Psicossomática: afinal estou doente de quê?

SomatizaçãoA somatização caracteriza-se pela apresentação de sintomas físicos em indivíduos, sem causa orgânica óbvia. É uma problemática que está associada a uma incapacidade funcional e a um grande recurso aos cuidados de saúde.

A presença persistente de sintomatologia física sem explicação médica constitui-se como um enorme desafio quer para médicos, quer para psicólogos. Estes sintomas apresentam-se num continuum e podem ir de ligeiros e transitórios a intensos, constantes e severos. Os sintomas físicos mais comuns na somatização são a fadiga, as dores de cabeça, as dores nas costas, a insónia, as dores de barriga, as tonturas, o aumento dos batimentos cardíacos ou a falta de ar. O doente psicossomático tende a procurar sistematicamente uma causa orgânica para as suas queixas e por isso recorre frequentemente aos cuidados de saúde, no sentido de pedir ao médico a prescrição de exames auxiliares de diagnóstico ou medicamentos para o alívio dos sintomas, de uma doença que não tem. Nesta procura excessiva pelos cuidados de saúde, a relação com o médico pode ficar afetada se este não entender o problema do paciente, ou seja, se não levar em consideração os fatores psicossociais que o envolvem. Além do mais, a banalização da toma de medicação para alívio da referida sintomatologia pode conduzir a uma dependência que não é de todo recomendada.

PsicossomáticaOs resultados apresentados pela investigação sobre esta matéria sugerem uma prevalência de doentes psicossomáticos na ordem dos 20% a 50%, no entanto, nem todos os indivíduos que apresentam sintomatologia física sem explicação médica, preenchem todos os critérios de referenciação para os cuidados de saúde mental. É de salientar que muito frequentemente, a apresentação deste tipo de sintomatologia está associado a casos de ansiedade e/ou depressão, sendo que a intervenção psicológica poderá trazer um enorme benefício para estes indivíduos. Porém, muitas vezes, estes pacientes recusam a necessidade de apoio psicológico mesmo quando é sugerida pelo médico, dando preferência a uma intervenção médica sobre os sintomas. O estigma ainda presente em muitos grupos sociais, pode ajudar a explicar essa dificuldade em aderir ao acompanhamento psicológico, mesmo que indiretamente, possam demonstrar o desejo de apoio emocional.

PsicossomáticaPodem-se referir como determinantes da sintomatologia psicossomática o stresse e a ansiedade, sendo que estes provocam um aumento da atividade cerebral e a produção de cortisol e adrenalina. Estas hormonas podem afetar outros órgãos do corpo como o estômago, os intestinos, o coração ou a pele.  O stresse profissional, os traumas por acontecimentos de vida significativos, a dificuldade em expressar as emoções ou um elevado grau de perfeccionismo, constituem-se como algumas das causas possíveis para o desenvolvimento desta patologia. As perturbações psicossomáticas, ou seja, com causa emocional, não tratadas, podem conduzir elas próprias ao aparecimento de doenças como por exemplo a gastrite ou a hipertensão arterial. Em casos mais graves, a sintomatologia mais intensa poderá mesmo confundir-se com situações graves como o enfarte do miocárdio ou o acidente vascular cerebral, como é o caso dos ataques de pânico, em que o indivíduo experimenta sensações tão desagradáveis que o podem fazer pensar que vai morrer.

SomatizaçãoEm termos de tratamento, o doente psicossomático poderá como já foi referido, beneficiar de acompanhamento psicológico, uma vez que este pode ajudar o indivíduo a identificar o motivo do seu stresse e da sua ansiedade e, deste modo, aprender a lidar com a situação e conseguir treinar estratégias promotoras da redução da ansiedade e do aumento do bem-estar. Alguns casos poderão beneficiar de um tratamento misto, ou seja, intervenção psicológica combinada com medicação. Esta é habitualmente feita através de analgésicos ou anti-inflamatórios, para alívio dos sintomas, mas também ansiolíticos e antidepressivos. A psicossomática coloca a doença numa dimensão psicológica abrangente e integral, proporcionando uma abordagem onde a relação entre médico, paciente e psicólogo se constituem como um recurso muito relevante para que o indivíduo seja olhado como um todo, e não penas com vista ao tratamento dos sintomas. Assim, qualquer doença pode ser alvo de uma abordagem como se de psicossomática se tratasse, pois o que precisa de tratamento não é apenas a doença mas sim o doente.

 

PsicossomáticaPense que pode ter na Sua Psicóloga uma aliada importante para o ajudar a lidar com os seus problemas. Procure apoio!

Sugestão:

https://rfs.emnuvens.com.br/rfs/article/view/14/12

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-37722016000300245&script=sci_arttext&tlng=pt

 

Vou ter teste, e agora!?

Ansiedade de desempenho

A ansiedade desempenha um papel importante no comportamento humano. Em contexto escolar, a ansiedade dos alunos perante a perspetiva de um teste é um fenómeno particularmente difícil. A ansiedade gerada pela avaliação, quer seja formal ou informal é sempre mais ou menos perturbadora.

Ser avaliado corresponde a uma situação complexa que reúne várias dimensões (cognitiva, emocional, fisiológica e comportamental). Em termos teóricos, a ansiedade de desempenho face a um teste pode assumir duas formas distintas: como traço ou como estado. Enquanto traço, a ansiedade corresponde a uma predisposição psicológica para reagir com o mesmo nível de ansiedade (alto ou baixo) a um conjunto indiscriminado de situações. Enquanto estado (ou sobrecarga) a ansiedade acontece em situações esporádicas, como um exame particularmente difícil ou para o qual o aluno não se sente devidamente preparado. Continue a ler “Vou ter teste, e agora!?”

Crianças e violência: riscos e consequências

Crianças e a violênciaA violência infantil apresenta-se como um factor de risco para o desenvolvimento de problemas emocionais e de comportamento, podendo ter como consequência o desajuste escolar, familiar e/ou social.

A violência é um problema social e pode estar presente na vida das nossas crianças de formas distintas. Os abusos físicos como bater, empurrar ou abanar as crianças são uma prática ainda muito comum em muitas famílias. Do mesmo modo, o abuso verbal como gritar, ameaçar, ridicularizar, humilhar ou intimidar é muitas vezes a forma de tentar corrigir comportamentos desadequados da criança ou de os punir. O abuso sexual, definido como qualquer contacto ou interação com a criança para estímulo ou gratificação sexual do adulto, é outra realidade mais frequente do que se poderia pensar. De um modo diferente, a negligência é outra forma de violência contra a criança. Não atender às suas necessidades básicas (alimentação, abrigo, assistência médica) ou necessidades emocionais (segurança, confiança, carinho) é uma forma de violência contra as crianças, que pode ser tão grave como qualquer outra. Torna-se dramático o facto de que muitas vezes os agressores das crianças são os seus próprios pais ou cuidadores, precisamente aqueles em quem a criança deveria poder confiar e ter como porto de abrigo. Continue a ler “Crianças e violência: riscos e consequências”

Doença de Parkinson

Doença neuro-degenerativaA Doença de Parkinson é a segunda doença neuro-degenerativa mais comum na população e resulta na acumulação anormal de proteínas no cérebro e na morte progressiva de neurónios. Pensa-se que uma grande parte das dificuldades motoras apresentadas pelos doentes derivam da perda de neurónios produtores de Dopamina.

Doença de Parkinson foi descrita em 1817 por James Parkinson e é uma das doenças neurológicas mais frequentes dos nossos dias. Apresenta uma distribuição universal, sendo transversal aos vários grupos étnicos e classes socioeconómicas. Estima-se uma prevalência de 100 a 200 casos por 100.000 habitantes e a sua prevalência aumenta com o avançar da idade. Esta doença é de um modo geral conhecida pelas suas características motoras como os tremores, rigidez, face pouco expressiva, lentificação dos movimentos e alterações da marcha. Também a presença de manifestações neuropsiquiátricas é frequente e conduzem à diminuição do funcionamento global do doente e consequentemente, da sua qualidade de vida. Destas manifestações destacam-se a depressão, ansiedade, dificuldades de sono, disfunção sexual ou demência. Continue a ler “Doença de Parkinson”

Xixi na cama! Outra vez…

Enurese noturna

A enurese é uma disfunção que se manifesta pela perda involuntária de urina, diurna ou noturna, não normativa em relação à idade da criança e que não surge como consequência de falta de controlo da bexiga por doença neurológica, anomalia do trato urinário ou convulsão epilética, por exemplo.

A enurese noturna corresponde a perdas de urina durante o sono. Apesar de ser um problema comum, tem um forte impacto no dia-a-dia da criança e da sua família, constituindo-se como uma enorme fonte de stresse. O controlo dos esfíncteres corresponde a uma tarefa do desenvolvimento da criança, que decorre naturalmente mas que pode ser facilitada por atitudes educacionais. O contexto relacional e cultural onde decorre este processo, nomeadamente no que se refere ao ensino da higiene e às diferentes fases de aprendizagem e treino dos hábitos de higiene, é de extrema importância. A enurese pode ser primária, se a criança nunca chegou a adquirir o controlo da urina durante a noite ou secundária quando se observou um período de pelo menos seis meses de continência. A prevalência da enurese primária varia com a idade, sendo mais comum nos meninos (cerca de 9%) aos sete anos de idade, do que nas meninas (cerca de 6%) na mesma idade. Sendo o controlo dos esfíncteres um processo complexo, que envolve a ação coordenada de músculos, nervos, espinal medula e cérebro, pode resultar de vários fatores. Parece ser mais frequente em crianças que urinam mais vezes durante o dia, apresentam disfunção da bexiga ou têm dificuldades de sono (sono muito profundo e dificuldade em despertar). Ainda em termos de causas, parece existir também alguma predisposição genética.

EnuresePerante um caso de enurese, o primeiro passo é contactar o pediatra para o despiste de algum problema fisiológico (ex. renal) ou causa orgânica (ex. infeção urinária). Em termos de tratamento, habitualmente este só se aplica em casos de crianças com mais de seis anos de idade. A abordagem ao tratamento da enurese pode ser medicamentosa ou comportamental. A abordagem comportamental envolve estratégias de reforço, treino de retenção urinária ou pela utilização de sistemas de condicionamento com reforço positivo.

Enurese noturna

Os pais e cuidadores têm a grande responsabilidade de ajudar a criança a ultrapassar a  situação de enurese ao invés de a transformarem numa experiência traumatizante, o que pode ser fácil, não por má intenção mas por desconhecimento das características do problema. Para ajudar a criança a lidar com a enurese, os pais deverão normalizar a situação, explicando à criança que não está sozinha e que há muitas crianças da sua idade, que também passam pelo mesmo problema e que conseguem ultrapassá-lo. Outra estratégia passa por limitar a ingestão de líquidos a partir do final da tarde. Deverá também ser estabelecida uma rotina de sono, com horários regulares e que contemple uma ida à casa de banho, mesmo antes de ir para a cama. Se os pais sentirem dificuldade em lidar com o problema e com o impacto deste na sua vida e na sua família, devem recorrer à ajuda profissional de um psicólogo.

Enurese

Na consulta de psicologia, deverá ser feita a avaliação do impacto emocional da enurese na criança e na família, bem como devem ser identificadas algumas situações que possam ser responsáveis pela perturbação do equilíbrio emocional e psicológico da criança, como por exemplo a perda de um familiar, o nascimento de um irmão, algum tipo de abuso ou uma dificuldade de adaptação à escola. De acordo com a criança em questão e com a familia, será selecionada a estratégia a implementar. E como cada caso é uma caso e cada criança tem as suas particularidades, quando um método não for eficaz, haverão outros métodos a serem implementados até ao sucesso da intervenção.

EnureseÉ de extrema importância que os pais ou cuidadores não punam nem culpem a criança por urinar a cama. Esse comportamento por parte dos adultos, não só irá contribuir para a baixa da autoestima da criança, desenvolvimento do sentimento de vergonha, aumento da ansiedade e possíveis dificuldades de socialização e decréscimo do rendimento escolar, assim como dificulta o processo de tratamento. Pelo contrário, a criança deverá ser reforçada a cada sucesso que alcança. Este problema também constitui um grande desafio para os pais, não sendo fácil lidar com a enurese. Dependendo dos casos, alguns adultos podem, em consequência desta perturbação dos filhos, desenvolver problemas de sono, ansiedade, aumento da tensão emocional, agressividade e stresse familiar.

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Sugestão:

Barros, L. (2004). Perturbações da eliminação na criança e no adolescente: da prevenção ao controlo. Lisboa: Climepsi.

 

 

Ansiedade e depressão vs. doença física

Psicologia da saúdeO principal interesse da Psicologia pelas doenças é o modo como as reações de ansiedade e/ou depressão que acompanham muitos dos processos de doença fisiológica, interferem com as ações de tratamento. As emoções desadaptativas ou patológicas do doente, podem manifestar-se nas reações ao diagnóstico e/ou ao tratamento, influenciando a progressão da doença, qualquer que seja o seu tipo.

As emoções intensas frequentes e/ou prolongadas de ansiedade e/ou depressão, podem contribuir para a mudança na progressão da doença física, podendo levá-la de transitória a crónica. A grande maioria das intervenções da psicologia da doença têm como objetivo a mudança das emoções desadequadas do doente, pois estas aumentam o seu sofrimento e influenciam os seus comportamentos de prevenção da doença ou de adesão ao seu tratamento. A intervenção visa também impedir que as emoções desadequadas constituam a causa do aparecimento ou reaparecimento da doença, à semelhança de outros determinantes. A inadequação dos processos emocionais inscreve-se num contínuo entre o normal e o patológico, o que implica uma distinção entre depressão ou tristeza ligeira e moderada, observada na maioria dos doentes, quando confrontados quer com os sintomas, quer com o diagnóstico de uma doença, ou até mesmo do próprio tratamento.

Doença e saúdeA doença física constitui-se como um terreno fértil para a expressão de emoções desadaptativas. A depressão está muitas vezes associada à doença crónica. As reações depressivas tendem a manifestar-se mais tarde, em comparação com as reações de ansiedade e posteriormente, ambas podem ocorrer de forma alternada ou em simultâneo. O processo depressivo pode ser anterior à doença física e pode constituir-se como determinante direto ou indireto da mesma (ex. alterações imunológicas e/ou fisiológicas, negligência pessoal etc.). O processo depressivo posterior à doença física pode apresentar-se como sintoma da doença ou como consequência do seu tratamento (ex. efeitos da medicação, baixa da autoestima, possível perda de capacidades ou de papéis sociais, isolamento, etc.).

AnsiedadeÉ difícil saber se é a depressão que contribui mais para o aparecimento e evolução da doença física ou se é esta que contribui para o desenvolvimento da depressão. Isto leva à necessidade de que médicos e psicólogos trabalhem em equipa, no sentido de chegarem ao diagnóstico, quer seja de doença física com sintomatologia depressiva quer seja de depressão com sintomatologia somática. Caso contrário, o médico pode diminuir a sintomatologia do processo depressivo, considerando-o normal e inerente ao processo de doença, ficando o doente sem acesso ao tratamento psicológico, ou, o psicólogo poderá considerar que as reações somáticas do doente fazem parte do processo depressivo, e o doente ficar sem os cuidados médicos de que pode necessitar. Considerar que doença física e depressão se determinam mutuamente poderá permitir que médico e psicólogo formem uma equipa e que trabalhando em conjunto possam dar uma resposta mais adequada ao doente.

Saúde e doençaO stesse, estado reativo do organismo face a situações inesperadas ou de ameaça e hoje em dia também visto como uma resposta de ajustamento do organismo, contingencial a essas situações, é o processo ansiogénio mais comum, tendo sido transformado em sinónimo de todo e qualquer tipo de ansiedade geral ou específica. Sendo o stresse um conceito de grande operacionalidade em psicologia da doença, a intervenção clínica é quase sempre dirigida à sua redução para limites aceitáveis, por diversas razões. Uma delas é o facto de o stresse poder causar doença por interferir no sistema imunitário. Por outro lado, pode estar também associado a hábitos que causam a doença (ex. tabagismo). O stresse pode escalar facilmente para processos ansiogénios mais graves, podendo interferir com a capacidade do indivíduo reagir tanto a um diagnóstico de doença, como à adesão ao tratamento proposto.

Psicologia da saúdeA depressão e a ansiedade têm sido estudadas na sua relação com o mesmo tipo de doenças, o que não significa que sejam abordadas da mesma forma. As reações depressivas tendem a ser consideradas na sua polaridade mais grave (depressão major) e o stresse é mais representativo das reações ansiogénias. Dada a semelhança entre sintomas reais e somatizações, como saber se é a depressão ou o stresse que provocam e/ou agravam os sintomas ou se é a doença, na sua dimensão orgânica que os provoca e/ou agrava? A maior dificuldade do psicólogo para determinar se as emoções excessivas contribuem para o agravamento da condição do paciente advêm de questões metodológicas, que incluem a avaliação da gravidade da doença e a avaliação da gravidade da emocionalidade negativa que a acompanha. Embora esta questão possa parecer circular, ela constitui uma limitação para a intervenção. Uma vez mais se destaca a grande importância do trabalho de equipa ,em psicologia da saúde. Não basta tratar a doença, é fundamental tratar o doente.

Obsessões e compulsões

Perturbação obsessivo-compulsivaQuando o seu pensamento se prende repetidamente a uma ideia ou a uma imagem e não o consegue afastar, por muito que não o queira ter e por mais absurdo que ele lhe pareça ser, e quando a esse pensamento se junta uma sensação de mal-estar, nervosismo ou ansiedade, que apenas consegue ver reduzida após efetuar determinados comportamentos ou rituais, então poderá estar perante uma Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC).

Exemplos comuns deste tipo de perturbação são as lavagens frequentes das mãos e os banhos ultra prolongados por medo da contaminação, ou a verificação vezes repetidas de que se desligou o fogão antes de sair de casa ou se fechou bem a porta. O indivíduo não quer ter esses pensamentos ambíguos pois se por um lado lhe parecem não ter sentido, por outro lado eles são muito intensos e parecem verdadeiros. Todos os comportamentos associados a estes pensamentos repetitivos, intrusivos e persistentes fazem com que o individuo os sinta como necessários para reduzir o estado de ansiedade que os pensamentos provocam. Do mesmo modo, os comportamentos relacionados com a verificação ou contaminação, são repetidos podendo levar a um elevado consumo do tempo e da energia do sujeito.

POCC A POC é uma perturbação grave que se caracteriza por dois fenómenos: as obsessões e as compulsões. As obsessões definem-se como pensamentos, imagens ou impulsos recorrentes, intensos e persistentes e que provocam grande ansiedade e mal-estar. O sujeito pode tentar ignorar estes pensamentos com algum outro pensamento ou através de comportamentos compulsivos ou ritualizados. Definem-se como compulsões os comportamentos repetitivos geralmente executadas em resposta às obsessões, ou seja, aos pensamentos. Para além dos exemplos de compulsões já referidos, repetir palavras, números ou frases assim como organizar objetos segundo uma determinada ordem podem ilustrar comportamentos característicos da POC e que têm como finalidade a diminuição do desconforto causado pelos pensamentos obsessivos.

POCNo entanto, muitas pessoas gostam de ser muito organizadas, de ter bons cuidados de higiene ou de se certificarem se realmente fecharam todas as janelas antes de saírem de casa, sem que por isso reúnam critérios de diagnóstico de POC. A avaliação deverá ser feita com cuidado e com recurso a instrumentos rigorosos e por um psicólogo com  boas competências de avaliação psicológica, para que se possa diferenciar de forma inequívoca o normal do patológico. Apenas poderá ser considerado que o sujeito tem POC quando as obsessões ou as compulsões interferem significativamente com as suas rotinas diárias e quando as mesmas ocupam um tempo considerável do seu dia, isto é, pelo menos uma hora. Esta é uma perturbação que pode reduzir acentuadamente a funcionalidade dos indivíduos nos vários contextos em que se move, o que se vai refletir num decréscimo na sua qualidade de vida.

StressEmbora a POC habitualmente tenha o seu início durante a adolescência ou no início da idade adulta, em alguns casos poderá começar a manifestar-se na infância, sendo a prevalência desta perturbação de cerca de 2%. A idade de início é geralmente mais precoce no género masculino (entre os 6 e os 15 anos) do que no género feminino (20 e os 29 anos), aparecendo por norma gradualmente e quase sempre de forma aguda. Na maioria dos casos observa-se um curso crónico de melhoria alternada com períodos de agravamento dos sintomas, em que muitas vezes o agudizar dos sintomas  se prende com situações relacionadas com a ansiedade. A POC pode ser ligeira a grave em termos de incapacidade, podendo mesmo em casos extremos, causar incapacidade absoluta ao ponto do paciente poder ter que ser internado.

relax.jpegEm termos de tratamento, a intervenção baseada no modelo cognitivo-comportamental tem mostrado grande eficácia. Esta intervenção tem como objetivo ensinar o indivíduo a lidar com a ansiedade produzida pelas obsessões e a reduzir ou eliminar os rituais compulsivos. O ensino e treino de um conjunto de técnicas e estratégias estruturadas, leva a que o indivíduo aprenda a utiliza-las em situações de ansiedade e em momentos em que o mal-estar causado pelas obsessões e compulsões se torna disfuncional. A intervenção visa a mudança de comportamento através de estratégias de enfrentamento, de confronto e de exposição, inicialmente em ambiente controlado e posteriormente em contexto natural. As técnicas de relaxamento, entre outras, são também ensinadas e treinadas no sentido da redução da ansiedade. Por vezes, em casos mais graves, a medicação pode ser necessária. Os medicamentos que afetam a serotonina parecem ser os mais eficazes no tratamento desta doença, obedecendo a sua escolha a critérios médicos, de acordo com o perfil de cada doente. Porém, para uma maior eficácia, mesmo o tratamento medicamentoso beneficia, se associado ao tratamento psicológico.

 

 

Fonte: DSM-V – Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (Quinta edição) de American Pshychiatric Association.

 

Sugestão: Ferreira e colaboradores (2017)Perfeccionismo, pensamento repetitivo negativo e sintomatologia do espectro obsessivo-compulsivo.

http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?pid=S1645

 

 

 

 

Um “piscar de olhos” sobre os tiques

Perturbação de tiquessOs tiques são movimentos involuntários ou vocalizações, geralmente de início súbito, breve, repetitivo, estereotipado, mas de caráter não rítmico. Frequentemente imitam um comportamento normal mas ocorrem muitas vezes fora de um contexto de atividade normal. O tique está geralmente associado a uma ânsia premonitória para realizar um movimento específico, ao mesmo tempo que se associa a uma sensação de alívio, uma vez realizado.

Os tiques motores mais comuns manifestam-se na face (ex. piscar os olhos, franzir o nariz ou a testa, morder os lábios, fazer estalidos com a língua) mas podem ocorrer em qualquer outra parte do corpo (ex. contrair os músculos do pescoço, dos ombros, da barriga ou fazer gestos involuntários com as mãos). Os tiques vocais podem ser sons sem significado (ex. limpar a garganta) ou emitir sons imitando outros sons já existentes, ou até mesmo alterações no discurso e linguagem, repetição de sons ou palavras, que podem em raros casos ser obscenas.

TouretteOs tiques podem ser simples ou complexos, conforme o número de músculos envolvidos e podem constituir 3 tipos de perturbações: a Perturbação Gilles de la Tourette (duração superior a 1 ano, existindo simultaneamente vários tiques motores e pelo menos um tique vocal), Perturbação de Tiques Motores ou Vocais Persistente/Crónica (duração superior a 1 ano, por vezes associados a défice de atenção e hiperatividade, que são sempre ou tiques motores ou tiques vocais e nunca os dois tipos em simultâneo) e a Perturbação de Tiques Transitória (tiques motores e/ou vocais com duração de pelo menos 4 semanas mas não superior a 12 meses consecutivos).

Tiques e TouretteGeralmente as perturbações de tiques surgem antes dos 18 anos, sendo o mais frequente por volta dos 6 anos, podendo prolongar-se por toda a infância, adolescência ou mesmo toda a vida adulta, com fases de remissão (desde algumas semanas até mesmo vários anos), sendo a taxa de prevalência de cerca de 10% em crianças. Habitualmente os tiques desaparecem antes da adolescência, mas podem voltar em momentos de maior ansiedade e excitação. As causas apontadas para este tipo de perturbação prendem-se com alterações em determinados circuitos cerebrais e neurotransmissores (substâncias que fazem circular a informação no cérebro). Parece existir também uma componente genética e podem também estar associados ao abuso de substâncias, patologias do foro neurológico ou ainda, terem origem emocional e ocorrerem associados a situações traumáticas, servindo como alívio. Na maioria dos casos os tiques interrompem-se durante o sono. Embora geralmente os tiques sejam comportamentos conscientes, algumas crianças mais pequenas e por vezes até alguns adultos podem não ter consciência dos seus próprios tiques. Porém, com o seu desenvolvimento, muitas pessoas sentem o impulso ou a sensação corporal que antecede o tique motor ou vocal e uma sensação de alívio ou de diminuição de tensão após a sua expressão.

Perturbação de tiques bA gravidade da perturbação de tiques prende-se com a sua intensidade e frequência, bem como com o modo como esta condiciona a pessoa, biológica, psicológica e socialmente. Geralmente os tiques aumentam em situações de maior ansiedade e stresse diminuindo quando a criança está concentrada numa atividade específica ou quando está descontraída. Quando uma criança começa a apresentar tiques, os pais, professores e outros elementos constituintes dos seus contextos, deverão informar-se acerca do problema, de forma a poderem tranquilizar a criança, principalmente dizendo-lhe que o mais provável é que estes venham a desaparecer com o tempo. Embora por vezes possa ser difícil, ignorar os tiques e considera-los algo normal e passageiro, não lhes dar muita atenção pode contribuir efetivamente para que a sua evolução possa ser boa e possam desaparecer num prazo de meses. També não é benéfico chamar a atenção à criança, principalmente perante outras pessoas, de modo a salvaguardar a sua autoestima.

AdolescerO ambiente familiar é muito importante para a criança. Se os pais conseguirem reduzir a tensão existente em torno da criança e aumentar a sua compreensão e afeto, poderão estar a contribuir para que o problema fique mais leve. Por outro lado, a criança não deverá ser sobrecarregada com atividades extracurriculares excessivas. Se a prática desportiva pode ajudar, ter tempo para brincar livremente de forma descontraída será decerto favorável para a criança. Os exercícios de relaxamento e de respiração podem também ajudar muito a lidar com o problema.

TiquesQuando os tiques são muito intensos com elevado grau de interferência na vida da criança, comprometendo os seus contactos sociais e o seu desempenho escolar, é fundamental procurar ajuda especializada para lidar com o prolema. Quanto mais precoce for a intervenção, melhores serão as possibilidades de recuperação. A intervenção nas perturbações de tiques poderá ser farmacológica e/ou psicológica, de acordo com a intensidade da mesma. A intervenção psicológica com maior eficácia demonstrada baseia-se nas técnicas cognitivo-comportamentais. O ensino e treino de estratégias de relaxamento podem ajudar muito a lidar com o problema e com os seus efeitos, ou seja, com o mal-estar que os tiques provocam e que se faz sentir, principalmente ao final do dia. O psicólogo poderá ainda ajudar a criança/adolescente a concentrar-se no tique, antecipa-lo e substitui-lo por um comportamento alternativo. O apoio psicológico pode ainda abarcar outros objetivos pois estas crianças/adolescentes podem apresentar também outras perturbações associadas e outros sintomas como a baixa autoestima ou dificuldades nas relações sociais. Se for o caso, a identificação do fator que estimula o surgimento dos tiques, poderá ser trabalhado no sentido de facilitar o seu desaparecimento.

Tiques nos olhos.jpegMuitas condições médicas e psiquiátricas foram descritas como coexistentes com a Perturbação de Tiques, sendo particularmente comuns a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) e a Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC). A intervenção medicamentosa, em alguns casos mais extremos pode ser uma necessidade, principalmente se os tiques aumentarem e se tornarem mais complexos. Em casos mais extremos, pode ser recomendado pelo pedopsiquiatra ou pelo neurologista, o recurso a medicamentos como neuromoduladores, benzodiazepinas ou antipsicóticos. Contudo, o tratamento para eliminar os tiques, somente se deverá aplicar, em casos em que estes interfiram significativamente nas atividades ou na autoimagem do indivíduo.

 

 

Fontes:

DSM-V – Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (Quinta edição) de American Pshychiatric Association.

http://www.movementdisorders.org/disorders/tics_and_tourette.php

http://www.cdc.gov/ncbddd/tourette/families.html

Bulimia nervosa: atenção aos sinais!

Perturbações do comportamento alimentarA bulimia nervosa é uma perturbação do comportamento alimentar potencialmente grave e que se caracteriza pela ingestão oculta de grandes quantidades de comida, seguida da indução do vómito, ou numa outra forma, pela ingestão excessiva de calorias compensada por níveis demasiado intensivos de exercício físico ou pela utilização de diuréticos e laxantes.

Esta perturbação caracteriza-se pela ingestão alimentar compulsiva, como por exemplo, comer num período de tempo de duas horas, uma quantidade de alimentos, sem dúvida superior àquela que a maioria das pessoas conseguiria ou necessitaria de comer, no mesmo período de tempo. Por outro lado, a bulimia nervosa caracteriza-se também pela compensação excessiva e inapropriada, através de exercício físico, indução do vómito ou toma de laxantes, no sentido de diminuir os efeitos da ingestão desmedida de alimentos. Do mesmo modo, há uma sensação de descontrolo sob o acto de comer ou a incapacidade de parar, durante o acto compulsivo de ingestão alimentar. Estes comportamentos desadequados deverão verificar-se pelo menos uma vez por semana e durante um período de três meses, para que se possa apontar para um diagnóstico de bulimia nervosa.

Bulimia nervosaA prevalência desta perturbação do comportamento alimentar em mulheres jovens é de cerca de 1% e apresenta um pico no final da adolescência e início da idade adulta. Nos homens pouco se sabe acerca desta patologia mas sabe-se que é muito menos comum do que nas mulheres. O início da perturbação acontece habitualmente no final da adolescência ou início da idade adulta, sendo o seu início anterior à puberdade ou depois dos 40 anos, muito raro. É frequente que os comportamentos de ingestão compulsiva comecem durante ou após uma dieta de emagrecimento. Um dos fatores que podem precipitar esta situação, são os acontecimentos de vida marcantes e negativos. Numa grande maioria dos casos clínicos, esta perturbação mantem-se por vários anos, num curso crónico ou intermitente, ou seja, períodos de remissão alternados com períodos de ingestão compulsiva.

Comportamento alimentarAssociado a esta perturbação está o risco de suicídio, ou seja, em indivíduos com bulimia nervosa, a taxa de suicídio é de aproximadamente 2%, sendo particularmente importante a avaliação e despiste de ideação suicida e de comportamentos suicidários nestas pacientes. Cerca de 10 a 15% dos casos de bulimia nervosa evoluem para um quadro de anorexia nervosa e estes indivíduos tendem a oscilar entre períodos de bulimia e anorexia, tornando por vezes o diagnóstico difícil de definir e algumas vezes passam para um diagnóstico de perturbação de ingestão alimentar compulsiva ou para uma perturbação do comportamento sem outra especificação. Os indivíduos bulímicos podem apresentar grandes limitações funcionais, particularmente no que diz respeito ás relações sociais.

Bulimia nervosaOs fatores de risco para a bulimia nervosa são múltiplos, nomeadamente temperamentais, ambientais, genéticos e fisiológicos. No que diz respeito aos fatores temperamentais, destacam-se a baixa autoestima, a sintomatologia depressiva, preocupações com o peso e problemas de ansiedade. Em relação aos fatores ambientais, sabe-se que a internalização de um corpo magro ideal ou histórias de abuso físico ou sexual na infância, podem aumentar o risco do desenvolvimento de bulimia nervosa. A obesidade infantil e a maturação pubertária precoce, podem também constituir-se como fator de risco para o desenvolvimento desta perturbação, assim como a vulnerabilidade genética e a existência prévia de casos em familiares.

Comportamento alimentarEm termos de prevenção, destaca-se a manutenção de hábitos de vida saudáveis e a identificação precoce de qualquer sinal de perturbação alimentar. Nos casos em que a perturbação se começa a manifestar mais precocemente, o acompanhamento pediátrico regular, pode permitir a identificação de distúrbios alimentares logo que estes se manifestem. A manutenção de uma boa autoestima e o desenvolvimento de uma adequada perceção da autoimagem, mediada e modelada pelos pais e adultos significativos, desempenham um importante papel na prevenção das perturbações alimentares. Em termos de tratamento, a bulimia nervosa pode necessitar de uma intervenção farmacológica (e. g. antidepressivos), combinada com acompanhamento nutricional e psicológico. O envolvimento da família e dos amigos nestes casos é fundamental para o sucesso da intervenção. Em casos de extrema gravidade pode ser necessária a hospitalização.

As perturbações do comportamento alimentar são muito graves e preocupantes, no entanto, com o apoio certo e no momento certo, tudo se ultrapassa, tudo se resolve!

Não deixe de pedir ajuda.

 

Fonte: DSM-V – Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (Quinta edição) de American Pshychiatric Association

Porque cortas os teus braços?

DepressãoA adolescência é uma fase do desenvolvimento humano marcada pela mudança, vulnerabilidade, ambivalência e por vezes incompreensão, angústia e rebeldia. Crescer é difícil e nesta fase os jovens têm por vezes dificuldades de expressão emocional, de estabelecerem relacionamentos positivos e de lidarem com algumas questões próprias desta etapa da vida, que marca a transição entre a infância e a idade adulta.

Por vezes, os adolescentes utilizam estratégias não adaptativas e traumáticas que incluem cortar-se, queimar-se ou morder-se, entre outras, numa tentativa de se libertarem da tristeza, dor emocional, desespero, desesperança, culpa, ansiedade ou raiva que sentem, depois de já terem utilizado todas as estratégias que conhecem, para comunicar o seu estado emocional. Os comportamentos auto lesivos são fenómenos multicausais, resultado de complexas interacções entre factores genéticos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Por essa razão não são actos que possam ser olhados isoladamente, sem que seja enquadrada a realidade da vida do jovem, no que diz respeito aos vários contextos em que se insere.

PsicopatologiaÉ relativamente frequente, os pais destes jovens não terem conhecimento do que se está a passar com os seus filhos. Alguma dificuldade na comunicação, que caracteriza a relação pais-filhos adolescentes, pode explicar este desconhecimento. Mesmo quando estão a par desta realidade, alguns pais têm dificuldade em nomear e lidar com os comportamentos auto lesivos dos filhos, ou porque lhes provocam um bloqueio emocional ou como mecanismo de defesa, acabam por desvalorizar ou ignorar. Há muitas vezes um desencontro entre as narrativas dos adolescentes em relação aos comportamentos de auto lesão e as dos seus pais, o que por um lado traduz um choque por terem tomado conhecimento do problema mas por outro lado, porque o procuram esconder.

Depressão

O conflito familiar, as discussões repetidas e mantidas entre o casal, a violência física e/ou psicológica, as dificuldades na comunicação entre os vários elementos da família, a separação/divórcio marcada pelo litígio, o sentimento de abandono, o conflito entre os pares, o bullying ou as zangas e desencontros na vida amorosa, constituem-se entre muitos outros, como determinantes para os comportamentos auto lesivos. Num relato marcado pela emoção, J. P., uma jovem de 16 anos dizia: “O meu irmão parece que não liga, nada o perturba mas eu, não suporto a forma como o meu pai fala com a minha mãe. Ele grita com ela a toda a hora e desvaloriza-a constantemente por ser mulher. Eu evito chorar para que ela não sofra ainda mais mas depois, não aguento a dor no peito que me sufoca, fecho-me na casa de banho e faço cortes nos braços para abafar essa dor. Nada é pior do que a tristeza que sinto no meu peito”. Quando a dor emocional se torna insuportável, por vezes os adolescentes sentem a necessidade de sentir dor física, como única forma de alívio. O que fazer, como ajudar?

SuicídioA prevenção é a palavra-chave. Alertar a comunidade escolar para este tipo de problemas e desenvolver programas de prevenção bem estruturados, pode ser um bom princípio. Estes programas deverão contemplar variáveis como a detecção precoce e tratamento dos problemas mentais, assim como a redução do estigma a eles associado. A restrição do acesso a armas ou medicamentos e o controlo do consumo de bebidas alcoólicas é certamente um caminho para prevenção. É também necessária a formação dos profissionais dos meios de comunicação para os perigos do efeito de contágio. A criação de linhas telefónicas de apoio, maior acessibilidade aos serviços de saúde e a formação dos pares para a identificação dos sinais de alerta, têm também o seu papel na prevenção destas práticas auto destrutivas.

Fatores protetores suicídioPara além disso, a promoção e a manutenção de relações próximas saudáveis pode aumentar a resiliência individual e actuar como um factor de protecção. Jovens pertencentes a famílias com elevado grau de coesão, com capacidade de envolvimento mútuo, interesses comuns e suporte emocional têm menor risco de vir a adoptar este tipo de comportamentos auto destrutivos. Escolhas saudáveis de estilo de vida que promovam o bem-estar físico e mental (exercício físico regular, hábitos de higiene de sono, alimentação adequada, não utilização de álcool e drogas). A par destes hábitos saudáveis, a manutenção de relacionamentos saudáveis, a integração social, e uma gestão eficaz do stress, são também factores protectores para comportamentos auto lesivos. O sentimento de pertença a uma família, a uma escola, a um grupo, a uma instituição ou a uma comunidade, pode também proteger os adolescentes desta problemática.

SuicídioEm casos extremos, em que os comportamentos auto lesivos entram numa escalada que pode levar a tentativas de suicídio, pode ser necessário o internamento do jovem em contexto hospitalar. Pode ser necessária a intervenção psiquiátrica com prescrição de fármacos no sentido de estabilizar o jovem. Posteriormente, após uma avaliação cuidada, a intervenção psicológica individual, familiar ou uma abordagem mista, poderá ser o indicado. A maioria dos comportamentos auto lesivos acontecem em casa e muitas vezes estão relacionados com acontecimentos do meio intrafamiliar. Assim, o envolvimento familiar é essencial, no sentido de falarem sobre o problema, de o compreenderem e de saírem eventualmente da negação ou de ultrapassarem o choque inicial da tomada de conhecimento. A saúde mental deve ser uma prioridade e os adolescentes não são excepção. Muitos dos problemas emocionais e psicológicos têm inicio nesta fase da vida. As perturbações de ansiedade e depressão, por exemplo, são bastante prevalentes nesta faixa etária.

Comportamentos autolesivosO não tratamento destas patologias pode levar tanto à sua cronicidade, como a evoluir para outras situações que podem levar a desfechos trágicos. Sabe-se hoje que os comportamentos auto lesivos são um forte preditor para as tentativas de suicídio. É fundamental que os pais e cuidadores se mantenham atentos aos comportamentos dos seus jovens e que estabeleçam e mantenham com eles, relações de afecto e proximidade. Ensinar aos jovens estratégias de resolução de problemas, de comunicação assertiva e facilitar-lhes a expressão emocional, assim como desmistificar crenças erróneas e fantasias, por vezes tão frequentes nesta idade, pode fazer a diferença entre a vida, e a morte.

Se o seu caminho está difícil de trilhar sozinho, procure ajuda. É também para isso, que serve um Psicólogo.