esforço que cada um de nós está a fazer para se manter confinado.