Bulimia nervosa: atenção aos sinais!

Perturbações do comportamento alimentarA bulimia nervosa é uma perturbação do comportamento alimentar potencialmente grave e que se caracteriza pela ingestão oculta de grandes quantidades de comida, seguida da indução do vómito, ou numa outra forma, pela ingestão excessiva de calorias compensada por níveis demasiado intensivos de exercício físico ou pela utilização de diuréticos e laxantes.

Esta perturbação caracteriza-se pela ingestão alimentar compulsiva, como por exemplo, comer num período de tempo de duas horas, uma quantidade de alimentos, sem dúvida superior àquela que a maioria das pessoas conseguiria ou necessitaria de comer, no mesmo período de tempo. Por outro lado, a bulimia nervosa caracteriza-se também pela compensação excessiva e inapropriada, através de exercício físico, indução do vómito ou toma de laxantes, no sentido de diminuir os efeitos da ingestão desmedida de alimentos. Do mesmo modo, há uma sensação de descontrolo sob o acto de comer ou a incapacidade de parar, durante o acto compulsivo de ingestão alimentar. Estes comportamentos desadequados deverão verificar-se pelo menos uma vez por semana e durante um período de três meses, para que se possa apontar para um diagnóstico de bulimia nervosa.

Bulimia nervosaA prevalência desta perturbação do comportamento alimentar em mulheres jovens é de cerca de 1% e apresenta um pico no final da adolescência e início da idade adulta. Nos homens pouco se sabe acerca desta patologia mas sabe-se que é muito menos comum do que nas mulheres. O início da perturbação acontece habitualmente no final da adolescência ou início da idade adulta, sendo o seu início anterior à puberdade ou depois dos 40 anos, muito raro. É frequente que os comportamentos de ingestão compulsiva comecem durante ou após uma dieta de emagrecimento. Um dos fatores que podem precipitar esta situação, são os acontecimentos de vida marcantes e negativos. Numa grande maioria dos casos clínicos, esta perturbação mantem-se por vários anos, num curso crónico ou intermitente, ou seja, períodos de remissão alternados com períodos de ingestão compulsiva.

Comportamento alimentarAssociado a esta perturbação está o risco de suicídio, ou seja, em indivíduos com bulimia nervosa, a taxa de suicídio é de aproximadamente 2%, sendo particularmente importante a avaliação e despiste de ideação suicida e de comportamentos suicidários nestas pacientes. Cerca de 10 a 15% dos casos de bulimia nervosa evoluem para um quadro de anorexia nervosa e estes indivíduos tendem a oscilar entre períodos de bulimia e anorexia, tornando por vezes o diagnóstico difícil de definir e algumas vezes passam para um diagnóstico de perturbação de ingestão alimentar compulsiva ou para uma perturbação do comportamento sem outra especificação. Os indivíduos bulímicos podem apresentar grandes limitações funcionais, particularmente no que diz respeito ás relações sociais.

Bulimia nervosaOs fatores de risco para a bulimia nervosa são múltiplos, nomeadamente temperamentais, ambientais, genéticos e fisiológicos. No que diz respeito aos fatores temperamentais, destacam-se a baixa autoestima, a sintomatologia depressiva, preocupações com o peso e problemas de ansiedade. Em relação aos fatores ambientais, sabe-se que a internalização de um corpo magro ideal ou histórias de abuso físico ou sexual na infância, podem aumentar o risco do desenvolvimento de bulimia nervosa. A obesidade infantil e a maturação pubertária precoce, podem também constituir-se como fator de risco para o desenvolvimento desta perturbação, assim como a vulnerabilidade genética e a existência prévia de casos em familiares.

Comportamento alimentarEm termos de prevenção, destaca-se a manutenção de hábitos de vida saudáveis e a identificação precoce de qualquer sinal de perturbação alimentar. Nos casos em que a perturbação se começa a manifestar mais precocemente, o acompanhamento pediátrico regular, pode permitir a identificação de distúrbios alimentares logo que estes se manifestem. A manutenção de uma boa autoestima e o desenvolvimento de uma adequada perceção da autoimagem, mediada e modelada pelos pais e adultos significativos, desempenham um importante papel na prevenção das perturbações alimentares. Em termos de tratamento, a bulimia nervosa pode necessitar de uma intervenção farmacológica (e. g. antidepressivos), combinada com acompanhamento nutricional e psicológico. O envolvimento da família e dos amigos nestes casos é fundamental para o sucesso da intervenção. Em casos de extrema gravidade pode ser necessária a hospitalização.

As perturbações do comportamento alimentar são muito graves e preocupantes, no entanto, com o apoio certo e no momento certo, tudo se ultrapassa, tudo se resolve!

Não deixe de pedir ajuda.

 

Fonte: DSM-V – Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (Quinta edição) de American Pshychiatric Association

Psicologia clínica pediátrica: na saúde e na doença

Psicologia da DoençaQuando a criança sofre de uma condição fisiológica, principalmente se se tratar de uma doença crónica, como por exemplo a diabetes, a intervenção psicológica pode ser uma mais-valia, quer na aceitação do diagnóstico, quer na adaptação à doença e no desenvolvimento de estratégias para lidar com a mesma. Do mesmo modo, a intervenção psicológica pode promover a prevenção de doenças, como por exemplo a obesidade, educando para a saúde, no sentido de promover um desenvolvimento saudável da criança.

Uma criança doente é uma criança normal numa situação anormal, situação esta que pode potenciar emoções e comportamentos perturbados, como pode também alterar as rotinas esperadas da criança em determinada etapa do desenvolvimento. Pode no entanto, tornar-se numa experiência positiva em termos de aprendizagem de estratégias e formas de confronto, que poderão vir a ser utilizadas em situações de vida futuras. Habitualmente, a intervenção psicológica em contexto de doença física, é realizada num tempo relativamente curto e com objectivos muito concretos e pré-definidos, com recurso a metodologias de abordagem comportamental e cognitiva, orientadas para o objectivo. A intervenção deverá abranger não apenas a criança doente mas também os pais ou cuidadores, bem como alguns constituintes do contexto em que a criança se desenvolve, como por exemplo, os professores/educadores. Continue a ler “Psicologia clínica pediátrica: na saúde e na doença”

Comportamentos auto lesivos e suicídio

Comportamentos auto lesivosNa adolescência, os comportamentos auto lesivos assumem uma grande relevância, estando associados a patologia psiquiátrica, podendo ser preditores de tentativas de suicídio no futuro.

Podemos entender por comportamentos auto lesivos (CAL), auto mutilação ou auto lesão não suicida, todos os comportamentos com resultado não letal, em que o sujeito se envolve deliberadamente, com o objectivo de causar dano a si mesmo mas sem a intenção de provocar a morte (ex. cortar-se, queimar-se, morder-se, saltar de alturas, ingerir medicamentos em dose excessiva…). Considera-se que hoje em dia, estes comportamentos na adolescência constituam um grave problema de saúde pública. Embora a investigação nesta área aponte Portugal como um dos países com menor taxa de prevalência desta problemática em relação a outros países da Europa, o facto é que mesmo assim, estes comportamentos são graves e relativamente frequentes durante a adolescência, principalmente em jovens do género feminino. Mais preocupante se torna, se acrescentarmos que cerca de 2/3 dos pais não têm conhecimento de que os seus filhos têm comportamentos de auto lesão. Entende-se por tentativa de suicídio, qualquer acto levado a cabo por um sujeito e que tem como objectivo a sua morte mas que por qualquer razão de diversas ordens e normalmente alheia à vontade do sujeito, acaba por não se concretizar. Já o suicídio consumado refere-se à morte provocada por uma acção levada a cabo pelo próprio sujeito, com a intenção de por fim à sua vida. Continue a ler “Comportamentos auto lesivos e suicídio”

Internalização e externalização

InternalizaçãoAs perturbações habitualmente designadas de internalização ou de externalização, constituem um tipo específico de problema emocional e comportamental, que se manifestam em qualquer idade e com características bastante diversificadas.

As perturbações de internalização manifestam-se quando o sujeito tenta manter um controlo desajustado do seu estado emocional interno, utilizando para tal somente estratégias internas. Estas perturbações derivam da convergência de factores biológicos (ex. défice nos neurotransmissores), familiares (ex. conflitos conjugais ou parentais), acontecimentos de vida (ex.. morte de um familiar significativo, perda de capacidades físicas), factores cognitivos (ex. crenças erróneas) e factores comportamentais (ex. isolamento social). Podemos identificar vários tipos de perturbações de internalização, nomeadamente a depressão, a ansiedade, a somatização e a fobia social. Continue a ler “Internalização e externalização”

A solidão e os mais velhos

EnvelhecerO conceito de solidão tem vindo a ser estudado por diversas áreas do conhecimento cientifico e pode ser entendido sob várias perspectivas. É um conceito que envolve uma grande subjectividade uma vez que a solidão é sentida por cada um de forma particular, sendo também alvo de inúmeras definições e significados.

Se para uns estar só significa estar fisicamente só, outros descrevem a solidão como um sentimento que podem ter, mesmo rodeados de uma multidão. Se uns desejam estar sós porque gostam de estar consigo mesmos e apreciam o silencio e a quietude, outros há que não suportam a ideia de ficarem sozinhos por mais do que um par de horas. À luz da psicologia, a solidão pode caracterizar-se pela ausência afectiva do outro e pela sensação de se estar sozinho. O outro pode até estar fisicamente perto, mas não existe aproximação psicológica, por falta de comunicação e de interacção emocional. Assim, a solidão constitui-se como um sentimento angustiante e doloroso, sentido pelo sujeito sempre que há discrepância entre o tipo de relação social que deseja ter e o tipo de relação social que consegue ter. Continue a ler “A solidão e os mais velhos”

Obesidade infantil e juvenil

excesso de pesoSegundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o problema da obesidade é um dos maiores desafios para a saúde pública deste século. Nos últimos vinte anos e de um modo mais ou menos global, as taxas de obesidade em crianças e adolescentes aumentaram significativamente. Dados recentes da Associação Portuguesa contra a Obesidade Infantil (APCOI) revelam que, mais de 30% das crianças e adolescentes portugueses têm excesso de peso ou são obesos.

A obesidade infantil e juvenil constitui-se como um factor de risco para o desenvolvimento de outras patologias, como por exemplo a diabetes e as doenças cardiovasculares. Também a saúde psicológica dessas crianças/adolescentes pode ser afectada pela sua vivência com o excesso de peso. A baixa autoestima e autoconfiança, a dificuldade em lidar com a sua imagem corporal e o estigma social que leva por vezes a situações de discriminação, podem conduzir ao desenvolvimento de sintomatologia depressiva ou ansiosa. Estes estados, para além de interferirem com o bem-estar da criança/adolescente,  se não forem tratados, poderão agravar-se e prolongar-se pela idade adulta. O sofrimento psicológico experimentado por algumas destas crianças/adolescentes pode afectar de forma negativa o seu rendimento escolar e as suas relações sociais, levando por vezes ao isolamento, o que faz com que percam algumas experiências associadas a um saudável desenvolvimento mental. Neste contexto, o papel do psicólogo pode fazer a diferença. Continue a ler “Obesidade infantil e juvenil”

Crianças e castigos corporais

Disciplinar e ensinar
A violência pode estar presente nas vidas das crianças de três formas distintas: os atos de violência a que assistem, os atos de violência de que podem ser vítimas e os atos de violência que elas próprias perpetram.

Uma das principais formas de violência presente nas vidas de algumas crianças são os castigos corporais. Os castigos corporais referem-se ao uso da força física por parte, habitualmente de adultos, com a intenção de corrigir ou controlar um comportamento desadequado, causando dor à criança. São exemplos de castigos corporais as palmadas, empurrões, beliscões, puxões de cabelo ou de orelhas, assim como o uso de produtos agressivos como por exemplo pimenta na língua, entre outros. Estes castigos corporais que não são menos que atos de violência utilizados contra as crianças, são muitas vezes justificados pela necessidade de disciplinar. Disciplinar é ensinar, e ao tentar disciplinar-se uma criança por meio de castigos corporais vai levar a que ela aprenda a resolver os seus problemas com base na violência. A criança agredida aprende a agredir como forma de lidar com os seus problemas e dificuldades, correndo o risco de ela própria se tornar agressora. Continue a ler “Crianças e castigos corporais”

O poder do abraço

O poder do abraçoO toque físico pode ser tão agradável como necessário. Várias são as teorias que defendem que a estimulação pelo toque favorece o bem-estar físico e emocional dos indivíduos. O toque terapêutico, como por exemplo a massagem, constitui-se como uma ferramenta eficaz no alívio e tratamento de determinados sintomas físicos de doença. O abraço é uma forma especial de toque que pode contribuir para o aumento do bem-estar físico e emocional.

Algumas  pessoas não gostam de abraços e sentem-se desconfortáveis com o contacto físico. Qualquer tentativa de conforto pelo toque será desagradável e indesejada, criando uma barreira intransponível entre si e o outro. Abraçar e ser abraçado implica uma troca de afectos e disponibilidade para dar e receber, e quando essa disponibilidade não existe, quando o contacto físico é indesejado, forçar terá sempre um efeito nocivo. Há que saber ler os sinais transmitidos pelo outro e perceber se efectivamente o abraço pode ser ou não bem-vindo. Continue a ler “O poder do abraço”

Anorexia nervosa

Perturbações alimentares

A Anorexia Nervosa é uma das perturbações do comportamento alimentar mais comuns. Trata-se de uma patologia psiquiátrica com três características essenciais: restrição persistente do consumo de energia (alimentos), medo intenso de ganhar peso ou comportamentos persistentes que interferem com o ganho de peso (vómito) e perturbação da percepção do seu próprio peso ou imagem corporal.

O Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-5) insere-a nas perturbações da alimentação e da ingestão e define como critérios de diagnóstico, a restrição do consumo de energia relativamente às necessidades que conduz a um peso significativamente baixo para a idade, sexo, trajectória do desenvolvimento e saúde física; o medo de engordar e ganhar peso e os comportamentos persistentes que interferem com o ganho de peso, mesmo quando este já é significativamente baixo. Constitui-se ainda como critério de diagnóstico, a perturbação na própria apreciação do peso ou do aspecto e forma corporal, bem como a ausência do reconhecimento da gravidade do peso actual. Continue a ler “Anorexia nervosa”

1ªs Jornadas de Comportamentos Aditivos: Alcool, Tabaco e Internet

Alcool tabaco jogos

Tiveram lugar pela primeira vez no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, as Jornadas dos Comportamentos Aditivos, que contaram com a participação, como oradores, de profissionais da área da saúde mental, nomeadamente médicos, psiquiatras, psicólogos e enfermeiros, entre outros. O evento foi da máxima importância uma vez que abordou temas muito actuais – álcool, tabaco e internet – focando-se nas várias dimensões de uma problemática com um indiscutível impacto negativo, no indivíduo, nas famílias e na sociedade, que é a adição.

Deixo aqui um resumo dos temas apresentados e debatidos, que embora incompleto devido à quantidade das comunicações e especificidades das mesmas, tem como objectivo despertar a consciência dos meus leitores, no sentido da reflexão e porventura da procura de mais informação sobre o tema. Para isso deixo no final algumas referências, de publicações que serviram de base para a informação abaixo descrita e/ou complementar à informação apresentada. Continue a ler “1ªs Jornadas de Comportamentos Aditivos: Alcool, Tabaco e Internet”